Não conheço muitas favelas por dentro. Isso, vindo de um carioca, me traz um sentimento de frustração e até um pouco de vergonha. Já fui, no entanto, a convite, à Rocinha (que desde o primeiro mandato do interminável Cesar Maia se tornou bairro, mais numa forma de cobrar impostos mais caros aos seus moradores do que efetivamente melhorar as condições do local, com o não muito mais do que maquiador “Favela Bairro”) por algumas vezes, à Mangueira (num local que realizava um interessante projeto educacional – com direito a alimentação, chuveiros e até dormitórios – com crianças e jovens, embora fosse pouco acima do pé do morro, basicamente na entrada da favela) poucas vezes, à Tavares Bastos (só pra conhecer aquele jazz na casa do gringo, que aliás só vale pelo som que, de fato, é de boa qualidade e pela vista, pois os preços são escandalosos), e à Cruzada de São Sebastião (que sempre tratei como um conjunto habitacional - foi criada por iniciativa de Dom Hélder Câmara, aliás, a aproximação da Igreja nesse sentido salvou sua pele se levarmos em conta o projeto de remoção/expulsão da população de baixa renda que se intencionava na área; cabe apenas lembrar que a Cruzada é praticamente vizinha da antiga favela da Praia do Pinto, incendiada sem dó nem piedade pela PM aos mandos do então governador Carlos Lacerda -, mas, que de tanto seus moradores se referirem ao lugar como favela, passarei a tratá-la enquanto tal, sem nenhum juízo de valor negativo no termo) por algumas. Estou, portanto, em débito altíssimo quanto a esses espaços da cidade (alguns pessoais, como os inúmeros convites que tive pra subir o Vidigal, o Formiga, o Morro Azul e o Dona Marta – do qual só conheço o mirante – , por exemplo). Ao contrário do pensamento oficial, que trata as favelas como foco de violência, tráfico e desordem (vide o caso das UPP’s, que a opinião pública – seja lá o que for isso – começa a se dar conta de que este projeto de segurança pública não se trata daquela maravilha toda que Cabralzinho e Beltrame preconizavam, longe disso até), sempre fui nelas para aproveitar sua riqueza social.
No dia do relato que pretendo lhes contar, por sua vez, a situação teve contornos especiais. Tudo começou após um convite de meu camarada de infância Tadeu, para que fôssemos fazer um furdunço musical na feijoada de um amigo dele. Na verdade, a feijoada era do amigo de um amigo, um cara fortemente ligado à Escola de Samba Mocidade Independente de Padre Miguel (se não me engano, fazia parte da diretoria) e que naquela data comemoraria seu aniversário, de modo que precisava de músicos. Sorte nossa que o troço era informal, pois não fazia uma brincadeira musical com Tadeu há anos, nunca tinha sequer visto os dois percussionistas e acabara de conhecer o cavaquinista da galera, dias antes. Entrosamento mesmo, apenas com o flautista, mais no copo do que musicalmente, apesar da bagunça mensal e alguns ensaios e apresentações em busca de parcos trocados, este chegaria mais tarde ao evento por questões de trabalho.
Tudo combinado, passei na casa de Tadeu e rumamos para a Cruzada São Sebastião atrás dos outros músicos, Fadico, Alex e Reinaldo, que lá moravam. Fadico, o amigo do aniversariante anfitrião da festa, sempre com uma tirada engraçada e de gestos expansivos, é o único que sobrevive profissionalmente de música, com seu cavaquinho. Os outros dois, nem instrumento tinham, pra vocês verem o nível do negócio. Confesso que ingenuamente acreditei quando Alex falou que iria apenas batucar com seu chinelo de dedo. Reinaldo, quieto que só ele, era o típico cara que ri de tudo, até do que à primeira vista não parece engraçado.
Chegamos na Cruzada e levamos um verdadeiro chá de cadeira. Quase meia hora depois do planejado, entre ligações e informações desencontradas, Fadico finalmente apareceu, resmungando:
- Parecem donzelas aqueles dois, até pra vestir regata e chinelo demoram pra sair. Cansei de ficar lá em cima. Só espero que não esqueçam do presentinho que vamos levar pro aniversariante e pra gente. – Para em seguida nos cumprimentar.
