Saudades do Maracanã

29 maio, 2012

Passar pela avenida maracanã e avistar o mutilado estádio maior do mundo Jornalista Mário Filho não tem trazido as melhores sensações. Pior do que saber que o mesmo ficará reduzido a uns míseros setenta e tantos mil lugares, é vê-lo agonizar sem poder dar um suspiro.

Um estádio que vai perdendo não apenas a sua forma, mas que a cada reforma já perdia sua aura e traços igualitários. As diferenças entre geraldinos e arquibaldos eram por vezes visíveis, mas nunca discrepantes. Todos, somados à turma misturada das cadeiras (e aos geraldinos que, quando a polícia não atrapalhava sua missão, pulavam pra lá), às cadeiras cativas, às especiais, camarotes e  à tribuna de honra, apesar de suas diferenças que, nestes últimos casos, já chegavam a ser gritantes em contraste à massa sentada ou de pé no concreto, formavam um todo uniforme, muito mais do que espectadores, torcedores.

Pois essa massa resistiu às transformações do gigante e às transformações da sociedade, se recusando a ficar em casa numa tarde de domingo, apesar do medo disseminado, em parte justificável, em parte provocado pelos seus porta-vozes. Além do crescente ódio imbecil entre as torcidas, ainda se arriscavam a levar um cassetete na testa ou inalar gases de bombas arremessadas pelas cavalarias. O aumento de preços também boicotou, seriamente. Mas o Maraca continuou sendo nosso. O futebol é dos torcedores. 

Até que veio a última reforma. Uma destruição total na prática. Que se dane o patrimônio histórico. O que é o patrimônio da humanidade perto de um grande projeto empreiteiro? A modernidade virá, seja lá o que ela for. A onda é ficar sentadinho, aplaudindo discretamente um eventual lance perigoso, sem falar palavrão, sem bebidas que tragam a alegria em momentos de euforia, ou fumaças que acalmem em momentos de tensão. Aliás, não há porque pensar em nervosismo, será um ambiente ascéptico. Quer emoção? Veja pela tv, o narrador diz a hora de se emocionar e os comentaristas vão dizer o que está certo, errado, ou que o juiz e seus assistentes (bandeirinhas?) não tiveram culpa, pois o lance foi muito rápido, ou de interpretação. O ascetismo chegou até o gramado, onde já se viu querer invadir o gramado pra comemorar um título?! Engraçado, não é o que vejo nos jogos da Europa quando aqui transmitidos.

E assim sonhos vão sendo destruídos, mas quem quiser comprar um pedaço original do concreto, disforme, sabe-se lá se de onde, quem sabe até do lado da torcida adversária, poderá fazer seu palpite no leilão. Vai que leva? Quem ainda assim quiser assistir in loco a uma partida, ou melhor (ou pior?) a um espetáculo, por pior que ele seja, pode ir no frio Engenhão. Não em termos de temperatura, que o Engenho de Dentro costuma ser quente pra cacete (nada aos pés de Bangu, mas ainda assim quente), mas em calor humano. Primeiro, porque não vai ninguém, salvo um ou outro jogo. Segundo, porque a arquibancada é longe pra dedéu do campo. Pressão da torcida, só se os jogadores estiverem passando por sérias questões psicológicas e de autoestima.

Mas a culpa não é do Engenhão, ele não é um estádio de futebol (Aliás, quando vai ser a ampliação de sua arquibancada para que ele fique finalmente como em seu projeto para as olimpíadas? Será feita ou engoliram o dinheiro?). O estádio olímpico tem lá suas virtudes, não está em pauta questioná-lo, o problema é sob quais circunstâncias foi feito (e o fato de que não dá pra pular direito nas arquibancadas, sob o risco de rolar arquibancada abaixo), além de que não é o Maracanã. O carioca, o brasileiro e o futebol têm saudade do Maracanã. 

Que não diminuam o tamanho do campo (depois da Copa é hora de cobrar a volta às suas dimensões originais)! Campo pequeno é pra retranca e correria, o futebol brasileiro andou penando umas entressafras por conta dessa nova visão voltada para os moldes e mercados europeus. Onde está a cadência, a malandragem, o drible, a galhofa, a arte? Há exceções, mas queremos ser regra.

O estádio vai ser uma luta mais complicada, mas não impossível. Enquanto houver luta para que a sociedade se torne mais justa e igualitária, o gigante também será foco destas batalhas. Um dia voltará a ser (ou melhor, será mais do que nunca) um estádio do povo, para o povo.

Por enquanto, mas sem desistir da luta, fica só o sentimento de saudades do Maracanã.

Até mais.


É possível alguém ainda gostar do Cabral? – o caso da educação

15 maio, 2012

Obviamente não falo nem do navegador, muito menos do pai do governador (opa, que falta de educação, boa tarde pessoal!). E também não pretendo entrar muito a fundo nos problemas de denúncias de corrupção, favorecimentos a uns e outros ramos da construção civil, negligências quanto ao sistema de transportes, saúde pública, meio ambiente, abandono das classes dos bombeiros e policiais, viagens a Paris, entre outros abacaxis. Também não focalizarei meu olhar  em alguns fatos de necessária crítica, como a penúltima colocação no Ideb, o plano de metas que implantam na educação estadual para mudar essa situação, o fechamento de escolas, turmas e professores que ainda hoje, já no mês de maio não sabem se suas turmas continuarão a existir, ou ainda não conseguiram vagas  para voltar a dar aula, após a redução de carga horária e locais de ensino, o “feirão da carência” realizado semanas atrás (que só não virou “feirão do professor” porque aí seria um tiro no pé maior do que todos os já dados pelo governador em seu próprio – fica a pergunta: será que já existiu um cara da política que gostasse tanto assim de se avacalhar em algum outro momento da história ou do tempo/espaço?), ou mesmo do ridículo salário ganho por estes profissionais.

Embora o título faça um trocadilho (o caso -> ocaso), não é intenção falar do abandono da educação estadual no Rio de Janeiro, até porque muito vem sendo feito. O problema é que as diretrizes estão completamente desvirtuadas, a maioria do que é feito é diametralmente oposto ao que deveria para dar uma educação de qualidade para nossos estudantes. Vim aqui falar de dois outros recentes tiros no pé do atual governo fluminense. O primeiro deles é a proposta de diferenciar, nos próprios uniformes dos alunos, aqueles que estudam nas melhores escolas. A ideia é de criar uma espécie de “selo de qualidade” para as escolas que obtém notas mais altas na avaliação estadual. Não está claro se será com uniformes de cores diferentes, ou com broches, símbolos na camisa ou estrelinhas douradas na testa dos alunos, mas de qualquer forma é uma ideia bizarra. Uma violação do princípio da educação universal, inclusiva e igualitária, luta de décadas de nossos educadores. A promoção de símbolos visíveis (ou mesmo invisíveis) de status para estudantes da rede estadual só tende a provocar discriminação e preconceito. Talvez seja isso que no fundo o Sr. Cabral e sua equipe da secretaria de educação desejam.

Outra questão tão grave quanto esta é a nova determinação de se colocar policiais militares nas escolas. Por mais bem treinados que esses profisisonais sejam,  todo mundo sabe que o ambiente escolar não é ambiente para policiais, salvo em caso excepcionais, tais como eventuais urgências. Ter estudantes em um mesmo ambiente que profissionais armados em nada aumenta a sensação de segurança, muito pelo contrário. A militarização de um espaço de estudo não pode tranquilizar as pessoas pelo simples fato de que todos passam a ser tratados como “perigo em potencial”, além de que não evitaria a entrada de alguém armado, como foi o caso do massacre de Realengo, pois de que adianta um policial que só pode agir dentro das escolas com um pedido da diretoria ou alguma ameaça séria a segurança, se as mesmas escolas às vezes nem porteiro direito têm (conhecendo o funcionalismo estadual – e mesmo o municipal e o federal – todos sabem que um porteiro não é apenas um porteiro, um inspetor não é apenas um inspetor, e mesmo, um professor não é apenas um professor, faz-tudo é o que não falta, falta é gente o suficiente).

Se é pra botar policiais, que fiquem nas proximidades das escolas, e não dentro delas. Os estudantes, que muitas vezes já convivem com a violência urbana em nível preocupante perto de suas casas, devem encontrar na escola um ambiente propício para o estudo, o principal dever de uma escola. Um ambiente escolar já possui diversos elementos que podem ou não instituir um aspecto repressor ao ensino, dependendo do modo que os profissionais saibam lidar com as situações. Deve se buscar cada vez mais acabar com esses moldes repressivos. Um professor não deve ser antes de mais nada um apaziguador de barracos, ou uma pessoa mal-vista pelos alunos, um inimigo, mas sim um agente ativo e incentivador na formação de cidadãos. O mesmo vale para todos os outros profissionais dentro de uma escola ou qualquer instituição de ensino.

