Aviso: Este texto em nada tem a ver com o barulho dos motores de determinados veículos! Caso contrário, o título seria “o som dos meios de transporte”.
Não sei se o leitor (ou a leitora) já notou que há um certo padrão em se escutar música nos variados meios de transporte que existem por aí. Provavelmente já deve ter notado, especialmente quando a música ouvida está aos berros no carro que passa ao seu lado. Nesse caso, é batata! Quando o som do carro pode ser ouvido ao dobrar esquina do quarteirão anterior ao que você está, pode ter certeza que a música lá tocada é uma porcaria, seja lá qual for o seu gosto. Em casos extremos, o volume do som é inversamente proporcional à qualidade sonora emitida. Mas, claro, há exceções (raríssimas, mas há), como na vez em que em pleno sinal fechado da Pinheiro Machado, sentido Túnel Santa Bárbara, um marmanjo robusto, pra não dizer gordinho, trajando camiseta regata e boné (um tipo clássico de “mal-ouvinte” no carro – nada contra quem usa regata e boné, é apenas uma constatação… e uma tiradinha de sarro) escutava em alto e bom som, literalmente, um Chico Buarque (talvez “Samba do grande amor”, não me recordo exatamente) que deu pra notar a quilômetros de distância. Eu, que vinha atravessando a rua com meu amigo João, ao perceber do que se tratava, logo pensei e comentei: “Que coisa fora de contexto!”, pensamento retribuído de bate-pronto por “Joe Joe”. Também posso acrescentar o episódio do dia em que, ao lado de minha irmã, ”alopramos” o marcador de volume ao som de “Irene” (num estilo um pouco diferente de Caetano e Gil) em pleno trânsito da rua Jardim Botânico. Estava trânsito, calor e na hora do almoço, de modo que peço-lhes um desconto pela parcial privação de sentidos.
No entanto, pior do que escutar aqueles mega-estrondos dos aparelhos de som dos carros no volume máximo, é ter de presenciar a algazarra produzida pelo motorista que resolve estacionar seu carro, abrir o porta-malas e, a partir daí, inaugurar a sua festa a céu aberto. Cena muito comum nos finais de semana, os estacionamentos são os ambientes preferidos para a realização destes atos, especialmente se o estacionamento em questão for descoberto. A visualização ficará completa mesmo se o local for estacionamento de super-mercado ou shopping center em dia de algum evento que não tenha muito a ver com o estabelecimento, tais como shows ou festas nas proximidades. O som não basta estar alto, tem que ser algo agitado. As principais pedidas nesses casos têm que explorar a capacidade das potentes caixas de som instaladas no porta-malas do possante. Geralmente, o pessoal vai de algo eletrônico, um funk carioca ou, dependendo do público, até mesmo um pagodão desses melosos atuais.
O pancadão também costuma rolar solto dentro dos ônibus e trens. Embora a paisagem do Rio de Janeiro seja uma admirável, toda viagem necessita de atrativos a mais, além da vista da janela. No caso de um ônibus ou trem lotado, por exemplo, pode dar adeus à possibilidade de rapidamente querer sentar na janelinha, já dizia o sábio baixinho Romário (com outras palavras e em tom um pouco mais agressivo, é verdade). Tudo começa com os trocadores que ouvem músicas e o noticiário para passar as horas de tédio. Esses não são problema, pois não alopram nos horários de início e fim de expediente, mas sim aqueles que pagam a passagem e se comportam como se o lugar fosse sua casa. Os “ouvintes”, digamos assim, não costumam respeitar os demais passageiros com seus sons ligados em altos volumes. Para não incomodar tanto – afinal, todo mundo tem um mínimo de senso de responsabilidade, por mais hipócrita que esta seja – costumam sentar nos bancos de trás (quando nos ônibus, nos trens vão em qualquer lugar mesmo), como se adiantasse de alguma coisa. A grande questão que envolve a barulheira dentro dos coletivos/transportes de massa está no fato de que quem ouve seu radinho nos mais altos volumes não se impotrta nem mesmo com o horário que o faz, atrapalhando a necessária soneca alheia antes ou depois de se trabalhar. Isto criou tanta polêmica (exagero aqui, pois, no máximo, gera pequenas discussões e resmungos dentro do ônibus) que até uma campanha não oficial foi criada, nos moldes das demais campanhas de doações existentes – a “Doe um fone para um funkeiro” – na qual vários cartazes já surgiram por aí. Vide os exemplos abaixo:


Eu sugeriria a ampliação dessa campanha para outros tipos de música. Uma outra trupe que curte ouvir seu som sem importar com quem está à sua volta são aqueles que escutam músicas evangélicas. Nesse caso em particular, os donos do aparelho têm geralmente uma atitude de indiferença frente às reclamações dos demais, pois o alto volume das canções, na visão deles, faz parte de uma estratégia de conversão de fiéis. Sem querer desrespeitar a crença de ninguém, também não acho que encher a paciência das pessoas seja algo que arrebanhe novas pessoas, ainda mais com músicas geralmente de baixíssima qualidade (vão dizer que ”gosto não se discute”, mas isso é assunto para um outro dia).
