O som nos meios de transporte

15 junho, 2011

Aviso: Este texto em nada tem a ver com o barulho dos motores de determinados veículos! Caso contrário, o título seria “o som dos meios de transporte”.

Não sei se o leitor (ou a leitora) já notou que há um certo padrão em se escutar música nos variados meios de transporte que existem por aí. Provavelmente já deve ter notado, especialmente quando a música ouvida está aos berros no carro que passa ao seu lado. Nesse caso, é batata! Quando o som do carro pode ser ouvido ao dobrar esquina do quarteirão anterior ao que você está, pode ter certeza que a música lá tocada é uma porcaria, seja lá qual for o seu gosto. Em casos extremos, o volume do som é inversamente proporcional à qualidade sonora emitida. Mas, claro, há exceções (raríssimas, mas há), como na vez em que em pleno sinal fechado da Pinheiro Machado, sentido Túnel Santa Bárbara, um marmanjo robusto, pra não dizer gordinho, trajando camiseta regata e boné (um tipo clássico de “mal-ouvinte” no carro – nada contra quem usa regata e boné, é apenas uma constatação… e uma tiradinha de sarro) escutava em alto e bom som, literalmente, um Chico Buarque (talvez “Samba do grande amor”, não me recordo exatamente) que deu pra notar a quilômetros de distância. Eu, que vinha atravessando a rua com meu amigo João, ao perceber do que se tratava, logo pensei e comentei: “Que coisa fora de contexto!”, pensamento retribuído de bate-pronto por “Joe Joe”. Também posso acrescentar o episódio do dia em que, ao lado de minha irmã, ”alopramos” o marcador de volume ao som de “Irene” (num estilo um pouco diferente de Caetano e Gil) em pleno trânsito da rua Jardim Botânico. Estava trânsito, calor e na hora do almoço, de modo que peço-lhes um desconto pela parcial privação de sentidos.

No entanto, pior do que escutar aqueles mega-estrondos dos aparelhos de som dos carros no volume máximo, é ter de presenciar a algazarra produzida pelo motorista que resolve estacionar seu carro, abrir o porta-malas e, a partir daí, inaugurar a sua festa a céu aberto. Cena muito comum nos finais de semana, os estacionamentos são os ambientes preferidos para a realização destes atos, especialmente se o estacionamento em questão for descoberto. A visualização ficará completa mesmo se o local for estacionamento de super-mercado ou shopping center em dia de algum evento que não tenha muito a ver com o estabelecimento, tais como shows ou festas nas proximidades. O som não basta estar alto, tem que ser algo agitado. As principais pedidas nesses casos têm que explorar a capacidade das potentes caixas de som instaladas no porta-malas do possante. Geralmente, o pessoal vai de algo eletrônico, um funk carioca ou, dependendo do público, até mesmo um pagodão desses melosos atuais.

O pancadão também costuma rolar solto dentro dos ônibus e trens. Embora a paisagem do Rio de Janeiro seja uma admirável, toda viagem necessita de atrativos a mais, além da vista da janela. No caso de um ônibus ou trem lotado, por exemplo, pode dar adeus à possibilidade de rapidamente querer sentar na janelinha, já dizia o sábio baixinho Romário (com outras palavras e em tom um pouco mais agressivo, é verdade). Tudo começa com os trocadores que ouvem músicas e o noticiário para passar as horas de tédio. Esses não são problema, pois não alopram nos horários de início e fim de expediente, mas sim aqueles que pagam a passagem e se comportam como se o lugar fosse sua casa. Os “ouvintes”, digamos assim, não costumam respeitar os demais passageiros com seus sons ligados em altos volumes. Para não incomodar tanto – afinal, todo mundo tem um mínimo de senso de responsabilidade, por mais hipócrita que esta seja – costumam sentar nos bancos de trás (quando nos ônibus, nos trens vão em qualquer lugar mesmo), como se adiantasse de alguma coisa. A grande questão que envolve a barulheira dentro dos coletivos/transportes de massa está no fato de que quem ouve seu radinho nos mais altos volumes não se impotrta nem mesmo com o horário que o faz, atrapalhando a necessária soneca alheia antes ou depois de se trabalhar. Isto criou tanta polêmica (exagero aqui, pois, no máximo, gera pequenas discussões e resmungos dentro do ônibus) que até uma campanha não oficial foi criada, nos moldes das demais campanhas de doações existentes – a “Doe um fone para um funkeiro” – na qual vários cartazes já surgiram por aí. Vide os exemplos abaixo:

Eu sugeriria a ampliação dessa campanha para outros tipos de música. Uma outra trupe que curte ouvir seu som sem importar com quem está à sua volta são aqueles que escutam músicas evangélicas. Nesse caso em particular, os donos do aparelho têm geralmente uma atitude de indiferença frente às reclamações dos demais, pois o alto volume das canções, na visão deles, faz parte de uma estratégia de conversão de fiéis. Sem querer desrespeitar a crença de ninguém, também não acho que encher a paciência das pessoas seja algo que arrebanhe novas pessoas, ainda mais com músicas geralmente de baixíssima qualidade (vão dizer que ”gosto não se discute”, mas isso é assunto para um outro dia).

No extremo oposto da barulheira, dentro dos metrôs a galera parece ser mais reservada na escuta de suas músicas. O metrô, por si só já é um espaço mais sóbrio – e nada tem a ver o fato de ser proibido entrar alcoolizado nas estações (!) – e reservado por não nos permitir o contato visual com a cidade lá fora em muitas das estações (a linha 1, por exemplo é toda por baixo da terra). Uma impessoalidade que não condiz muito com o espírito dos cariocas. Não é por acaso que cena usual é ver pessoas com seus fones de ouvido e olhos pro chão ou até mesmo fechados, como se quisessem evitar que os outros notassem suas presenças (aliás, esse isolamento nos fones de ouvido é uma tendência mundial em virtude das novas tecnologias). O máximo que se ouve – pra quem está “de fora” são aquelas batidas e ruídos que os fones emitem para além das orelhas (outro dia me falaram que termo ”ouvido” não existe mais no vocabulário médico. Foi um choque, virou tudo “orelha”).

