Como já dizia o velho ditado cantado por Chico Buarque: festa acabada, músicos a pé. Conosco, convidados de última hora pra fazer uma barulheira informal (quem não leu a parte 1, veja aqui), não poderia ser diferente, até porquê àquela altura já estávamos “prontinhos”, se é que me entendem, apesar da frustração com o fato de não termos conseguido nem dar uma mísera bicada na tal da Vodka importada que os garotos haviam guardado por dois meses pra uma ocasião especial. A sensação era de que o líquido havia escorrido pelo ralo. Para abater a desolação que pairava sobre alguns, Tadeu sugeriu que sentássemos em algum botequim. Aliás, nada disso teria acontecido sem Tadue, pois além do convite para o evento, foi por sua influência e amizade que ainda nos tempos de escola comecei a me interessar por samba. Era domingo, mas quase todos curtiam suas férias, ou não trabalhariam no dia seguinte.
Sugestão aceita, restava saber o porto a atracar. Não sei se malandramente da parte de alguns, mas seguimos pela Humberto de Campos em direção à Cruzada. Pra desanuviar o clima, Pedro Veríssimo logo tirou sua flauta da mochila e começou a tocar. Fadico foi o segundo. Titubeei um pouco por carregar um instrumento maior, mas mas acabei cedendo e tirando meu violão da capa. A turma da percussão ficou na palma da mão mesmo, ou tocando tamborim com o dedo. Logo passamos por um buteco daqueles pés-sujos que bravamente ainda resistem nas cercanias do Leblon, tocando algum chorinho, provavelmente o Carinhoso, de fácil apreensão, o qual f oi bem recebido pelo pessoal que assistia a um jogo do Botafogo, ou apenas tomava sua cervejinha no bar. O furdunço agradou, tanto que rapidamente nos trouxeram duas garrafas, uns copos e um banquinho. Fui ajudar a carregar todos os ítens e pude perceber que o bar internamente trazia um calor senegalês, ou melhor, um calor banguense (afinal, estávamos no Rio). Sorte que era inverno (naquele mesmo ano, retornei àquele balcão quase no verão e em vinte segundos já transpirava freneticamente).
Não pagamos uma cerveja sequer, apesar de termos nos oferecido para fazê-lo. O pessoal do bar, por sua vez, apenas pedia músicas e mais músicas. Não sei se foi no calor do momento, mas modéstia à parte (e aqui falo por todos nós) o repertório fluiu que foi uma beleza, quem sabia cantava, quem não sabia acompanhava na palma da mão ou apenas enchia os copos que faziam questão de esvaziar sem pedir licença. A bem da verdade, não era nada muito virtuoso o que fazíamos, mas aquele feijão com arroz empolgou o público. O jogo, que estava péssimo, foi sendo deixado de lado e não foram poucos os pedidos, nem foi pequena a sanha por informações sobre nosso “conjunto”. Um dos caras – e sempre tem alguém assim em qualquer bar – começou a tentar tirar vantagem, dizendo-se amigo pessoal de músicos conhecidos, ate o momento em que falou sobre o péssimo estado de saúde de um cavaquinista, que, segundo ele, havia se afastado da profissão. Nisso, alguns de nós estranharam por se tratar de um nome em razoável evidência, até que Fadico, o único do meio, embora iniciante, virou-se pro nosso lado e sussurrou:
- Bravateiro. Vi ele tocar semana passada. Saúde perfeita, não morre tão cedo.
Tadeu recebeu um telefonema e foi correndo buscar sua namorada que queria ao menos estar presente na bagunça (tem hora que a coleira aperta!). Enquanto isso, fomos ficando cada vez mais constrangidos em aceitar tamanha quantidade de benesses etílicas, de modo que começamos a nos articular para pagar por elas. Tentativas frustradas uma a uma (e falo sério, nós seis tentamos, ao menos uma vez cada um, nos oferecer pra pagar pelas bebidas), ao findar do jogo (zero a zero), inventamos uma desculpa para a partida precoce e, decidimos continuar a saga rumo à Cruzada.
Apontamos na reta e duas mulheres, provavelmente mãe e filha, na casa dos sessenta e trinta e poucos anos, nos abordaram ao ver que saíamos tocando e cantando pela rua. Queriam saber se nós tocávamos em festas, pois estavam pensando em fazer uma roda num fim de semana próximo. Entrando no clima fanfarrão que se instaurava, logo respondi:
- Nós estamos saindo, justamente, de uma apresentação.
- Mas vocês tocam com algum tipo de uniforme? – Fez a mais velha.
- Ah, isso a gente tem que ver com nosso empresário, mas acho não ter problemas. – Alex se antecipou.
- Ih, vão querer que a gente use camisas listradas. - Sussurrei.
- Ou gravatas borboletas. – Complementou Pedro Veríssimo. Reinaldo não se continha, não parara de rir desde a saída do buteco, sem falar uma só palavra.
Apesar da distração momentânea, percebemos que pegaram nosso “telefone de contato” (o número de Fadico, que quando disse seu verdadeiro nome quase fez a mulher desistir do negócio, tamanha a excentricidade registrada em cartório por seus pais). Apesar de toda a dificuldade, surpreendentemente não desconfiaram de que aquele amontoado de pessoas fazendo sons aleatoriamente organizados (ê contradição!) se tratava de um grupo amador. Estava praticamente escrito na testa de cada um, mas não dissimulávamos, nem buscávamos tirar proveito de qualquer situação. Se houvesse um contrato, garanto que (até!) ensaiaríamos (a turma, de bom caráter, é preciso dizer, não compactua com a “lei de Gérson”).