A autoridade policial, em essência, não atua dessa forma, por mais simpática ou simpático que possa ser o agente fardado, não tem jeito. É o braço armado do Estado, a força por este legitimada. A escola não é o espaço da força, mas do saber. São papéis diferentes, o encontro da escola com instituições de repressão não tem como dar certo. Se a sociedade é violenta, assim o é por conta de uma enorme gama de razões que transcendem o ambiente de ensino, ou seja, não adianta em nada (aliás, só tende a atrapalhar) trazer a autoridade policial para dentro da escola se esta é o reflexo do que está fora, e não a causa dos problemas. A escola já possui sua autoridade interna, que cumpre o seu papel ou não. Se é regra algo não dar certo nesse sentido, é por um problema estrutural, todo mundo sabe que a educação e a sociedade, como estão estruturadas, apenas atuam reproduzindo as desigualdades e os problemas sociais, ora bolas!

O governo do Rio de Janeiro cada vez mais realiza ações de desrespeito à liberdade (algo parecido com o que vem ocorrendo em São Paulo, lembram da história de PM’s dentro da USP?) e exclusão. Não é de hoje que afirmo que o o Cabral a cada dia mais se assemelha com os regimes fascistas. A sociedade é que não pode coadunar com essa opinião.

Até mais.


Por um Viradão que espalhe cultura ao povo

4 maio, 2012

Enquanto o futebol faz a mim e a grande parte dos brasileiros “curtirem” umas férias forçadas mais do que merecidas, fruto da incompetência generalizada que assola a Gávea (e nos botequins já se escuta cada vez com mais força os urros de “volta Marcio Braga!”, por mais cientes que estejam os torcedores de que este não seria lá essas coisas – mas ainda assim levantaria uns canecos!), os trabalhos ao menos vão fluindo por outros flancos. Prometo que procurarei me dedicar um pouquinho mais a este espaço. Então, ainda que de leve (prometo um texto bem curtinho pra vocês pegarem o ritmo novamente), vamos lá!

Neste fim de semana acontecerá mais uma edição do Furadão Carioca. Quer dizer, Viradão Carioca, mas acho que vocês já entenderam o tom do que virá a seguir. Pra começar, que “jogada de mestre” foi essa de marcar o Viradão carioca para a mesma data da Virada cultural paulistana? Creio que essa atitude apenas reforça o quão precário é o evento carioca, pois cria uma ideia de competição entre os dois eventos, o que não deveria ser o caso. Não falo isso por ficar impossibilitado de dar as caras nos dois eventos, nada de recalques. Apenas falo isso por acreditar que eventos culturais, já tão necessitados de apoio, dinheiro e divulgação, não deveriam disputar o público, até porque, dada a diversidade de nossa população, também é bastante diversificado seu gosto pela arte. Sem contar aquela velha história de que o Rio já possui, desde sempre, uma tradição de convívio social na rua, por mais que as autoridades volta e meia busque nos limitar. São Paulo, felizmente abraçou sua virada cultural de uma aneira impressionante (basta ver o baile que é a programação paulistana do festival frente à carioca), resta que o governo de lá e seu autoritarismo babaca construa a infrestrutura necessária para que a população da maior cidade do país também consiga elaborar novas formas de vivência coletiva no exterior das portas e grades de casa.

Outro aspecto triste do furadão, ops de novo, Viradão, está na insistência em grandes nomes, dando pouco espaço para artistas locais ou de menores condições de mostrar seu trabalho, artistas à procura de espaço em diversas áreas. Não que esses grandes nomes devam ficar completamente de fora, até porque, bem ou mal, trazem alguma visibilidade (mas que as atrações estão, em média, vergonhosas, ah estão!). A Secretaria de Cultura deveria promover o incentivo primeiramente a esses artistas de menor expressão, aos tradicionais (desde que não já milionários) e àqueles cuja perpetuação cultural está em risco. Os demais, obviamente também devem receber o apoio e pagamento necessário e justo, mas primordialmente, até pela facilidade que possuem em arrumar patrocinadores privados, deveriam ser majoritariamente patrocinados por estes. Ou seja, aqueles que naturalmente arrumam patrocínios não deveriam sugar todo o fomento público à cultura.

Enfim, momentaneamente era isso que tinha a dizer. Espero ter me feito entender.

Até mais!


O preço da gelada e a desbutequização dos butecos

19 abril, 2012

Beber por aí está caro, disso não há quem discorde. Pior do que a vida dos que buscam um refugo nos balcões de vida afora está apenas a dos que optam por fazê-lo acompanhado de um cigarro (ou que fumam sem um mísero gole da nada do gênero). No Rio, enquanto se celebra as maravilhas que virão com as transformações da cidade – e Cunhambebe diria “maravilhas pra quem, cara pálida?!” – os preços em geral dispararam, tornando acidade um dos locais mais caros do mundo pra se viver. Por enquanto, ainda há refúgios em poucos pontos da zona sul e centro. A zona norte ainda nos presenteia com gratas soluções a preços mais acessíveis (sei que o mesmo ocorre com boa parte da zona oeste – com o subúrbio então nem se fala! -, no entanto tenho andado pouco pela região, menos até do que no adorado subúrbio, destino não tão incomum para mim, de modo que não posso dar relatos convincentes acerca da imensa área), mas até quando? 

O que antes era apenas uma forma de exploração do turista – não confundam jamais esses atos de reprovável “esperteza” com ”explorar o turismo” - agora é estendido a todos. Se o transporte, a habitação, a educação e o lazer ficaram caros, não é difícil imaginar que o troço fosse acabar sobrando também para a cerveja, ainda mais em se vivendo numa sociedade moralista que repudia o álcool enquanto todos os outros mecanismos e injustiças da sociedade nos arremessam para a fuga, seja nos tornando estressados, seja nos tornando loucos, seja nos tornando completos imbecís, ou até mesmo tomando uma cervejinha no fim de um dia cansativo de trabalho. Enfim, isso é papo pra outra divagação. 

Fato é que beber ficou muito caro, e a cidade, supervalorizando seus lados turísticos em detrimento de outras áreas (embora no discurso se dê o contrário, ou ao menos uma falaciosa valorização homogênea da cidade como um todo), impossibilitou a bebedeira estendida em demasiados lugares. O que vemos nesses locais é a proliferação de bares metidos à besta, sob o status de pés-limpos e bares franquias (quer dizer, alguns destes estão deixando de brotar por aí, pois perderam o “élan” e o caráter novidadeiro , ou seja, foram jogados fora, não são mais o fetiche, coisas do capitalismo), enquanto os tradicionais botequins, herança portuguesa que contribuiu em dar ao povo brasileiro e carioca a “cara’ por ele adquirida ao longo de séculos, vão perecendo e cerrando suas portas aos poucos. Não temo pelo fim dos espaços de bebida, mas em torno de 50 anos (jogando pra longe, pois a tendência é de alterações em menor tempo), em se mantendo esse movimento, os bares não mais se parecerão com os botecos que conhecemos. 

Essa transformação já é bastante visível em vários dos tradicionais botequins. A cada vez que um bar resolve fazer obras, um frio congelante atravessa a espinha de seus frequentadores. Mas o problema não está apenas na sua nova aparência. Os bares, quando mudam sua cara, geralmente mudam também a forma de atendimento aos antigos frequentadores, privilegiando uma suposta clientela mais diversificada e antenada com as novidades, o que daria uma cara mais moderna ao lugar. Nesses momentos, a tradição vai pra cucúia, os donos dos bares passam a destratar as características de seus costumeiros frequentadores, buscam os holofotes, abdicam das comidas e  cardápios tradicionais para fazer quitutes elaborados e cheios de frescurites (eu, alfinetando algum bar conhecido do público? Imagina), chegam ao ponto, se houver espaço, de botar rodas a tocar de Lulu Santos, Tim Maia, Michel “Télogo” e até hits estrangeiros em ritmo de samba.