O som dentro da Van é um atributo mais da gandaia. Geralmente presentes à noite, entrar numa van com o som ligado ou com um passageiro escutando uma musiquinha é um incentivo pra voltar pra casa de madrugada (aí vai da responsabilidade e obrigações de cada um). O pequeno espaço faz com que todos consigam escutar, sem escapatória, o som ambiente. O repertório geralmente traz um ritmo dançante, dos mais variados. Funk, hip hop, samba, forró, pagode, pop-rock, até uma salsa cubana pode pintar no interior das vans. Nunca ouvi por lá, diga-se de passagem – entendeu? de passagem (licença para trocadilhos infames) – , foi o som de Ed Motta (se arruma, tem espaço na vaaaan).

Os outros meios de locomoção tradicionais talvez não sejam dignos de maior nota. Afinal, quem anda de moto não ouve nada, além do barulho do vento no capacete e o barulho do trânsito. Nas bicicletas, tirando aquelas “bicicletas de som” (veja aqui), é também, no máximo, o fone de ouvido. Antigamente os ciclistas costumavam carregar seus walkmans para curtir a travessia, mas hoje é tudo no mp3 e afins mesmo. Não tenho conhecimento sobre o que é de praxe nas charretes (e elas são bem raras nas cidades grandes), pedalinhos e quaisquer outro veículo para passeios curtíssimos. Pra terminar, o bonde, o meio de transporte mais simpático e infelizmente em extinção, resistente apenas no bairro de Santa Teresa, apesar da sanha da máfia da Fetranspor. Por ser aberto e permitir um maior contato com a rua também não costuma ter seus passageiros ouvindo nenhum tipo de som ou portando aparelho em especial. Fiquemos então com uma música sobre ele (O Bonde, de Maurício Tapajós, Sidney Miller e Sueli Costa, do indispensável disco “Rio, ruas e risos”, do Maurício com o Aldir):

Até mais!


Discussão no bar

13 maio, 2011

É coisa que acontece. Se não são poucos os brasileiros que fazem do botequim o seu segundo – e às vezes, até, primeiro – lar, também não são poucos os que vez por outra se envolvem em discussões no respectivo ambiente. Alguns bares, geralmente aqueles mais identificados com seu bairro ou cercania, têm uma espécie de clientela própria, que dá vida ao lugar. Laços de solidariedade e comunitarismo muito fortes são criados no cotidiano de um botequim, o local hoje em dia é um verdadeiro foco de resistência ao individualismo que assustadoramente transforma a mentalidade de nossa população, sem distinção de classe, cor, ou credo. Nesse sentido, a dinâmica da vida dos botecos transforma seus frequentadores numa espécie de família, alguns mais próximos – e é impressionante a proximidade que se cria -, outros menos, alguns mais amigáveis, outros conflitantes, sem mencionar todo seu calendário próprio de festividades, seus rituais e todo o conjunto de práticas que dá sentido e ganha sentido na vivência cotidiana de um bar.

Voltando ao âmbito das discussões, no bar, como em qualquer lugar, sempre há aquele sujeito “do contra”, que não concorda com nada do que é debatido ou jogado ao vento no ambiente etílico. Até aí não há problema, se o cara for capaz de argumentar toda sua contrariedade, mesmo que não convença a ninguém, tem lá seus méritos. O problema é quando o sujeito não se contenta em discordar e ainda parte para a provocação, ou pior, quando além disso, não aceita ser provocado, ou ainda, somado a tudo, ainda arruma confusão, procura confusão e inventa confusão em assunto não merecedor ou que não lhe diz respeito.

Não estou condenando pessoas assim, o bar, assim como a maioria dos ambientes sociais, deve propiciar a discussão, de modo que é natural que algumas se tornem fervorosas – antes uma grande dissenção do que um bando de quietos que concordam com tudo a todo tempo. No entanto, em se tratando de ambientes amigáveis como um botequim, o exaltar de ânimos pode provocar desconforto posterior entre os frequentadores.

E foi assim que se sucedeu. Se fiquei um pouco titubeante a escrever sobre isso (pois dois de meus “três” leitores sacaram no título do que se tratava), foi para não jogar mais gasolina em fogo recém-apagado. A verdade é que todo bar tem seu sujeito estourado. Não a todo momento, pois em noventa por cento das vezes ou mais o ambiente familiar e amigável não se desmancha no transcorrer dos fins de tarde e noites. O estopim, embora também possa ocorrer quando o objeto da discussão é política, mulher, música, o tempero da feijoada, o ovo azul do balcão, a última cerveja na geladeira, ou a fumaça de cigarro alheia, geralmente é o futebol, especialmente quando o jogo diz respeito a apenas um dos times dos frequentadores presentes no momento. É um festival de “não venha falar mal do meu time quando o seu não está jogando!”, “você só tá aqui pra secar, né?!”, “vocês só ganham roubado!”, “viu?! Pênalty assim pra gente esse safado não dá!”, “vai errar, vai errar!”, “essa pelada é o que vocês chamam de futebol?!”, “que timinho, hein?!”, sempre aos berros, que não tem mais fim. 

Vamos aos fatos, que já começo a ficar inquieto. Todo bar tem lá seu Wanderley, chamemos assim. Uma figura a maior parte do tempo boa praça, cheia de seus trocadilhos maliciosos, frequentador assíduo e dos mais antigos do estabelecimento, pai e avô de família, a quem todos possuem respeito, consideração e amizade. Vale ressaltar que o Wanderley no caso em questão nada tem a ver com seu xará com a letra “V”, treinador de ego inflado e que há muito parece ter perdido qualquer noção de como se monta um time de futebol, visto que o cara já está aí há alguns meses e o que se vê em campo é apenas um bando desordenado que só ganha na base do talento e vontade de seus jogadores. 