Perguntamos qual o presente, mas Fadico fez questão de não revelar, apenas dizendo: “todo mundo vai gostar, é especial”.
A Cruzada trazia aquele climão de domingo na hora do almoço: crianças correndo entrando e saindo de frestas inimagináveis, futebolzinho rolando solto entre os prédios, mulheres sentadas na birosca improvisada que funcionava de dentro das grades da “pequena cidade” (porque aquilo é uma cidadezinha em pleno Leblon), do lado de fora homens e adolescentes em pé nas barraquinhas, tomando cerveja, admirando as motos de alguns, fazendo churrasquinho, ouvindo som (funk, pagode, samba antigo, conflitantes uns com os outros em sonoridade, mas em plena harmonia comunitária), jogando bola, fut-lata, dançando e fazendo gracinhas com as meninas que passavam, tudo em plena rua Humberto de Campos. Camisas do Flamengo que mais pareciam as redondezas do Maracanã em dia de jogo (e o Flamengo havia vencido na véspera, jogando mal, mas havia vencido). E é impressionante como todos na Cruzada parecem torcer pelo Flamengo, algo natural, tendo em vista a vizinhança com o clube.
Esperamos uns bons 40 minutos, que aproveitamos pra jogar conversa fora, dar uma conferida na afinação dos instrumentos, perguntar sobre o presente, sem sucesso, e jogar conversa fora. Quando, enfim despontaram Alex e Reinaldo, Fadico, visivelmente irritado esbravejou:
- Demoraram esse tempo todo e esqueceram da garrafa?!! – Ao perceber a gafe, Alex deu meia volta e correu em direção a sua casa. Tadeu logo perguntou:
- Garrafa de quê? – Já imaginando que se tratava de birita.
- Tá, agora vou falar. É uma vodka importada que nós compramos há dois meses, a gente tava esperando uma ocasião especial para tomá-la. - Fadico, de bate-pronto.
E tome de elogios à tal da vodka. Comparações com outras marcas conhecidas, frias análises sobre a diferença entre aquela e as demais, sempre ressaltando as qualidades do produto que traríamos para ser degustado na festa. Alex voltou e enfim partimos em direção à casa do aniversariante. Uma hora e meia depois do inicialmente planejado, como de praxe. Praticamente o assunto não foi outro senão a vodka. Seria melhor experimentá-la antes de encher a barriga, ou depois da feijoada, todos poderiam provar ou apenas o pessoal da “diretoria”. Toda uma estratégia foi traçada minuciosamente. A garrafa seguiu ao local guardada na mochila de Alex. Reinaldo, não parava de rir das besteiras e planos bolados por todos, sem dizer uma palavra. Cheguei a achar que o menino era mudo.
Chegamos na festa na exata hora em que a feijoada estava saindo da panela para uma grande mesa posta na sala. Uma confusão generalizada, gente saindo pela porta da cozinha, cortando caminho entre as mesas e cadeiras espalhadas, a varanda intransitável. Nesse momento avistamos o aniversariante (mesmo sem saber quem era, logo de cara deu pra identificá-lo, comandando toda a movimentação com um embrulho de presente debaixo do braço) e fomos lentamente em sua direção, na grande varanda daquela cobertura (ah sim, o apartamento era uma cobertura, cuja varanda parecia ser maior do que a sala). Apesar do auê danado que se criava na sanha pela feijoada (afinal, já havia um pessoal esperando pelo rango há algumas horas), fomos calorosamente recebidos, de modo que nem parecia ser a maioria desconhecida do moço. Fadico cochichou algo no pé do ouvido de Alex, que se virou e abriu a mochila. Fadico pegou a garrafa da Vodka e tentou presentear o aniversariante:
-Parabéns cara, ess…
- Ô, muito obrigado meu irmãozinho!!! Dá licença. - Interrompeu o aniversariante, que pegou a garrafa e, sem dar o menor tempo para a reação, se dirigiu ao interior da casa.
Os quatro olhares dos recém-chegados se viraram em direção de Fadico, como que perguntando: “e agora?!!”. A garrafa tinha ido embora, lacrada, é verdade, mas sabe-se lá pra onde.