Não pretendo me alongar (mais do que já me alonguei) sobre esse tema. No entanto, não posso terminar esse malfadado texto sem mencionar o absurdo que é um bar que nega a saideira a seus clientes. Obviamente, não me refiro aqui àqueles pequenos botecos, de caráter quase familiar, quase sem empregados, que praticamente funcionam num buraco de tão pequenos, e vivem no fio da navalha para fechar as contas ao final do mês (afinal, sabemos que os distribuidores também não aliviam a mão na hora das cobranças). Desses, não cobramos saideiras por conta da casa (embora, vez por outra seus donos nos ofereçam); uma extensão camarada no horário de funcionamento, com direito a uma, duas, ou algumas garrafinhas a mais nos basta. Até porque nesses locais, a cerveja costuma ser mais barata. O que é inaceitável é um boteco, ou um lugar que se diz boteco, vender suas cervejas, bebidas e acepipes a preços que não são tão camaradas assim, se negar a presentear seus fregueses com uma ou outra saideirinha.

Como todo mundo sabe (ou deveria aprender a teoria desde a menoridade – a teoria, a teoria! Pra depois não dizerem que estou incitando à prática ilegal do goró pra turminha “di menor”), a saideira é uma camaradagem. Uma forma de o dono ou garçom do bar agradecer à presença e conquistar a simpatia do cliente para futuras visitas ou porres homéricos. Um grande número de saideiras permitidas representa nada mais (mentira, pode ser também fruto da chatice do cliente, já num estado de bebedeira em que é mais fácil agradá-lo ao invés de desprezá-lo na sarjeta) do que a grande satisfação do proprietário e funcionários com o tempo, com a conversa fiada e, claro, com o total consumido pelo cliente (no caso, não apenas em bebidas, o valor total da conta pode, deve e geralmente é determinante na liberação das saideiras). Por outro lado, aceitá-las é um gesto de gratidão, um “até a próxima” quase tão obrigatório quanto a gorjeta ao garçom gente boa. 

Mas, acima de tudo, acima mesmo do dinheiro gasto, como já lhes falei, a saideira é uma questão de camaradagem. Sendo uma questão de camaradagem, temos uma importante diferença entre os bares e botequins com cara e jeitão de buteco e aqueles que a possuem apenas como fachada. Estes últimos, ao pensar o estabelecimento como um negócio, ou melhor, como uma marca provida de uma imagem a zelar, abdicam deste lado camarada, dos velhos e futuros clientes despretensiosos, deixam a amizade em segundo plano. E quando a amizade está em segundo plano, não há mais razão para chamar um bar de boteco. Distorcendo o sentido do velho ditado, que só serve para ser dito em momentos de brincadeira, “acabou a cerveja, acabou a amizade”.  

Eu, que prego a resistência dos botequins (embora, humildemente, me considere peixe pequeno nessa luta intensa a ser travada) abrigando por aqui até uma série em memória dos banheiros de botequins da cidade e país (vem em breve coisa nova!), sei que há muito a ser feito. Quaisquer confusões, me desculpem, é a falta de prática. Que fique a mensagem: bar que cobra caro, se descaracteriza e nega a saideira, não merece respeito.

Até mais!

p.s. Já que chegou até aqui, nada mais justo do que escutar a essa versão original do samba “Saudades dos meus botequins”, de Paulinho do cavaco e Luís Pimentel, gravada ao vivo no Bip Bip, um bar há 43 anos a serviço da amizade (é de 1968), como a própria plaquinha na entrada diz:


Pra exorcizar a emoção do carnaval

8 março, 2012

Já volto a botar minha vida e o blog nos trilhos, mas deixa só eu dar mais um último pitaco sobre o carnaval. A parte mais intensa do ano, ironicamente, ocorre sempre em seu início, sob um calor de lascar. Carnaval é sempre um momento de emoções à flor da pele, mas o derradeiro me trouxe a sensação de que tudo estava muito mais emocionante. O choro-sorriso no início da madrugada de terça para quarta-feira não foi mero reflexo do entornamento biritesco em sequência de manhãs, tardes e noites afora, muito menos uma simples epifania do carnaval que findava, nem de todas as sensações que passaram e/ou ficaram durante os festejos. A cidade foi tomada de uma maneira que há muito não se via (eu, ao menos, nunca havia visto), deixando para as autoridades um papel nada mais do que secundário. Momo representou com maestria o papel que lhe foi conferido. Tomou conta da chave da cidade muito melhor do que as oficialidades. Só não precisava ter devolvido. 

Durante o tríduo momesco, o povo tomou a cidade, fez valer seu poder sobre as ruas em locais inesperados, à revelia de organizações e ordens superiores. A inversão se concretizou. Por mais que as autoridades insistam em botar regras nos festejos, não têm a legitimidade, nem a capacidade para tal. Prova disso foi a questão dos horários de blocos e apresentações. Finalmente não saíram no horário estipulado pela Riotur, pequenos atrasos fizeram parte da festa. Mandou quem pôde, ou seja, o dono da festa da carne na terra, rei Momo, e obedeceram quem não teve juízo, ou seja, nós, os foliões, ávidos por uma brincadeira que tornasse o dia a dia menos chato e cinza.

O leitor mais atento e crítico, obviamente já percebeu que tudo isso dito acima está mais para o plano da representação, são alegorias (nada mais adequado para o período), sentido figurado mesmo. Toda essa imagem que esbocei, no entanto, não foge muito da realidade. Claro, da minha realidade, da realidade dos que passaram comigo, ou que encontrei na folia, felizmente. O carnaval dos meus foi, senão inteiramente, algo muito próximo disso. E a realidade não teria importância nenhuma se não trouxesse consigo altas cargas de emoção. E digo-lhes, nunca havia sentido tanta emoção, nos mais diversos sentidos quanto as que senti ao longo do derradeiro carnaval.

No entanto, se posso falar isso a respeito do carnaval dos meus, me sentiria um baita traíra se não examinasse o carnaval com olhares mais abrangentes. Afinal, o carnaval não é só dos nossos, mas do povo (e obviamente, os nossos fazem parte do povo), a cidade, suas ruas, rios, calçadas, praças, praias, morros e florestas são do povo, embora desde os tempos de colônia as autoridades busquem a negação dessa condição. O fenômeno que podemos observar nos últimos anos diz respeito à mercantilização e privatização dos espaços públicos e blocos do Rio com total assentimento da prefeitura e governo do estado (e isso não é exclusividade do Rio. Aliás, é um fenômeno nacional).

A intenção de transformar o carnaval carioca em uma espécie de franquia semelhante ao que é o Cirque du Soleil (vejam mais nesse obrigatório artigo do blog do Lúcio de Castro aqui), além do nojo que dá, é uma representação claríssima do que essa turma que nada entende do babado está a fazer com a festa das ruas do povo. Nada muito difícil de  imaginar, vindo de um pessoal que escolheu como símbolo da Riotur um boneco chamado John Carioca, uma caricatura de turista.  Nem o fato de serem eles caricaturas de autoridade torna o troço mais aceitável. Só mesmo quem não entende nada de Rio de Janeiro pra achar ótimo ter como símbolo de campanha para atração de turistas pra cidade um boneco com todo o jeitão de bobo alegre. Vejamos como exemplo o responsável pela secretaria de turismo (e consequentemente responsável pela organização do carnaval), Antonio Pedro Figueira de Mello, que é quem aparece ao lado do boneco, curiosamente também sempre sorrindo.

No mesmo movimento, o patrocínio dos blocos de carnaval também mostra a mercantilização dos espaços carnavalescos. Reitero o pedido, leiam o texto do Lúcio de Castro que expus o link acima, ele explica melhor do que eu poderia. Entre questões pertinentes, tais como “foi feita alguma licitação?” e “não seria essa mercantilização, que necessita, portanto, de um mercado consumidor para cumprir seu objetivo – o lucro -, a responsável pelo crescimento desenfreado de alguns blocos, bem como seria a patrocinadora também responsável por garantir a infraestrutura da folia – e não seria uma mera questão de culpar os foliões por eventuais sujeiras, mijões, apertos e confusões por problemas criados por outros, leia-se, esses megablocos e seus patrocinardores?” (pergunta grande, né? pois é, deveria ter uma resposta séria e menos fanfarrônica do que a do sr. secretário de turismo), outras merecem maior esclarecimento (deixa eu dar um ponto-parágrafo aqui pra não matar os asmáticos com falta de ar).