Como frequentador de buteco não faz cerimônia pra escolher a hora de aportar no balcão, volta e meia ocorre de os torcedores do time cujo jogo está sendo transmitido serem minoria ou, como foi o caso, ocorre de um ou outro gato pingado torcedor do time que nem em campo estava ter aparecido para bebericar justamente na hora do jogo. Gozações e secações à parte, tudo transcorreu normalmente no desenrolar da peleja, todas as suaves doses de crueldade e tensão desceram sem arranhar as gargantas, nem a reputação de ninguém (apenas acelerando vez por outra os batimentos cardíacos).  A confusão se instaurou após o fim do jogo (e do campeonato), com o pessoal já naquele clima de alma lavada, quando involuntariamente e sem saber, um dos campeões da noite soltou, ao chegar de um costumaz freguês, o bordão do esquentadinho (sim, frequentadores assíduos vez por outra criam bordões como modo de definir seu espaço), que àquela altura bebia num canto.

O troço não teve explicação, todo o ressentimento sabe-se lá de quê acumulado explodiu de maneira incontrolável e não houve nada que fizesse o homem parar, esteve possuído por alguns minutos. O desconforto ficou nítido entre os presentes e deixou suas marcas. Mais tarde e nas noites subsequentes, muito foi discutido a respeito de tal atitude. Não havia sido a primeira e todos sabem que não será a última discussão do bar. Aliás, é piada recorrente do local adivinhar quem ainda não brigou com Wanderley, um claro exagero somente possível diante do bom humor característico dos frequentadores de buteco. Ninguém pode afirmar com certeza o que ocorrerá daqui pra frente, apenas que esses estremecimentos das relações fazem parte de ambientes que proporcionam a vida em grupo. Ainda estamos naquele momento preliminar em que alguns simplesmente evitam ficar no bar durante os jogos dos outros times, para não provocar nem desandar de vez as relações. Até o dono do bar foi obrigado a dar uma dura em seu freguês turrão (“tá vendo, agora você espantou minha freguesia!”). Muito se conversa e provavelmente a situação se amenizará, mas isso não ocorre de uma vez e talvez eu não tenha paciêcia para lhes contar o desfecho da história.

Até mais!


Comércio natalino no centro sob o calor de dezembro

18 dezembro, 2010

O tempo no Rio estava relativamente estranho para um mês de novembro. Nada como alguns dias de sol pras coisas retornarem ao seu devido lugar. Dezembro chegou mostrando a que veio e já surgem as reclamações sobre o quão insuportável está o clima. Insuportável pra quem está longe de uma boa praia, diga-se de passagem. Pra não morrer de inveja daqueles que já puderam pegar sua corzinha, desabafo e levo adiante mais um textinho (ué? Mas é o primeiro com esse tema) sobre o calor do último mês do ano. Na verdade, se o calor no Rio é uma constante, a sombra é sempre o lugar mais concorrido nos locais de concentração humana, vide os pontos de ônibus sem teto ou marquise, nos quais as pessoas se aglomeram em fila atrás das sombras de um ou outro poste de luz.

Falando em mês de dezembro, fica quase impossível não lembrar da festinha de fim de ano representada pelo velho barbudo e do absurdo que seria sua aparição ao sol de meio-dia com todos aqueles agasalhos. Se o fato de sua existência é muito mais uma historinha pra criança do que uma realidade (é bom lembrar que até o “Papai Noel de Quintino” já foi pro saco, anos atrás) e não acordaremos com presentes deixados pelo bom velhinho debaixo dos pinheiros natalinos (uma árvore bem de acordo com o clima do Rio), não nos devemos furtar da lembrança de que é a época em que as pessoas saem às compras (até porque o 13o salário taí pra quem tem direito!).

Um dos locais que mais atraem gente é o tradicional trecho das proximidades da rua Uruguaiana e adjacências do SAARA. E como atraem! É gente que não acaba mais. As estreitas ruas daquela parte da região central parecem não dar vazão. No Saara, não bastasse o vai e vem, ainda tem toda a gritaria e os alto-falantes que fazem sua festinha particular com anúncios divertidíssimos. Mas, falando a verdade, quem tá na chuva é pra se molhar e não pode reclamar nem do barulho, nem do aperto, pois os preços costumam ir em conta. O local é sensacional, diga-se de passagem. O calor que faz essa época do ano, por sua vez, é um obstáculo a mais (pegar um sol na cabeça em pleno Saara, com ou sem trocadilhos, não é fácil de aturar). Quando chove é um alívio, especialmente se for um chovisco, ou uma chuva bem fraquinha. Quando chove forte, porém, é que transitar por lá se torna um problema, pois se por um lado as ruas esvaziam, por outro, haja poças e ruas alagadas (e no centro carioca, por ser perto do mar, nessa época reinicia-se a temporada de temporais).

Na Uruguaiana, o camelódromo fica em polvorosa. O lugar que já bomba o ano inteiro, aproveita e faz a festa no período natalino. Se já se encontrava de tudo, encontra-se agora de tudo e mais um pouco. O trânsito de pedestres fica quase impossível. Os mais apressadinhos se esgueiram pelo canto da rua, subindo no meio fio, desviando dos postes, consumidores e vendedores, retornando à rua, subindo novamente na calçada para desviar dos táxis, motos e kombis que aceleram na esperança de escapar do sinal vermelho que se aproxima na esquina com a Avenida.