No extremo oposto da barulheira, dentro dos metrôs a galera parece ser mais reservada na escuta de suas músicas. O metrô, por si só já é um espaço mais sóbrio – e nada tem a ver o fato de ser proibido entrar alcoolizado nas estações (!) – e reservado por não nos permitir o contato visual com a cidade lá fora em muitas das estações (a linha 1, por exemplo é toda por baixo da terra). Uma impessoalidade que não condiz muito com o espírito dos cariocas. Não é por acaso que cena usual é ver pessoas com seus fones de ouvido e olhos pro chão ou até mesmo fechados, como se quisessem evitar que os outros notassem suas presenças (aliás, esse isolamento nos fones de ouvido é uma tendência mundial em virtude das novas tecnologias). O máximo que se ouve – pra quem está “de fora” são aquelas batidas e ruídos que os fones emitem para além das orelhas (outro dia me falaram que termo ”ouvido” não existe mais no vocabulário médico. Foi um choque, virou tudo “orelha”).
O som dentro da Van é um atributo mais da gandaia. Geralmente presentes à noite, entrar numa van com o som ligado ou com um passageiro escutando uma musiquinha é um incentivo pra voltar pra casa de madrugada (aí vai da responsabilidade e obrigações de cada um). O pequeno espaço faz com que todos consigam escutar, sem escapatória, o som ambiente. O repertório geralmente traz um ritmo dançante, dos mais variados. Funk, hip hop, samba, forró, pagode, pop-rock, até uma salsa cubana pode pintar no interior das vans. Nunca ouvi por lá, diga-se de passagem – entendeu? de passagem (licença para trocadilhos infames) – , foi o som de Ed Motta (se arruma, tem espaço na vaaaan).
Os outros meios de locomoção tradicionais talvez não sejam dignos de maior nota. Afinal, quem anda de moto não ouve nada, além do barulho do vento no capacete e o barulho do trânsito. Nas bicicletas, tirando aquelas “bicicletas de som” (veja aqui), é também, no máximo, o fone de ouvido. Antigamente os ciclistas costumavam carregar seus walkmans para curtir a travessia, mas hoje é tudo no mp3 e afins mesmo. Não tenho conhecimento sobre o que é de praxe nas charretes (e elas são bem raras nas cidades grandes), pedalinhos e quaisquer outro veículo para passeios curtíssimos. Pra terminar, o bonde, o meio de transporte mais simpático e infelizmente em extinção, resistente apenas no bairro de Santa Teresa, apesar da sanha da máfia da Fetranspor. Por ser aberto e permitir um maior contato com a rua também não costuma ter seus passageiros ouvindo nenhum tipo de som ou portando aparelho em especial. Fiquemos então com uma música sobre ele (O Bonde, de Maurício Tapajós, Sidney Miller e Sueli Costa, do indispensável disco “Rio, ruas e risos”, do Maurício com o Aldir):
Até mais!
Escrito por Pela rua 