 Aquela imensidão de guarda-chuvas azuis com o símbolo da cerveja da Ambev (ou Inbev, venderam aquela porcaria pros gringos), uma cerveja das que mais bebo (não falemos em quantidade, que na hora da conta depois de umas e outras o bicho pega), além de tornar o carnaval de rua quase monocromático naquela imensidão azul em nada semelhante ao mar, por estar interessada no potencial de mercado, privilegia alguns blocos em detrimento de outros. Daí que superlota blocos tradicionais, blocos “novidadeiros” (não achei outra expressão para esses novos tipos de bloco, sem juízo de valor, pois alguns são até bons) e outros blocos ficam sem verba para desfilar, como foi o absurdo caso do Rancho Carnavalesco Flor do Sereno, que dá uma aula de música, não ter verba para realizar seu já tradicional baile ao ar livre, em copacabana. A questão que surge, portanto, é: essa porcaria toda padronizada e nada espontânea que procuram promover é carnaval?  

Entendam que o problema não é especificamente a existência de patrocínios para blocos, afinal deixar tudo nas costas da prefeitura seria um disparate, visto que a natureza dos blocos é sua espontaneidade e sua não dependência frente a regras e maiores formas de organização. A mercantilização, que define um padrão para os blocos, locais em que podem sair em virtude do tamanho que alcançaram (veja o exemplo dos blocos que são obrigados a sair na orla, Rio Branco ou Presidente Vargas – antes e depois do carnaval – e no aterro do Flamengo) e às vezes até o tipo de público desejado, “matam”  (embora seja notório que nunca conseguirão acabar com a vontade do povo de brincar nesses dias de festa) o carnaval, minam a espontaneidade e – o que é pior de tudo – criam e disseminam uma espécie de folião que foge completamente do que deveria ser o folião carnavalesco: aquele que vai aos blocos sem preocupação com fantasias, com a inversão da realidade, que se “veste”, no máximo (quando aceita tirar o boné), com um chapéu patrocinado por cervejarias ou bancos/instituições financeiras e desfila por aí sem camisa com espírito de micareta (aliás, poderiam fazer uma Cabofolia da vida com passagem de ida gratuita durante o pessoal pra ver se atrai essa galera). Não é o folião que brinca, que pula, que beija, que canta até mesmo depois de ficar rouco, é o que pega pelo braço, pelo cabelo e puxa a mulher na força bruta, o que começa a cantar músicas de torcida organizada mesmo perto da caixa de som a tocar outra canção, o que desfila num clima de indiferença e nariz empinado ao estilo do baixo gávea em seus piores dias, o que arruma confusão por um pisão no pé, o que bota um carro com o porta-malas aberto e som tocando hip hop ao final do desfile, enfim, o que mantém sua conduta do ano inteiro nos festejos de Momo.

Felizmente, mesmo se formos pensar que vivemos numa sociedade que a cada dia mais se “emplayboyza”, podemos fazer o carnaval de outra forma. Se avacalham o carnaval de inúmeras maneiras, como fizeram com a zona sul ao tornarem seu carnaval praticamente impraticável, com algumas exceções, o povo reinventa a festa, busca novos lugares, percorre a cidade atrás de novos caminhos, faz a bagunça chegar no aeroporto, sair do centro da cidade, atravessar o aterro até a praia de botafogo e desaguar no mar, por mais suja que seja a água de lá; se tornam o carnaval oficial da Sapucaí um absurdo de caro, têm que se contentar com a arquibancada do povão sempre lotada, com milhares de pessoas na concentração e dispersão; se tiram o povo de dentro da avenida no carnaval oficial, o povo brinca longe dele e não sente falta, pois com fantasia mais leve e sem gente mandando fazer coreografias e preencher buracos é muito melhor; se tentam colocar cordas e “abadás Vip”, ouvem a revolta de pessoas a gritar ”não põe corda no meu bloco!” (um fenômeno que começa a ganhar forças até na Bahia, finalmente); se proíbem blocos de desfilar, os blocos desfilam ainda assim, clandestinamente, com ambulantes autônomos, ou com os foliões correndo desesperados para o primeiro boteco  que encontrarem aberto (aliás, é necessário levantar o tema, os botecos pés-sujo se tornam cada vez mais raros em virtude da especulação imobiliária que joga o preço de seus aluguéis nas alturas – ainda assim, mesmo sem esses, que não desaparecerão completamente, o folião inventa uma nova forma de achar algo para molhar a garganta, nem que seja carregando seu próprio isopor), mas sem abdicar da festa. 

Pra concluir, a festa é do povo, a festa é o povo, que não sobrevive sem festa. A emoção é necessária para aguentar e buscar transformar esse mundo ao avesso. Pronto, agora dá, enfim, pra retomar a vida.

Até mais!

P. s.Você que chegou bravamente até aqui, ganha de presente duas músicas que dizem muito sobre o tema, a primeira, de Elton Medeiros (sugestão do mano Pedro Veríssimo. Só consigo botar o link) e outra de João Bosco e Aldir Blanc:

http://grooveshark.com/#!/s/Avenida+Fechada/2YD4PX?src=52YD4PX?src=5

 


Só pra falar algo sobre o Rock in Rio 2011

11 outubro, 2011

A população da cidade do Rio de Janeiro já parece estar acostumada com grandes eventos. A cidade, aproveitando suas características naturais sedutoras, de uns anos pra cá vem trazendo competições esportivas, grandes espetáculos musicais, artísticos e até eventos de grandeza nos ramos comercial e financeiro. No entanto, a infraestrutura da cidade não acompanhou esse aumento de demanda por espaços e circulação da população. Saindo do economês, que tornaria esse texto mais do que chato, antes que digam que obras infraestruturais demoram (o que é um fato), minha crítica viria no sentido de que, as que estão sendo feitas como prioridades, sabidamente não resolverão os problemas crônicos de mobilidade urbana (mas a turminha empreiteira não perde uma “oportunidade de negócio”), sem contar com as absurdas e antipopulares remoções, que são ao meu ver o cerne da questão toda. Numa verdadeira proposta de eugenia urbana, fica claro que a população que serve pra trabalhar e garantir o lucro das grandes empreitadas econômicas, não serve pra habitar as zonas próximas dessas empreitadas, geralmente consideradas áreas nobres da cidade. Esconder essa população e seus problemas é a tática desses pulhas (aliás, como sempre foi). Mas não vou entrar muito nesse assunto, pois não era esse meu propósito. Afinal, esses últimos dias, foram dias de Rock, bebê.

Nessas duas últimas semanas, o grande evento que tomou conta da cidade e dos noticiários foi a quarta edição do Rock in Rio (não vou ignorar a existência de um Rock in Rio em Lisboa, mas esse troço todo é muito reflexo da ganância pelo dinheiro a qualquer custo, além do fato de que não custava nada fazer um “Rock in Lisboa” ou “Rock in Madrid”, como pretendem - se o nome não puder ser usado, que se invente outro!). Cem mil pessoas circularam diariamente por milhares de metros quadrados situados numa área longe pra dedéu, na qual não havia a possibilidade de circulação de veículos num raio de um quilômetro e meio. Tudo pra evitar o caos nos momentos de entrada e dispersão do público do festival.

Antes de falar do caos, divaguemos o o clima do festival. Sem querer esquecer o viés mercantilista do troço, afinal, bastava ter uma visão um pouco ajustada para notar os logotipos e marcas de empresas em todos os cantos, os preços pra lá de salgados dos comes, bebes e lembranças vendidas nas lojinhas oficiais, e sem querer cair naqueles papos carolas de “clima de paz e harmonia entre diferentes tribos” (até porque quem briga com pessoas por diferença no gosto musical é, no mínimo, um tremendo de um babaca) ou de “eu vou, sem drogas” (até porquê muitas se apresentaram inclusive no palco principal),  mas um festival traz sempre um ambiente bacana, novidadeiro, de reencontros e uma pitada de perrengue – que, quando em pequena quantidade são até saudáveis – somente possíveis por conta dos amplos espaços, com atrações as mais diversas, e das multidões, de modo que é impossível não esbarrar com conhecidos circulando por aí num intervalo de muitas horas.