E tome sol na testa. Não bastasse a enorme variedade de lojas e produtos à venda por ali, nesta época surgem sempre sempre aqueles artigos da moda e “febres” das férias e do verão. Artigos eletrônicos aparecem à rodo, assim como DVD’s dos filmes que ainda nem saíram dos cinemas e de outros que nem filmes são. Na rua do Ouvidor, há a vantagem da maior sombra, devido à sua estreiteza. É, no entanto, impossível passar pela Ouvidor, esquina com a Uruguaiana, ou até mesmo com a Rio Branco, sem ouvir falar no “mais novo lançamento: Tropa de Elite 3!” (claro que tem que ser antes do rapa passar, porque a guarda municipal não dá bobeira e faz sua ronda diária). Obviamente não são os extras do filme, mas sim as cenas das ações das forças armadas e policiais que inundaram as coberturas televisivas nessas últimas semanas (mas chega de falar de inundação, já teve uma e daqui a pouco outras poderão dar as caras).

Os artigos mais concorridos e salientes nos cantos das ruas são os mesmos de sempre: relógios, bolsas, tênis, bijuterias, brinquedos, bolas de futebol. É um verdadeiro festival de promoções. “Bolsa e mochila, baixou pra vinte!”, “Jabulani, olha a Jabulani, a bola da Copa!” (deve ter sobrado às pampas tantos são os vendedores destas), “Carteira é dez, carteira é só dez!”, “Óculos da moda, ó o óculos da moda!”, tudo isso e outros itens à venda, misturados àquela tradicional distribuição de folhetos de financeiras anunciando empréstimos baratos para o natal, compra e venda de jóias, “casas de massagem” “pra dar aquele relax!” (isso, as distribuidoras de papel falam baixinho pra não chamar atenção), sem contar os vendedores de comidas e guloseimas, anunciantes de antenas de televisão, engraxates indo pra Carioca ou Presidente Vargas, o ceguinho da esmola e os vendedores das lojas fantasiados com roupas que vão do Papai Noel a mascotes animais de sorriso largo, sempre com um microfone à mão. Cuidado apenas pra não se distrair e tropeçar no paralelepípedo.

Uma barulhada, um calor infernal, um vai e vem de pessoas com sacolas ou procurando pelos presentes ideais para seus entes e amigos queridos que deixam esta parte da região central apinhada de gente, mas que, por outro lado, não poderia ser mais carioca. Na verdade, até poderia, pois sempre há aqueles que deixam tudo pra última hora numa deliciosa confusão que nenhuma palavra de ordem é capaz de tirar da alma dessa gente.

Até mais!


Panfleteiros e distribuidores de santinhos

2 outubro, 2010

No fim da campanha as ruas ficam intransitáveis, é santinho pra cá, guardadores de placas e galhardetes pra lá, militantes em peso, e, claro, militantes de aluguel. Há certamente uma clara diferença, inclusive de ânimo entre estes dois últimos tipos. Os militantes de verdade mostram-se sempre muito mais animados e aguentam o cansaço numa boa, afinal defendem uma causa, já os ditos “de aluguel”, parecem contar as horas pra irem embora e ficam sempre naquele estilo desanimado e largado na rua, como se distribuir panfletos fosse um fardo.

Uma das melhores medidas tomadas nas últimas eleições foi a proibição definitiva da instalação de galhardetes e faixas em árvores em postes, obviamente, nunca completamente respeitada. No entanto, parece ter criado um monstro: os guardadores de placas de candidatos. As calçadas da cidade encontram-se reduzidas pela metade ou até menos disso por conta dessas imensas placas e das cadeirinhas que essas pessoas se utilizam, afinal, não iriam ficar o dia inteiro paradas de pé ao lado das mesmas pra ganhar uma mixaria. Mixaria essa que, no caso dos piqueteiros pagos do Cabralzinho, estima-se, seja, por mês, maior do que o pagamento dos professores da rede estadual de ensino (e ele ainda chama de salário). O fato é que algumas ruas ficam praticamente intransitáveis, especialmente as estreitas ruas transversais das principais ruas do centro. Nestas, situação semelhante só é perceptível na época do natal, quando vendedores e camelôs se aglomeram para se garantir com as vendas oriundas das festas de fim de ano, lucrando com a imagem do bom velhinho.

Será um fuzuê até domingo, quando não haverá mais tempo e veremos “tapetes” e mais “tapetes” de santinhos de candidatos. No desespero da boca de urna, seus militantes pagos costumam jogar para o alto aquele bolo de papel, primeiramente para se livrarem do trabalho e, em segundo, para evitarem ser interpelados pelas autoridades policiais e acabarem em cana.

O desespero desses distribuidores de santinhos é tão grande que, por diversas vezes, já fui agradecido por pegar o papel de suas mãos. Eu costumo pegar o papel de todos os candidatos, seja qual for seu partido, por uma simples razão. Se for algum picareta ou candidato que não seja do meu gosto, amasso o papel, ou rasgo, e jogo na lixeira. É um papel a menos na mão de um indeciso e um papel a menos no chão. Obviamente, é uma tática de pouca serventia, mas se tiver alguma, já valeu à pena. No entanto, em respeito ao piqueteiro, mesmo que seja pago para tal, não costumo rasgar ou amassar o papel logo de cara (e em sua cara). Dou alguns passos e, aí sim, rasgo ou amasso com vontade e ainda falo mal do candidato (é uma atitude meio autista, admito, mas é um pensamento um pouco humano, afinal de contas, os distribuidores de santinhos também tem sentimentos e podem olhar de cara feia).

Se o papel for distribuído pela militância, por sua vez, a tática deve ser outra. Olha-se para o papel e guarda-se no bolso. Militante nervoso é um ser imprevisível. Mas militante ao menos faz por amor à causa e, dogmatismos possíveis em seus discursos à parte, é sempre bom dar liberdade para sua participação política. Felizmente já vem o fim de semana decisivo e a circulação de pessoas nas ruas tende a diminuir. Não há mais tempo, estamos nos acréscimos. Se chover domingo, como está previsto, a calçada vai ficar com os papéis grudados no chão, em um primeiro momento, e depois toda “empapada” de restos destes.