Nos despedimos e, enfim, nos aproximamos da Cruzada São Sebastião. Tadeu reapareceu, agora acompanhado de sua menina, Paula. Neste momento, faltando menos de um quarteirão para a entrada, Fadico abruptamente guardou seu cavaco e falou, agitado:
- Agora é com vocês. Se eu entrar tocando cavaquinho na favela, aí é que a gente não consegue chegar no bar!
Eu e Pedro Veríssimo compreendemos o recado e topamos o desafio de seguir em frente. Àquela altura, nada mais poderia nos parar, não haveria timidez ou olhares curiosos que impedissem nossa caminhada musical. O barulho local há muito diminuíra, não sei se por convenção, hábito ou coincidência. Ouvíamos apenas a gritaria da meninada, correndo por dentro dos prédios e das vozes a gargalhar e conversar nos quiosques em formato de trailer. Era a hora! Nosso momento enfim se desenhava na nossa frente…
… E foi apoteótico! Não poderia imaginar cena mais bela e, ao mesmo tempo, pouco usual para tudo o que aconteceu. O céu já se fazia escuro, postes iluminavam do alto, com sua luz amarela, apoucas estrelas por trás das muitas nuvens, nenhum carro impedindo nossa passagem, os ecos do interior pareciam esperar por aquilo tudo, Fadico abriu os braços a cantarolar, Alex e Reinaldo a arrastar seus chinelos mais para trás, Tadeu e Paula, que já sabiam o destino, mais à frente, Pedro Veríssimo empunhou sua flauta e comandou o choro Naquele Tempo, de Pixinguinha (Choro maiúsculo dos mais conhecidos que, em texto antológico, o mestre Aldir Blanc já recomendara, àqueles que não o conheciam, enfiar a cabeça no vaso e puxar a descarga), comigo acompanhando na viola. Vou escrever de novo, entramos tocando Naquele Tempo, de Pixinguinha, Pixinguinha (!), em pleno domingo à noite na Cruzada. Apenas um aperitivo para tudo o que tocaríamos lá dentro. Foi lindo, magistral!
Tudo aquilo já teria valido à pena, ninguém se lembrava mais da marvada vodka de outrora, mas ainda havia um complemento especial a nos esperar. Entramos na cruzada e sentamos num buteco de fazer inveja a muito pé-sujo, a birosca da “tia” Sônia, mãe de Alex. A birosca nada mais era do que um balcão improvisado, montado sobre mesas e algumas geladeiras, freezers e um fogão atrás, para guardar as bebidas e preparar os comestíveis. Algo bem desordenado à primeira vista, mas vai perguntar pra alguém de lá se querem aquilo em ordem?! Na verdade, o troço é (ou era, o choque andou fazendo suas rondas por lá) improvisado, mas bastante organizadinho, próximo à entrada, porém no canto.
Conjecturamos sobre que alimento pedir e, finalmente, o até então o monossilábico Reinaldo abriu a boca e se manifestou.
- Batata frita! – Depois disso, Reinaldo desandou a falar, sobre tudo. Não sei se algo o impedia, promessa, timidez, recato, dor de garganta, mas vá entender?
Sua sugestão foi bem aceita, pedimos pela batata frita, que veio numa generosíssima porção, e continuamos a bebericar.
Logo que nos ajeitamos na mesa, um dos moradores da área, afirmando ser MC, pediu para mostrar uma de suas músicas. Deixamos, por quê não? O cara, conhecido pela área, inclusive pelo pessoal que estava na mesa conosco (apenas eu e Pedro Veríssimo estavámos sendo a ele apresentados) cantou, fez dancinha, sentou-se à mesa e pouco depois foi embora.
- Ele sempre canta essa. – Tadeu me falou.
Foi ficando tarde e as crianças começaram a ser chamadas para suas casas. Precisamos dar uma passada no banheiro e descobrimos que o bar não possuía um banheiro propriamente dito.
- Cada um faz na sua casa. – Disse Alex.
O mesmo Alex nos encaminhou até sua casa, a mais próxima, no andar de cima, mas tivemos que esperar , pois sua irmã mais nova estava a terminar seu banho. Foi duro aguentar tamanha a vontade, mas, felizmente nenhuma bexiga saiu avariada da situação. Pudemos perceber o esforço que os moradores de lá fazem pela conservação de seu patrimônio (mesmo sendo um prédio pertencente a uma favela, o custo de vida no leblon não é barato, muito pelo contrário). Tivemos de fazer a viagem para o banheiro ainda algumas vezes, cada vez mais em silêncio pois muitos dos moradores já dormiam. Saímos de lá por volta das duas horas da madrugada (Tadeu um pouco antes para levar Paula em casa), quando o bar fechou, após muitas saideiras musicais e cervejísticas.
Certamente houve um abatimento na conta, pois pagamos oito reais cada (por mais barata que seja a cerveja de lá, foram algumas e uma batata frita!) e ainda fomos acompanhados até o ponto de ônibus mais próximo. Ótimos anfitriões, ótimas pessoas. Resumo da ópera, um dia fora de casa por oito reais gastos! Na verdade, as questões financeiras ficaram deixadas totalmente de lado (porque não fui eu quem pagou pela vodka, né?). O estado em que nos encontrávamos – e aqui digo por todos nós, em ordem alfabética Alex, Fadico (vamos adotar o apelido, pois pelo nome seria o último), Pedro, Reinaldo, Tadeu (Paula chegou depois e não presenciou a tudo) e eu (começo com a letra V) – pode ser resumido por uma palavra: êxtase. E um viva ao Rio, que nos proporciona uma experiência dessas.
Até mais!