Eu, que trago um pouco de saudosismo por festivais que não tive o prazer de vivenciar, sempre acho que um festival ideal nestas proporções deve se aproximar ao máximo do de Woodstock, em 1969. Em vários sentidos: os melhores artistas de sua época (à exceção dos Beatles, que estavam separados – e poderiam fazer um festival só pra eles – , dos Rolling Stones, de Jeff Beck, Bob Dylan, Led Zeppelin, Jethro Tull, The Byrds, Iron Butterfly, entre outros que fizeram falta), numa fazenda afastada de grandes cidades, um público maior do esperado, chuva, lama, e sendo realizado em vários dias, ou seja, um evento com tudo pra dar errado, sem infraestrutura adequada, mas que no final das contas deu certo (tirando a falta de comida para 500 mil pessoas nos “três dias de paz e música”). Claro que o risco é muito grande de se realizar um negócio desses, mas pensem nisso como um ideal, e não como algo corriqueiramente visto na prática. O Rock in Rio 4, que internamente teve até uma organização bastante acima do esperado, foge dessas características logo de cara por estar situado na cidade maravilhosa (tudo bem que na casa do chapéu, lá pra perto do mutilado autódromo Nelson Piquet, numa zona afastada das regiões de maior concentração urbana). O viés mercadológico – afinal, em todas as direções se via as tendas patrocinadas por variadas marcas, sem contar o telão a passar comerciais nos intervalos – em muito desenvolvido nos últimos 40 anos também não nos permite comparações. Em suma, comparar esses dois festivais seria uma maldade sem tamanho e paro por aqui.

O ponto (ou um dos pontos) que queria chegar é o de que apesar de tudo isso, o festival ao meu ver tem lados positivos musicais e pra cidade (calma, a crítica é lá pro final). Apesar de achar a maioria esmagadora pouco atraente ou de péssima qualidade, algumas conseguiram se salvar na medida em que entraram no clima de festival. E talvez (porque vou escrevendo meio sem saber o que falar) seja este outro ponto ponto importante a ser ressaltado: em festivais, além das músicas, a capacidade dos artistas de trazer para si o público (não falo de pirotecnias, efeitos, nem de farofadas, pois grandes shows são possíveis sem essas papagaiadas) conta muito.

No entanto, é chegada a hora das críticas, pois nem eu vinha me reconhecendo nesse texto.  Eu, que não gosto do Medina desde os tempos em que era político (aliás, como esse cara tinha voto aqui perto de onde moro…), começarei pegando leve. A organização do festival, se por um lado acertou na medida na ambientação das atrações, com palcos espalhados, banheiros amplos, lanchonetes em vários pontos diferentes e até na grama sintética, de modo a não repetir o erro do areal e lamaçal que se fez durante as apresentações da terceira edição, por outro, na gana por tirar dinheiro fácil da galera, como diriam por aí, “viajou bonito” nos preços. Nada inesperado, afinal esses caras não costumam dar ponto sem nó, e todos sabemos que sem concorrência o assalto seria inevitável, mas é um absurdo o preço de alguns produtos estar acima do que é vendido nas lojas convencionais da cidade. Não há nada mais irritante nesses casos do que as leis de mercado de oferta e procura, especialmente quando o controle está nas mão de filhos da mãe, o que é recorrente, pra não dizer que é sempre assim (sim, soa repetitivo, mas todo mundo sabe que o capitalismo é uma merda e não custa falar mais uma vez).

Sobre a qualidade dos shows, é certo que muita coisa não valeria à pena e algumas surpresas positivas também tiveram seu lugar, conforme já falei anteriormente, mas gostaria apenas de falar sobre as atrações brasileiras, que ficaram abaixo do que poderiam. Vou relevar o fato de as atrações do palco lateral (Sunset), com grandes misturas musicais, em sua maioria não terem tido tempo suficiente para ensaiar, até porque os bons nomes de lá fizeram boas apresentações. Direciono a crítica ao fato do pouco espaço dado para as bandas brasileiras no palco principal (Mundo). Todos os dias houve ao menos uma apresentação de brasileiros por lá, o que é pouco. O mínimo deveria ser duas apresentações, com direito a três em alguns dias. No dia em que lá Stevie (olha o trocadilho!), completando quase um dia sem dormir, foi de lascar aquela mal programada homenagem ao Legião Urbana (que, acho – vou mesmo de achômetro por aqui- nunca tocou no Rock in Rio), totalmente nas coxas e ainda repetindo música(e olha que tinha até gente boa no palco, como o caso do Herbert Vianna), ou aquele “baile do Simonal” na lateral, também chatinho, chatinho. Ao menos dominaram os shows desse palco lateral, mas, ao que parece, vivemos um período de carências de grandes bandas nacionais (porque não vou considerar aquele lixo de mercado direcionado pra público pré-adolescente algo grande, muito menos música). 

Mas a crítica a ser feita com relação a esse festival não deve ser esta, afinal, paga o ingresso quem quer (é só uma questão de potencial sub-aproveitado, que angustia os perfeccionistas de ocasião). Todas as críticas devems ser direcionadas ao inferno que é a barra da tijuca e adjacências do festival. Antes que digam que não gosto de lá -  e, de fato, não gosto da excrescência que aquela região tão bonita se tornou -, digo que é impossível alguém sair com boa impressão de um lugar que se demora duas horas para atravessar por causa do congestionamento. Nessa época em que a cidade se tornou um verdadeiro canteiro de obras (e como diria Pedro Veríssimo, essa poeira só vai baixar lá pra 2018, depois das olimpíadas), trafegar por aquela parte da cidade é um calvário, o que já era ruim tornou-se infernal. E, ao contrário do que preconizam por aí os senhores Paes e Cabral, as obras para a construção do corredor- que já estão em ritmo avançado – não vão solucionar o problema crônico do trânsito de lá. Todos sabem que é necessário um sistema eficiente de transporte sobre trilhos, passando pelos locais onde há a massa da população e não margeando os condomínios e que esse corredor expresso é apenas um paliativo. Mas aí as “oportunidades de negócio” já foram dadas para o megaempresários empreiteiros, donos do Rio. Os outros donos, a turminha da Fetranspor, também lucraram com a obrigatoriedade de compra do cartão Riocard para sair daquelas bandas

Outro problema, que já falei acima, mas não custa lembrar, está na remoção das favelas próximas à área do evento. Já começaram a manipular a opinião pública dizendo que os moradores de lá fizeram arrastões, assaltos, furtos e tocaram o terror em quem queria assistir aos shows. Tudo pretexto para expulsar os pobres dos locais valorizados. A eleição é só ano que vem, mas esse prefeito eugenista, um playboyzinho da barra, tá merecendo levar um sapeca iáiá nas urnas. Que certas alianças não se concretizem. Voltando ao festival, se houve qualquer tumulto (e de fato, houve) na parte de fora da cidade do Rock, a culpa é toda da organização dos acessos, seja por falhas da segurança do festival, seja por erros da guarda municipal e polícia militar. Mas isso, quase não sai no jornal.

Tirando isso, o festival foi muito positivo, especialmente no quesito música (até porquê dificilmente compraria ingresso para outros dias). Se ficou decepcionado com a crítica, desculpe, mas sou e ainda estou um pouco empolgado (acabei de ver a reprise do Sr. “Maravilha”!) e as dores nas costas talvez tenham anestesiado minha capacidade crítica. 

Até mais!


Ida à favela (versão twitter)

28 setembro, 2011

Devido às centenas de ligações, cartas, telegramas, mensagens telegrafadas em código morse, campainhas tocadas e informações trazidas por um sem-número de meios não muito utilizados, não-convencionais ou obsoletos, paradoxalmente, a história da ida à favela ganhará uma versão para a página do passarinho azul que nada tem a ver com o caldo Maggi, o caldo nobre da galinha azul. Sem deixar de incorrer no clima fanfarrônico que tomou conta do imaginário coletivo na história recém contada, eis a versão de ”Ida à favela” para o twitter (se alguém vai publicá-la por lá é outra história):

“Na Cruzada, reunir e pegar vodka pra niver de amigo de amigo. Lá, ninguém bebeu. Tristes até cerveja e Pixinguinha na favela. Noite mágica.”

É, como puderam perceber, não nasci pro twitter (já fui, inclusive, chamado de prolixo na escrita). Aliás, essas novas mídias digitais têm o seu espaço, mas devemos estar sempre atentos para não incorrermos no erro de passar ou receber informações fragmentadas. Fiquemos por aqui mesmo com esse blog. E olha que ainda sobrou 1 (um!) caractere pra usar nesta postagem “twíttica”. Para ver a história completa, acompanhe aqui as partes um e dois

Até mais!