A polícia no dia de votação, ao invés de procurar autuar e até prender os candidatos que se utilizam da prática de boca de urna (claro que pra prender o delito tem que ter sido grave), acabam prendendo o pessoal da militância. E aí sobra pra todo mundo, seja militância espontânea ou paga. Deviam é dar uma multa pesada pros candidatos que botam placas enormes no meio da rua (e o mais curioso foi o fato de um dos líderes em placas apreendidas ter sido, além do Brazão, recordista, o mentor do choque de ordem, sr. Bethlem. Hipocrisia pouca é bobagem) e, principalmente, pr’aqueles carros de som ensurdecedores (teve um que passava em frente a um hospital e o animal nem aí pra situação) e desnecessários. 

Quem viver, verá a movimentação da cidade no domingo.

Até mais!


100 anos de Adoniran Barbosa!

5 agosto, 2010

Já que falei anteriormente em São Paulo, vamos falar no que eles têm de melhor.

Nesta sexta-feira, dia 6 de agosto de 2010, ele que sintetizou o jeito e o linguajar popular paulistano, marcado pelo sotaque e modo de falar repletos de erros gramaticiais e de concordância, inspirado no povo da capital paulista e na riqueza propiciada pela mistura dos imigrantes italianos que em massa por lá se instalavam e a população que vinha de diversos cantos do país, ambos à procura de melhores condições de vida na Metrópole que aos poucos mostraria sua grandeza (uma cidade que, infelizmente, também não existe mais), completaria hoje 100 anos. É difícil, pra não dizer impossível, surgir outro Adoniran Barbosa. Embora possua seguidores, o que é sempre muito bom a fim de perpetuação, podemos dizer que Adoniran é único. Nascido João Rubinato, na cidade de Valinhos, Adoniran Barbosa construiria seu nome artístico a partir de duas frentes, por um lado, seu grande amigo e companheiro de copo, Adoniran Alves e, por outro,  do cantor Luiz Barbosa, de quem gostava muito. João Rubinato, segundo ele, não possuía a sonoridade necessária para um cantor de sucesso, daí a troca do nome. Após algumas gongadas, enfim conseguiu um contrato no Rádio, curiosamente, após cantar “Filosofia” de Noel Rosa que também faria cem anos em dezembro. Trabalhou nas décadas de 1930 e 1940 nas rádios Cruzeiro do Sul e Record de São Paulo. Atuou também no cinema, mas é na música que está sua mais conhecida obra.

Fiquemos, portanto, com um pouco do que ele fez de melhor. Afinal nós viemos aqui pra ouvir ou pra conversar? Abaixo, primeiramente um comercial da Antarctica de 1974, com Adoniran e os Demônios da Garoa, trazendo o famoso bordão ”nós viemos aqui pra beber ou pra conversar?”:

Agora, vamos às músicas. Abaixo ele canta “As mariposas”:

Iracema (com Elis Regina, pra delírios de uns e outros – piada interna):

E por fim, um trecho da entrevista dada ao programa Ensaio (trechos de Saudosa maloca, Joga a chave, Samba do Arnesto, Um samba no Bixiga, Despejo na Favela e Trem das Onze). Atentem para a intermitente fumaça de seu cigarro:

Até mais!


Folgado

7 maio, 2010

Folgado foi a minha cachorra Baleia. Cabra macho, caçava sem necessidade de peixeira, um tipo puro nordestino. Só que não era nordestino. Peraí que o texto está ruim demais, deixa eu começar de novo…  

Folgado foi pra mim o equivalente ao que a cachorra Baleia fora pra Fabiano no “Vidas Secas”, de Graciliano Ramos (se você não leu esse livro, tome vergonha na cara e conclua a escola, já que esse é praticamente leitura obrigatória  no agora chamado ensino fundamental II, ou procure num sebo/livraria e não conte pra ninguém que ainda não havia lido a obra em questão, pois é vergonhoso. A não ser que você seja um leitor mirim/juvenil, fato que ainda não tive notícias por essas bandas, ou tenha abandonado os estudos por questões financeiras, ficando assim perdoado). Talvez minha relação com Folgado seja mais próxima à de um dos meninos com o cão e não à de seu pai com o mesmo. Deve-se descontar também que as circunstâncias de sua existência não eram de miséria, felizmente.

Folgado já era cachorro “formado” quando passei a ter consciência do mundo, um vira-latas dos bons, matuto daqueles sem medo de se embrenhar no mato. Convivia com Folgado desde a infância apenas duas vezes por ano: nas férias de fim/início de ano e nas de meio de ano, até meus dezessete de idade. Ninguém o viu morrer, assim como ninguém nunca teve notícias de seu nascimento, simplesmente um dia não apareceu mais, da mesma forma que surgiu repentinamente pelas bandas da casa de meu avô e por lá ficou, sem, no entanto, em nenhum momento pedir abrigo. Era um vira-latas do mato – por mais contraditório que possa parecer, pois, ao contrário das ruas, ele, obviamente, não tinha latas para virar no mato -, daqueles que caçava sua própria comida, nada que o impedisse, de vez em quando, aceitar a comida caseira por nós oferecida, além dos ossos que vez por outra lhe eram ofertados e Folgado roía de bom grado (se não me engano, a coitada da Baleia, por sua vez, só arrumava de seus donos ossos mesmo). 

Mas isso era fato raro, gostava mesmo era de sua independência. Vários garotos tentaram domesticá-lo, em vão. Falei no início sobre ele se assemelhar a um nordestino, pois de fato, sem preconceito algum, possuía o formato de sua cabeça achatado, tal qual o tipo ideal (essa foi bem weberiana) da miscigenação dos lá habitantes com os holandeses, na época de sua “invasão” (entre aspas, pois havia uma turminha que bem que gostava da colonização pelo povo dos Países Baixos, sem juízos de valor). Falo da cabeça mesmo, o focinho em si não era achatado, só a parte superior de seu crânio. Talvez seus pais fossem retirantes e tenham vindo num pau de arara com seus donos pro sudeste, vai saber. 