Ida à favela – parte 2 (o retorno apoteótico)

22 setembro, 2011

Como já dizia o velho ditado cantado por Chico Buarque: festa acabada, músicos a pé. Conosco, convidados de última hora pra fazer uma barulheira informal (quem não leu a parte 1, veja aqui), não poderia ser diferente, até porquê àquela altura já estávamos “prontinhos”, se é que me entendem, apesar da frustração com o fato de não termos conseguido nem dar uma mísera bicada na tal da Vodka importada que os garotos haviam guardado por dois meses pra uma ocasião especial. A sensação era de que o líquido havia escorrido pelo ralo. Para abater a desolação que pairava sobre alguns, Tadeu sugeriu que sentássemos em algum botequim. Aliás, nada disso teria acontecido sem Tadue, pois além do convite para o evento, foi por sua influência e amizade que ainda nos tempos de escola comecei a me interessar por samba. Era domingo, mas quase todos curtiam suas férias, ou não trabalhariam no dia seguinte.

Sugestão aceita, restava saber o porto a atracar. Não sei se malandramente da parte de alguns, mas seguimos pela Humberto de Campos em direção à Cruzada. Pra desanuviar o clima, Pedro Veríssimo logo tirou sua flauta da mochila e começou a tocar. Fadico foi o segundo. Titubeei um pouco por carregar um instrumento maior, mas mas acabei cedendo e tirando meu violão da capa. A turma da percussão ficou na palma da mão mesmo, ou tocando tamborim com o dedo. Logo passamos por um buteco daqueles pés-sujos que bravamente ainda resistem nas cercanias do Leblon, tocando algum chorinho, provavelmente o Carinhoso, de fácil apreensão, o qual f oi bem recebido pelo pessoal que assistia a um jogo do Botafogo, ou apenas tomava sua cervejinha no bar. O furdunço agradou, tanto que rapidamente nos trouxeram duas garrafas, uns copos e um banquinho. Fui ajudar a carregar todos os ítens e pude perceber que o bar internamente trazia um calor senegalês, ou melhor, um calor banguense (afinal, estávamos no Rio). Sorte que era inverno (naquele mesmo ano, retornei àquele balcão quase no verão e em vinte segundos já transpirava freneticamente).

Não pagamos uma cerveja sequer, apesar de termos nos oferecido para fazê-lo. O pessoal do bar, por sua vez, apenas pedia músicas e mais músicas. Não sei se foi no calor do momento, mas modéstia à parte (e aqui falo por todos nós) o repertório fluiu que foi uma beleza, quem sabia cantava, quem não sabia acompanhava na palma da mão ou apenas enchia os copos que faziam questão de esvaziar sem pedir licença. A bem da verdade, não era nada muito virtuoso o que fazíamos, mas aquele feijão com arroz empolgou o público. O jogo, que estava péssimo, foi sendo deixado de lado e não foram poucos os pedidos, nem foi pequena a sanha por informações sobre nosso “conjunto”. Um dos caras – e sempre tem alguém assim em qualquer bar – começou a tentar tirar vantagem, dizendo-se amigo pessoal de músicos conhecidos, ate o momento em que falou sobre o péssimo estado de saúde de um cavaquinista, que, segundo ele, havia se afastado da profissão. Nisso, alguns de nós estranharam por se tratar de um nome em razoável evidência, até que Fadico, o único do meio, embora iniciante, virou-se pro nosso lado e sussurrou:

- Bravateiro. Vi ele tocar semana passada. Saúde perfeita, não morre tão cedo.

 Tadeu recebeu um telefonema e foi correndo buscar sua namorada que queria ao menos estar presente na bagunça (tem hora que a coleira aperta!). Enquanto isso, fomos ficando cada vez mais constrangidos em aceitar tamanha quantidade de benesses etílicas, de modo que começamos a nos articular para pagar por elas. Tentativas frustradas uma a uma (e falo sério, nós seis tentamos, ao menos uma vez cada um, nos oferecer pra pagar pelas bebidas), ao findar do jogo (zero a zero), inventamos uma desculpa para a partida precoce e, decidimos continuar a saga rumo à Cruzada.

Apontamos na reta e duas mulheres, provavelmente mãe e filha, na casa dos sessenta e trinta e poucos anos, nos abordaram ao ver que saíamos tocando e cantando pela rua. Queriam saber se nós tocávamos em festas, pois estavam pensando em fazer uma roda num fim de semana próximo. Entrando no clima fanfarrão que se instaurava, logo respondi:

- Nós estamos saindo, justamente, de uma apresentação.

- Mas vocês tocam com algum tipo de uniforme? – Fez a mais velha.

- Ah, isso a gente tem que ver com nosso empresário, mas acho não ter problemas. – Alex se antecipou.

- Ih, vão querer que a gente use camisas listradas. - Sussurrei.

- Ou gravatas borboletas. – Complementou Pedro Veríssimo. Reinaldo não se continha, não parara de rir desde a saída do buteco, sem falar uma só palavra.

Apesar da distração momentânea, percebemos que pegaram nosso “telefone de contato” (o número de Fadico, que quando disse seu verdadeiro nome quase fez a mulher desistir do negócio, tamanha a excentricidade registrada em cartório por seus pais). Apesar de toda a dificuldade, surpreendentemente não desconfiaram de que aquele amontoado de pessoas fazendo sons aleatoriamente organizados (ê contradição!) se tratava de um grupo amador. Estava praticamente escrito na testa de cada um, mas não dissimulávamos, nem buscávamos tirar proveito de qualquer situação. Se houvesse um contrato, garanto que (até!) ensaiaríamos (a turma, de bom caráter, é preciso dizer, não compactua com a “lei de Gérson”).

Nos despedimos e, enfim, nos aproximamos da Cruzada São Sebastião. Tadeu reapareceu, agora acompanhado de sua menina, Paula. Neste momento, faltando menos de um quarteirão para a entrada, Fadico abruptamente guardou seu cavaco e falou, agitado:

- Agora é com vocês. Se eu entrar tocando cavaquinho na favela, aí é que a gente não consegue chegar no bar!

Eu e Pedro Veríssimo compreendemos o recado e topamos o desafio de seguir em frente. Àquela altura, nada mais poderia nos parar, não haveria timidez ou olhares curiosos que impedissem nossa caminhada musical. O barulho local há muito diminuíra, não sei se por convenção, hábito ou coincidência. Ouvíamos apenas a gritaria da meninada, correndo por dentro dos prédios e das vozes a gargalhar e conversar nos quiosques em formato de trailer. Era a hora! Nosso momento enfim se desenhava na nossa frente…

… E foi apoteótico! Não poderia imaginar cena mais bela e, ao mesmo tempo, pouco usual para tudo o que aconteceu. O céu já se fazia escuro, postes iluminavam do alto, com sua luz amarela, apoucas estrelas por trás das muitas nuvens, nenhum carro impedindo nossa passagem, os ecos do interior pareciam esperar por aquilo tudo, Fadico abriu os braços a cantarolar, Alex e Reinaldo a arrastar seus chinelos mais para trás, Tadeu e Paula, que já sabiam o destino, mais à frente, Pedro Veríssimo empunhou sua flauta e comandou o choro Naquele Tempo, de Pixinguinha (Choro maiúsculo dos mais conhecidos que, em texto antológico, o mestre Aldir Blanc já recomendara, àqueles que não o conheciam, enfiar a cabeça no vaso e puxar a descarga), comigo acompanhando na viola. Vou escrever de novo, entramos tocando Naquele Tempo, de Pixinguinha, Pixinguinha (!), em pleno domingo à noite na Cruzada. Apenas um aperitivo para tudo o que tocaríamos lá dentro. Foi lindo, magistral!

Tudo aquilo já teria valido à pena, ninguém se lembrava mais da marvada vodka de outrora, mas ainda havia um complemento especial a nos esperar. Entramos na cruzada e sentamos num buteco de fazer inveja a muito pé-sujo, a birosca da “tia” Sônia, mãe de Alex. A birosca nada mais era do que um balcão improvisado, montado sobre mesas e algumas geladeiras, freezers e um fogão atrás, para guardar as bebidas e preparar os comestíveis. Algo bem desordenado à primeira vista, mas vai perguntar pra alguém de lá se querem aquilo em ordem?! Na verdade, o troço é (ou era, o choque andou fazendo suas rondas por lá) improvisado, mas bastante organizadinho, próximo à entrada, porém no canto.

Conjecturamos sobre que alimento pedir e, finalmente, o até então o monossilábico Reinaldo abriu a boca e se manifestou.

- Batata frita! – Depois disso, Reinaldo desandou a falar, sobre tudo. Não sei se algo o impedia, promessa, timidez, recato, dor de garganta, mas vá entender?

Sua sugestão foi bem aceita, pedimos pela batata frita, que veio numa generosíssima porção, e continuamos a bebericar.

Logo que nos ajeitamos na mesa, um dos moradores da área, afirmando ser MC, pediu para mostrar uma de suas músicas. Deixamos, por quê não? O cara, conhecido pela área, inclusive pelo pessoal que estava na mesa conosco (apenas eu e Pedro Veríssimo estavámos sendo a ele apresentados) cantou, fez dancinha, sentou-se à mesa e pouco depois foi embora.

- Ele sempre canta essa. – Tadeu me falou.

Foi ficando tarde e as crianças começaram a ser chamadas para suas casas. Precisamos dar uma passada no banheiro e descobrimos que o bar não possuía um banheiro propriamente dito.

-  Cada um faz na sua casa.  – Disse Alex.

O mesmo Alex nos encaminhou até sua casa, a mais próxima, no andar de cima, mas tivemos que esperar , pois sua irmã mais nova estava a terminar seu banho. Foi duro aguentar tamanha a vontade, mas, felizmente nenhuma bexiga saiu avariada da situação. Pudemos perceber o esforço que os moradores de lá fazem pela conservação de seu patrimônio (mesmo sendo um prédio pertencente a uma favela, o custo de vida no leblon não é barato, muito pelo contrário). Tivemos de fazer a viagem para o banheiro ainda algumas vezes, cada vez mais em silêncio pois muitos dos moradores já dormiam. Saímos de lá por volta das duas horas da madrugada (Tadeu um pouco antes para levar Paula em casa), quando o bar fechou, após muitas saideiras musicais e cervejísticas.

Certamente houve um abatimento na conta, pois pagamos oito reais cada (por mais barata que seja a cerveja de lá, foram algumas e uma batata frita!) e ainda fomos acompanhados até o ponto de ônibus mais próximo. Ótimos anfitriões, ótimas pessoas. Resumo da ópera, um dia fora de casa por oito reais gastos! Na verdade, as questões financeiras ficaram deixadas totalmente de lado (porque não fui eu quem pagou pela vodka, né?). O estado em que nos encontrávamos – e aqui digo por todos nós, em ordem alfabética Alex, Fadico (vamos adotar o apelido, pois pelo nome seria o último), Pedro, Reinaldo, Tadeu (Paula chegou depois e não presenciou a tudo) e eu (começo com a letra V) – pode ser resumido por uma palavra: êxtase. E um viva ao Rio, que nos proporciona uma experiência dessas.

Até mais!


Bater em bêbado

13 agosto, 2011

Um dos locais mais propícios para a concentração de chatos, sem dúvidas, é o bar. Também pudera, o botequim é o lugar onde as pessoas vão pra beber ou pra conversar. Na medida em que o álcool entra e as palavras saem, é possível diagnosticar se quem está na mesma mesa, na mesa ao lado, em pé no balcão, ou encostado na porta do estabelecimento, é um potencial chato, ou um completo chato de galochas. Aliás, melhor do que eu, acho que essa música da voz do botequim, Jota Canalha, explica direitinho que boteco é lugar pra juntar chato.

São, portanto, vários os tipos de chato possíveis de se encontrar durante a estadia de poucas horas num bar. Outro dia, quem veio torrar a paciência do pessoal que confraternizava num boteco na rua Gago Coutinho, em laranjeiras, foi um senhor de idade, morador da casa ao lado (aliás, o lugar deve ser um cortiço, casa de cômodos ou algo parecido, tamanho é o número de famílias que lá habitam), mais mamado do que bebê quando começa a nascer a dentição. O cara já chegou aprontando das suas, sorrateiro, mancando, balançando de um lado para outro, não perdeu a oportunidade e passou a mão boba na bunda da menina que trajava um vestido curtíssimo e volta e meia vinha pedir um fósforo ou isqueiro para os fumantes do grupo em que me encontrava. A menina, por sinal, habituée do estabelecimento, dava lá suas olhadelas “cheias de má intenção” para um ou outro rapazote do grupo e do bar inteiro, especialmente os fumantes, talvez pela identificação imediata, mas na certa, por alguma situação mal resolvida com seu par, que não se encontrava no momento.

Voltando à cena inicial, foi só o ébrio senhor realizar o rápido ato que a moça não perdeu a oportunidade e veio reclamar:

- Que é isso! Você passou a mão na minha bunda! Por quê não passa a mão na bunda de um dos meninos aqui?! - se aproveitando para mais uma vez se aproximar de nosso grupo e, claro, fazer um rápido contato.

A rapariga estava, como dizem por aí, “toda se querendo”. Não demorou muito e se esqueceu, ou aparentou esquecer, do acontecimento. Parecia ser mais interessante filar o cigarro dos camaradas e demais presentes no bar, que abrigava um público razoavelmente grande.

Nós, no entanto, passamos a sofrer com o outro tipo de assédio do alcoolizado (muito mais habitual na porta de um bar e muito menos desagradável do que uma passada de mão na bunda por marmanjo, diga-se de passagem). O cara desandou a pedir para todos, um a um, por um copo de plástico cheio de cerveja e um cigarro. Diante das negativas, lá ia ele de novo recomeçando o ciclo de pedidos, todos negados (porque tem dia que ninguém está a fim de desperdiçar um gole que seja).  Começou a falar algo sobre ser feio e ter a cara amassada, entediando quem estava em volta. Até que foi para sua casa, não sem antes se desentender com a fechadura, que cismava em sair do lugar à revelia das vontades do velho.

Antes de mais nada, cabe fazer a ressalva de que essas atitudes, por mais insuportáveis que sejam, fazem parte do cotidiano. Quem está no bar está sujeito a essas intempéries, devendo saber lidar com jogo de cintura a esses momentos de torrar a paciência. O problema é que nem todos sabem segurar a onda, como veremos…

Algum tempo se passou e o senhor resolveu aparecer de novo, de banho tomado, cheiroso, de roupas trocadas, chinelo de dedo e álcool (ainda) na cabeça. Alguns assistiam o jogo do Vasco na tv, da entrada do bar e junto ao balcão, enquanto outros, do lado de fora, apenas conversavam. O senhor voltou a insistir:

- Me arruma cerveja num copo de plástico?

E ninguém dava bola. Papo ia, papo vinha, o garçom impecável a trocar as garrafas na “camisinha” térmica, bolinhos de bacalhau, kibes, esfihas (o consumidor tradicional dos torresmos não estava), e volta e meia o pedido do senhor era refeito.

- Me arruma uma cerveja? Bota num copo de plástico.

Eis que de repente, não mais que de repente, o tal do par da menina que levara a conferida manual, um armário de dois metros de altura, com sinais claros de calvície e óculos, que chegou no recinto sob a desatenta indiferença de todos, se aproxima do senhor, raivoso e trata logo de pegá-lo pelo braço, bufando.

- Tá maluco, o que você fez?! Esbravejou, torcendo o braço do senhor, para em seguida levá-lo ao chão atrás de um carro estacionado.

Todos se aproximaram, o que obrigou o grandalhão a arrastar o senhor até o outro lado da rua para se afastar, parando atrás de outro carro e deixando os chinelos do senhor pelo caminho. O velho, não bastasse a idade avançada, não conseguia demonstrar a menor reação. Felizmente, a turma do deixa disso era numerosa, mas de início o potencial corno não parecia escutar, afastando o braço do primeiro que tentou apartar a situação. O côro de “larga ele!”, “vai bater em bêbado?”, “deixa de ser covarde!”, “para com isso rapá!”, não bate no velho não!” foi se tornando encorpado, inclusive com os gritos de “larga ele, Rodrigo!” (era Rodrigo? Sinceramente, não faz a menor diferença), dados pela pivô da briga, àquela altura, devido à movimentação, mostrando mais do que o ciumento gostaria.

O clima de tensão durou aproximadamente um minuto, até que o estouradinho resolveu largar o coitado do senhor no chão, não sem antes resmungar palavras incompreensíveis com o dedo em riste, apontado para a fuça do indefeso. Muitos cercavam a cena, preparados para impedir e apartar a covardia consumada. Felizmente não houve soco, nem chute. O casal se afastou, ouvindo de todos lados apupos e frases nada amigáveis (àquela altura, a vizinhança toda já observava a cena de camarote). Comentários maldosos não faltaram; “o chifre vai crescer”, “o otário deve gostar de apanhar da mulher”, “que nada, deve ser é brocha!”. Todos tiveram aquela nítida impressão de que a atitude do valentão escondia alguma frustração maior. A mulher, certamente, voltará muitas vezes para o bar.