O fato é que estou equivocadamente chamando Folgado de cachorro, pois o rapaz era mais inteligente que muito homem e tinha uma sensibilidade descomunal. Lá em casa, se havia briga ou discussão entre irmãos ou primos, ou se havia alguém cabisbaixo, Folgado era o primeiro a chegar pra consolar. Aproveitava e pedia um carinho, nos seus lisos pelos castanhos cor de mel, estendendo sua pata para nós (tá, todo cão faz isso, mas não invariavelmente quando alguém aparentava estar triste, além de, repito, ser muito inteligente. Claro que ele pedia por chamegos em outras ocasiões também). Nunca se casou, mas fazia questão de prover a “pensão” para seus filhotes, que não foram poucos, pois, mesmo vivendo longe dos grandes centros, afastado de lugares movimentados, Folgado sabia aproveitar os prazeres da vida.

Era um cão protetor e companheiro, portanto, mas não apenas com seus filhotes. Certa noite, quando já idoso (essa eu presenciei), se meteu numa enrascada ao tentar ajudar um amigo que se engalfinhava e levava uma surra de um tamanduá . Foi uma porradaria generalizada, latidos, ganidos e até berros do tamanduá (desculpem, mas não sei o nome do som emitido pelo animal), que, coitado, só se defendia. Na verdade, acho que os cachorros também. O encontro entre os dois parece que foi sem querer, pois estava escuro. Na primeira oportunidade que teve, o tamanduá se mandou pra cima de uma árvore. Os cachorros vieram pra perto da casa cheios de arranhões, sob o olhar de todos, atônitos. Folgado tivera uma orelha rasgada, mas ao menos salvara seu amigo do sufoco – daqueles amigos que, ao ver seus chapas em apuros, já chegaria com uma voadora no meio do peito do oponente, como bem manda a lealdade de uma amizade fraternal.

Tinha uma habilidade fora do comum para caçar cobras, quase um  pré-requisito para se adentrar nas matas daquela região, ”infestadas” de jararacas. E nesse quesito foi um grande professor para a matilha das redondezas. Não foram poucas as vezes em que aparecia um cão com uma cobra morta na boca. Mas, nessa brincadeira, volta e meia algum canino se dava mal e acabava levando uma picada (lembro-me de uma vez em que tivemos de correr ao veterinário, pois um cão amanhecera ferido com um bola no pescoço. Felizmente se salvou), conforme já falei, sua habilidade na caça às cobras era pra poucos.

  Conforme já adiantei, não sei como morreu, mas me recordo dele já bem velhinho, desdentado, saindo pra passear pelo mato e, se possível, descolar uma bóia. De Folgado só tinha o nome mesmo. Um baita amigo.

Até mais.


A alegria de ser Rubro-Negro

10 dezembro, 2009

Ser Flamengo não é fácil.

Quem escolhe torcer para o mais querido, passa, ainda que inconscientemente, a carregar um peso indescritível – de tão descomunal que é - nas costas. E nesses 17 anos de espera, o tal peso parecia se tornar cada vez maior, o brasileiro era uma obrigação que há muito deixara de ser cumprida, para nossa aflição. Não à toa, domingo fui ao Maraca com uma baita dor nas costas, fruto da terceira lesão do ano no mesmo local, e com um resfriado que não me trazia boas recordações nos jogos do Fla em casa.

Nossa geração esperava ansiosa por este título, talvez mais até do que as outras, por sermos bastante pequenos e muitos não se lembrarem da última conquista. Eu mesmo, tenho parcas lembranças inclusive do jogo final contra o Botafogo (lembro mais de minha ida naquele dia ao parque de diversões na cidade natal de meu avô do que do bendito jogo).Vários de nós, por diversos momentos nessa longa caminhada, chegaram a pensar que não fossem ver vivos a conquista do campeonato brasileiro. Lembro-me também de minha pequenina turma de escola logo após o pentacampeonato de 1992. No ano seguinte – em contagem não-oficial, porém de máxima confiabilidade -, dos 20 alunos da sala, 17 (!!!) torciam para o Flamengo, uma supremacia impressionante que explica em parte o porque do invejoso ódio alheio ao time da gávea. Dessa turma da escola, felizmente ainda guardo a amizade de grande parte deles (até do vascaíno e do casal de tricolores. Botafoguenses na turma, só conheci 4 anos depois).

Três horas antes, a caminho do estádio, já não havia quase ninguém à toa nas ruas. Um clima de final de Copa do Mundo com a diferença de que quase todos torciam para uma só nação rubro-negra. Os torcedores de outros times deviam estar concentrados nos seus respectivos jogos decisivos. Não havia trânsito em parte alguma por onde passamos.

Fomos ao Maracanã para assistir in loco, pela primeira vez, a um dos 6 títulos conquistados pelo Mengão. Nos concentramos no “seu” Mariano e fomos de lá para o estádio eu, João, Pedrinho, Sérgio “negão” e Noel (“De azul!! Ele veio de azul contra o Grêmio!!”, hilariamente gritava o exaltado Tiaguinho na saída do Maraca após nos encontrar. Ele fora de arquibancada e nós de cadeira azul/antiga geral). Quase chegando lá, faltando pouco mais de duas horas para o início da partida, recebemos a notícia – de minha mãe aflita - de que os portões de entrada para as cadeiras estavam fechados. Não acreditamos até encontrar uma multidão barrada, que foi crescendo e empurrando continuamente. Algumas pessoas começaram a escalar o muro pendurando-se em bandeiras seguradas por quem estava lá dentro ou por pura habilidade daquelas somente adquiridas por subir em árvores na infância. O portão não abriu, a polícia chegou para reprimir, ao invés de tentar organizar tudo antes da confusão ser instaurada, e decidimos sair dali um pouco. Sérgio havia sumido e seu celular não atendia.  