A coisa se acalmou, pessoas se dissipando, atravessei a rua e busquei o par de chinelos do senhor, lhe entregando em mãos. Notei seus joelhos e cotovelos ralados, além da camisa amassada e com um risco branco de sujeira. Falei palavras de consolo, indignado com a covardia do gigante e sugeri que lavasse suas feridas quando retornasse à sua casa. O senhor, imóvel, em choque, após alguns segundos, balbuciou:

- Apanhei, ele me bateu. Ele me bateu.

Sentou-se no meio fio de cabeça baixa, envergonhado, por alguns minutos, se levantou e foi pra casa, sendo ajudado na abertura da fechadura.

Até mais.


O som nos meios de transporte

15 junho, 2011

Aviso: Este texto em nada tem a ver com o barulho dos motores de determinados veículos! Caso contrário, o título seria “o som dos meios de transporte”.

Não sei se o leitor (ou a leitora) já notou que há um certo padrão em se escutar música nos variados meios de transporte que existem por aí. Provavelmente já deve ter notado, especialmente quando a música ouvida está aos berros no carro que passa ao seu lado. Nesse caso, é batata! Quando o som do carro pode ser ouvido ao dobrar esquina do quarteirão anterior ao que você está, pode ter certeza que a música lá tocada é uma porcaria, seja lá qual for o seu gosto. Em casos extremos, o volume do som é inversamente proporcional à qualidade sonora emitida. Mas, claro, há exceções (raríssimas, mas há), como na vez em que em pleno sinal fechado da Pinheiro Machado, sentido Túnel Santa Bárbara, um marmanjo robusto, pra não dizer gordinho, trajando camiseta regata e boné (um tipo clássico de “mal-ouvinte” no carro – nada contra quem usa regata e boné, é apenas uma constatação… e uma tiradinha de sarro) escutava em alto e bom som, literalmente, um Chico Buarque (talvez “Samba do grande amor”, não me recordo exatamente) que deu pra notar a quilômetros de distância. Eu, que vinha atravessando a rua com meu amigo João, ao perceber do que se tratava, logo pensei e comentei: “Que coisa fora de contexto!”, pensamento retribuído de bate-pronto por “Joe Joe”. Também posso acrescentar o episódio do dia em que, ao lado de minha irmã, ”alopramos” o marcador de volume ao som de “Irene” (num estilo um pouco diferente de Caetano e Gil) em pleno trânsito da rua Jardim Botânico. Estava trânsito, calor e na hora do almoço, de modo que peço-lhes um desconto pela parcial privação de sentidos.

No entanto, pior do que escutar aqueles mega-estrondos dos aparelhos de som dos carros no volume máximo, é ter de presenciar a algazarra produzida pelo motorista que resolve estacionar seu carro, abrir o porta-malas e, a partir daí, inaugurar a sua festa a céu aberto. Cena muito comum nos finais de semana, os estacionamentos são os ambientes preferidos para a realização destes atos, especialmente se o estacionamento em questão for descoberto. A visualização ficará completa mesmo se o local for estacionamento de super-mercado ou shopping center em dia de algum evento que não tenha muito a ver com o estabelecimento, tais como shows ou festas nas proximidades. O som não basta estar alto, tem que ser algo agitado. As principais pedidas nesses casos têm que explorar a capacidade das potentes caixas de som instaladas no porta-malas do possante. Geralmente, o pessoal vai de algo eletrônico, um funk carioca ou, dependendo do público, até mesmo um pagodão desses melosos atuais.

O pancadão também costuma rolar solto dentro dos ônibus e trens. Embora a paisagem do Rio de Janeiro seja uma admirável, toda viagem necessita de atrativos a mais, além da vista da janela. No caso de um ônibus ou trem lotado, por exemplo, pode dar adeus à possibilidade de rapidamente querer sentar na janelinha, já dizia o sábio baixinho Romário (com outras palavras e em tom um pouco mais agressivo, é verdade). Tudo começa com os trocadores que ouvem músicas e o noticiário para passar as horas de tédio. Esses não são problema, pois não alopram nos horários de início e fim de expediente, mas sim aqueles que pagam a passagem e se comportam como se o lugar fosse sua casa. Os “ouvintes”, digamos assim, não costumam respeitar os demais passageiros com seus sons ligados em altos volumes. Para não incomodar tanto – afinal, todo mundo tem um mínimo de senso de responsabilidade, por mais hipócrita que esta seja – costumam sentar nos bancos de trás (quando nos ônibus, nos trens vão em qualquer lugar mesmo), como se adiantasse de alguma coisa. A grande questão que envolve a barulheira dentro dos coletivos/transportes de massa está no fato de que quem ouve seu radinho nos mais altos volumes não se impotrta nem mesmo com o horário que o faz, atrapalhando a necessária soneca alheia antes ou depois de se trabalhar. Isto criou tanta polêmica (exagero aqui, pois, no máximo, gera pequenas discussões e resmungos dentro do ônibus) que até uma campanha não oficial foi criada, nos moldes das demais campanhas de doações existentes – a “Doe um fone para um funkeiro” – na qual vários cartazes já surgiram por aí. Vide os exemplos abaixo:

Eu sugeriria a ampliação dessa campanha para outros tipos de música. Uma outra trupe que curte ouvir seu som sem importar com quem está à sua volta são aqueles que escutam músicas evangélicas. Nesse caso em particular, os donos do aparelho têm geralmente uma atitude de indiferença frente às reclamações dos demais, pois o alto volume das canções, na visão deles, faz parte de uma estratégia de conversão de fiéis. Sem querer desrespeitar a crença de ninguém, também não acho que encher a paciência das pessoas seja algo que arrebanhe novas pessoas, ainda mais com músicas geralmente de baixíssima qualidade (vão dizer que ”gosto não se discute”, mas isso é assunto para um outro dia).

No extremo oposto da barulheira, dentro dos metrôs a galera parece ser mais reservada na escuta de suas músicas. O metrô, por si só já é um espaço mais sóbrio – e nada tem a ver o fato de ser proibido entrar alcoolizado nas estações (!) – e reservado por não nos permitir o contato visual com a cidade lá fora em muitas das estações (a linha 1, por exemplo é toda por baixo da terra). Uma impessoalidade que não condiz muito com o espírito dos cariocas. Não é por acaso que cena usual é ver pessoas com seus fones de ouvido e olhos pro chão ou até mesmo fechados, como se quisessem evitar que os outros notassem suas presenças (aliás, esse isolamento nos fones de ouvido é uma tendência mundial em virtude das novas tecnologias). O máximo que se ouve – pra quem está “de fora” são aquelas batidas e ruídos que os fones emitem para além das orelhas (outro dia me falaram que termo ”ouvido” não existe mais no vocabulário médico. Foi um choque, virou tudo “orelha”).

O som dentro da Van é um atributo mais da gandaia. Geralmente presentes à noite, entrar numa van com o som ligado ou com um passageiro escutando uma musiquinha é um incentivo pra voltar pra casa de madrugada (aí vai da responsabilidade e obrigações de cada um). O pequeno espaço faz com que todos consigam escutar, sem escapatória, o som ambiente. O repertório geralmente traz um ritmo dançante, dos mais variados. Funk, hip hop, samba, forró, pagode, pop-rock, até uma salsa cubana pode pintar no interior das vans. Nunca ouvi por lá, diga-se de passagem – entendeu? de passagem (licença para trocadilhos infames) – , foi o som de Ed Motta (se arruma, tem espaço na vaaaan).

Os outros meios de locomoção tradicionais talvez não sejam dignos de maior nota. Afinal, quem anda de moto não ouve nada, além do barulho do vento no capacete e o barulho do trânsito. Nas bicicletas, tirando aquelas “bicicletas de som” (veja aqui), é também, no máximo, o fone de ouvido. Antigamente os ciclistas costumavam carregar seus walkmans para curtir a travessia, mas hoje é tudo no mp3 e afins mesmo. Não tenho conhecimento sobre o que é de praxe nas charretes (e elas são bem raras nas cidades grandes), pedalinhos e quaisquer outro veículo para passeios curtíssimos. Pra terminar, o bonde, o meio de transporte mais simpático e infelizmente em extinção, resistente apenas no bairro de Santa Teresa, apesar da sanha da máfia da Fetranspor. Por ser aberto e permitir um maior contato com a rua também não costuma ter seus passageiros ouvindo nenhum tipo de som ou portando aparelho em especial. Fiquemos então com uma música sobre ele (O Bonde, de Maurício Tapajós, Sidney Miller e Sueli Costa, do indispensável disco “Rio, ruas e risos”, do Maurício com o Aldir):

Até mais!


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