Minutos depois, conseguimos fazer o contato. Ele estava nos portões das cadeiras do outro lado e anunciou: “Vai abrir, vai abrir!”. Não assistiu ao jogo conosco por incomunicabilidade mútua depois disso. Apertamos o passo para dar a meia-volta necessária. No caminho, encontramos Deni, um dos “representantes” daquela minha geração escolar citada acima e grande amigo, com quem havia combinado de assistir ao jogo mas que, na correria, havia esquecido de avisar meu paradeiro. Entramos e logo liguei para tranquilizar minha mãe. Na verdade, quem quis entrar entrou, mesmo sem ingresso. Provavelmente, mais de cem mil pessoas entraram, como nos bons tempos. No empurra-empurra final logo antes da entrada, ainda surrupiaram a carteira do Deni, safados!    

E dá-lhe Megazoom!

Tirando o Deni e o Noel, que não aparece, saímos com os rostos parcial ou completamente tapados. Mas lá estávamos nós, em meio a dúzias de câmeras.

Sobre o jogo, não há muito mais o que falar, apenas que no início estávamos em um lugar e buscando melhor visão mudamo-nos com a bola já rolando para outro ponto, mais afastado, porém sem pontos cegos. Na correria, Pedrinho ainda levou um baita tombo ao não ver uma corda esticada. Acontece (na hora ninguém riu, mas no bar não deu pra segurar as gargalhadas). Com o  placar adverso, todos pensaram “de novo não!”, fruto de decepções vivas na memória recente. Porém, o segundo gol, do “ponta-esquerda” Ronaldo Angelim, semelhante ao de Rondinelli, Deus da raça, em 1978, explodiu o Maraca de alegria e, após o nervosismo do final, a multidão parecia incrédula e aliviada aos gritos de “É campeão!” e “Hexacampeão!”. Àquela altura do já findado campeonato, não havia mais espaço para dores nas costas nem para resfriadinhos mixurucas, o título era nosso! O urubú voltava a voar mais bonito (aliás, o voo do urubú é o mais bonito dentre os voos dos pássaros, queiram ou não).

A saída do estádio foi o retrato de todos os perrengues passados pela massa rubro-negra. Todos muito felizes, mas de imediato, pareciam comemorar timidamente, talvez pelo tempo enfrentado na fila, pela dificuldade de entrar no estádio, pelo aperto psicológico dentro do Maraca com a dificuldade do jogo (o aperto físico todos já esperavam e estavam acostumados) e pela falta daquele bom líquido translúcido amarelado e gaseificado chamado cerveja. No entanto, torcedor do Flamengo sabe muito bem comemorar títulos e aos poucos a comemoração foi ganhando a feição merecida. As ruas foram tomadas. Deni  partiu em vão para tentar os tais “chopes de graça” que seriam distribuídos na sede da gávea.  Os restantes, já haviam combinado de voltar ao bar do “seu” Mariano para zoar um pouco (“seu” Mariano é torcedor do São Cristóvão e diz que odeia o Fla mais por charme do que por ódio mesmo).

Na verdade, o que buscávamos foi fugir um pouco das típicas comemorações em frente ao Clipper, no leblon, e no baixo-gávea, lugares onde passa-se muito aperto, bebe-se pouco e ainda tem de presenciar um ou outro idiota armando confusão. E fizemos muito bem. A comemoração foi a melhor possível, com direito à presença de vascaínos, tricolores, botafoguenses e até torcedores do Internacional em meio à imensa maioria de rubro-negros. O Rio de Janeiro estava em festa e com um delicioso clima de amizade entre os torcedores, sem aflorar rivalidades. No “seu” Mariano, lotado, todos nos encontramos e batemos o récorde de abertura do bar. Rumamos para a São Salvador na mesma contagiante alegria. Não paramos por ali. Quer dizer, nem todos foram até o fim, mas a festa perdurou até umas quase sete (!!!) da manhã. Nisso eu já tinha ido embora,  porque bem ou mal sou um cara sério. Saí exausto, mas feliz com o Mengão. Parece brincadeira, mas não tive ressaca tamanha a felicidade.

Realmente, ser Flamengo não é fácil, mas é maravilhoso. Dessa semana até, pelo menos, o final do ano que vem o ano é do Hexacampeão Flamengo. Um muito obrigado ao hexacampeão Andrade, à comissão técnica e a todo o elenco.

Até mais!


O surto nervoso do Hare Krishna

23 setembro, 2009

Os leitores certamente já viram os Hare Krishnas pela cidade. Não os definirei precisamente, mas pode-se considerá- los um “povo” festeiro que, quando em grupo, atravessa as ruas cantando músicas que pregam a paz, a tranquilidade, a leveza, o amor à natureza e aos animais e tudo o mais que siga esta linha. Gostam de um passeio na orla (ah gostam!), visto que estão sempre entoando seus cânticos por lá. A história quase cômica que presenciei, não fosse o estranhamento da situação, no entanto, foi a seguinte:

Estava eu num ônibus, enfrentando aquele típico engarrafamento da rua São Clemente, em botafogo, lendo um livro que trazia em minha mochila – que já passou da época de ser trocada, diga-se de passagem-, quando adentrou ao veículo um vendedor trajando uma bata e dizendo-se Hare Krishna. Foi lá pela altura do segundo quarteirão da São Clemente, logo após o metrô, se não me engano. Ele começou seu discurso com aquela voz tranquila e suave, típica dos Hare Krishnas, desejando boa tarde e com a intenção de vender alguma coisa que não lembro, pois estava entretido com minha leitura. Deveriam ser canetas, lapiseiras ou revistas… Não! Me lembro claramente, eram incensos, incensos!  Provavelmente vendeu muito pouco, ou nada, tendo em vista que boa parte dos passageiros já tinha feito “a festa” do vendedor anterior e de que era possível ouvir o barulho de pacotes de balas e amendoins sendo abertos.

Porém, isso não abalou a tranquilidade do personagem em questão, que se dirigiu à saída do coletivo com sua calma habitual. Puxou a cordinha para descer na próxima parada e o apito tocou normalmente. No entanto, o ônibus não parou. Daí o rapaz começou a gritar, ainda apresentando feição serena:

- Motorista!  Abre a porta, por favor!  

E nada…

- Ô motorista! Quero descer!!

Novamente nada… o pessoal do ônibus começou a tentar ajudar-  e aí, me incluo-  aos tímidos gritos de: “Ô piloto, vai descer!”, ou qualquer coisa parecida, mas o ônibus já andava. O Hare Krishna então perdeu as estribeiras e gritou, já furioso (me perdoem os excessos, mas foram essas as palavras):

- Ô car#lho!! Eu quero descer, p*rra!!!

Duas senhoras que estavam sentadas à minha frente se assustaram e uma delas exclamou: “vixi!”. Por sorte do rapaz, o trânsito estava, pra variar, complicado e o ônibus logo parou novamente. As portas se abriram e o ensandecido Hare Krishna (é até estranho escrever essas palavras numa mesma frase) desceu, porém não sem antes finalizar sua indignação com o motorista:

- ‘Se f#der, vai pro car#lho, filho da p*ta!

A essa altura, minha leitura já tinha ido pro brejo…

Hare Hare, até mais!

PS. Um dia após o inútil “dia sem carro” o trânsito voltou a ficar aquela maravilha (deixou de ficar assim?)  e o “esquema especial” montado para atender melhor à população já não mais funcionava (como se não fosse uma obrigação diária dessas empresas!). Gostaria de entender melhor como se dão essas concessões.


Loucos da rua

11 setembro, 2009

Poucas pessoas têm paciência com os loucos de rua. Chamados de mendigos (muitos até são), bêbados (muitos até estão com frequência), drogados (não posso afirmar, mas não duvido, né?), fugidos do Pinel (que maldade), entre outras formas depreciativas, são figuras marginalizadas em nossa sociedade, embora extremamente comuns no Rio de Janeiro. Todo bairro possui o ‘seu’ ou ‘seus’ loucos – e obviamente eles não ficam estáticos nas suas circunscrições, logicamente se locomovem, apesar de alguns serem avistados sempre nos mesmos lugares nos mais diversos horários.

Em uma cidade que hipocritamente se diz cada vez mais ordenada, racionalizada e que por conta disso está ficando cada vez mais insuportável (vou novamente reiterar que não prego o desbunde total, mas quem não entendeu, azar!), cada vez mais esses loucos vão se tornando pessoas marginais, vão sendo olhados com desprezo. Os cariocas (e aqui incluo os habitantes que de alguma forma adotaram a cidade) estão perdendo aos poucos sua ‘natureza’ gentil e dando lugar à rudeza nas suas atitudes muito por conta de desmandos e  maus tratos à sua população disfaçados em ”carinhas de bons moços” e trabalhos sérios, além do abandono da cidade, que vem de décadas.

 Não estou falando dos ‘malucos-beleza’, figuras também comuns do Rio, que costumazmente tentam tomar uma cerveja ou chope à nossa custa, em troca de poesias, caricaturas ou simplesmente na cara de pau mesmo. Falo dos loucos e chamo-os aqui de ‘loucos’ numa forma carinhosa, digamos assim, pois volta e meia, me vejo dando trela pras suas conversas. Claro que não tanta assim, pois é preciso saber dosar, saber o momento certo de parar pra ouvi-los e a hora de se mandar. Mas confesso que às vezes ouço coisas interessantes deles. Certo dia, esperando o ônibus no ponto, um deles veio me falar que o maior desafio da juventude é a amizade. Discordei (e lá fui eu dando papo…), mas achei intrigante e essa situação acabou até no meu discurso de formatura, quem diria!

Não venho centralizando minha explanação no aspecto miserável que essas pessoas vivem em sua maioria – embora essa triste realidade não deva ser esquecida -, mas sim em seus traços lúdicos, corriqueiros, que normalmente passam despercebidos por quase todos, pois figuras tão presentes, em sua espontaneidade, são um belo ‘retrato popular’ da ‘alma’ e alegria cariocas. Por certo há os violentos, mas em geral são figuras mais agradáveis e que não fazem mal a ninguém.

Essas figuras trazem geralmente uma descontração que não é notada nessa vida corrida que é quase regra em nosso tempo. Mas, parando pra prestar atenção nas suas atitudes, sinceramente, não há não achar graça e se identificar com o que fazem, como por exemplo um destes, em pleno engarrafamento, regendo – isso mesmo, com uma vareta na mão! – o trânsito, ou então, um figuraça, conhecido por odiar seu apelido (“Camarão”), toda vez que passa por um largo do centro da cidade ficar possesso,  vermelho – daí o apelido -,  rodando (sem saber pra que lado ir, com o intuito de bater nos  seus difamadores) e resmungando de raiva com uma multidão (de camelõs, moradores de rua, funcionários dos prédios em volta, transeuntes, etc) gritando: “Ô Camarão!”. Hahahahaha, só de lembrar essas cenas meus olhos ficaram marejados de tanto rir. Ou ainda, o auto-intitulado “Roberto Carlos Compositor”, comum no Largo do Machado, que, além de afirmar ser o verdadeiro compositor das músicas do “Rei”, de ter “sido” vizinho de Che Guevara, de ser o autor mais publicado do mercado editorial e tudo o mais que se possa imaginar (perdi seu panfleto, droga!), certa vez, anos atrás, me deu o Senado Federal com escritura e tudo (!!!) afirmando que eu era muito magrinho e precisava dar uma encorpada (de onde ele tirou que o senado me daria essa sustância eu não sei, hahaha). Só a título de complementação, ele havia dado a presidência da República para outras pessoas naquele dia… bom, faz sentido.

Em suma, só peço que deem um pouco mais de atenção pra essas figuras, pois eles merecem mais do que serem simplesmente escurraçados, afinal, todo mundo é um pouco louco, nem vem.

Até mais!


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