- Ah, vamos encher o bucho nessa feijoada e depois a gente resolve! – Fez Fadico.
Todos nós rumamos novamente para dentro da casa, pegando os pratos e verificando se, porventura, não achávamos a garrafa presenteada em alguma bancada ou mesa.
- Está ali! Viu Alex, apontando para o alto de uma estante.
- Então é isso, primeiro a gente come, depois a gente desenrola. Sentenciou Tadeu.
Na boa gíria da galera, batemos um pratão cada um, alguns com direito a repeteco. Nesse ínterim, o flautista, meu mano Pedro Veríssimo, chegou na esquina da rua, no que desci para buscá-lo. Todos comeram bem, sendo servidos por generosas jarras de cerveja, nervosas, afobadas, a não deixar o esvaziar dos copos. Fizemos um breve descanso para a comida se acomodar e começamos a tocar. É bem verdade que, apesar da farta alimentação e do fluxo incessante de louras geladas, o troço não começou muito bem por conta das preocupações com aquela que adormecia na prateleira. Era só terminar uma música que lá vinha alguém: “e aí, vamos falar com o camarada pra ele abrir a vodka em comemoração ao seu aniversário?”, “será que ele vai fazer desfeita e não vai experimentar o presente com a gente?”, “tô sentindo falta de uma água com a brisa gelada da Sibéria!”.
É verdade que a barulheira era tanta que cada instrumentista mal ouvia o som dos seus colegas, de modo que , se já não o fosse pra quem estava na festa, o samba acabou sendo deixado meio que de lado inclusive pelo pessoal da banda. Tocamos por pouco mais de meia hora e direcionamos nossos pensamentos para o que realmente interessava àquela altura do campeonato: a birita. Tendo a mesa repleta de pratos vazios e copos cheios, não era possível trocar mais do que poucas palavras com o aniversariante, que volta e meia passava por nossa mesa e, dando tapinhas em nossas costas, perguntava se tudo estava bem, ao que respondíamos que sim, alguns sem disfarçar o sorriso amarelo pela falta da “branquinha do mar Báltico”.
Papo vai, papo vem, alguns começaram a se esquecer da vodka, até o momento em que visivelmente a festa parecia estar se aproximando de seu fim. Com menos pessoas para filar o presente alheio, foi tentada uma aproximação direta. Fadico se aproximou do aniversariante, àquela altura menos assediado (foi um negócio de louco a festa toda) e fez, enfim, a pergunta direta:
- E aí, vamos brindar com aquela vodkazinha?
- Ih é rapaz, vamos, vamos! - Fez que sim o aniversariante, que novamente adentrou a casa.
Enquanto esperávamos, tratamos de ensaiar uma batucada, que finalmente pôde ser ouvida pelos convidados restantes, de modo que passamos a atender a pedidos, na medida do possível (e vou lhes dizer, àquela hora, tudo já era possível). Acabamos nos distraindo e nem notamos o tempo passar. O aniversariante, por sua vez, estava entretido com as despedidas. Quando retornou à varanda, alguns minutos depois, veio em nossa direção com a mão espalmada sobre a testa. Era o prenúncio do que mais temíamos:
- Ih rapaziada, vocês não vão acreditar! Tinha guardado aquela garrafa pra gente tomar, mas alguém usou quase toda pra fazer caipirosca (ou caipivodka) de morango… – Lamentou, apontando para uma mesa escondida de nosso campo de visão, onde anteriormente estavam sua mãe e algumas comadres, que deviam ter feito bom proveito da dita cuja (no momento, restavam um rapaz e sua mulher). Esticamos o pescoço e fizemos o gesto de brinde com nossos copos ao casal, que retribuiu.
- Ih, então deixa esse restinho de presente pra você. – Fadico sentenciou brincando, sem ressentimentos.
Alex e Reinaldo foram os que mais sentiram o golpe, a cara deles denunciava tudo. Ficamos mais alguns minutos na festa, cumprimentamos e recebemos elogios do anfitrião para, em seguida nos despedirmos. Ainda no elevador, Alex, desolado, levantou as mãos, olhou para cima e lamentou:
- Logo a mãe! Logo a mãe do cara! Grande ocasião para trazer a vodka!
Todos rimos, afinal não havia mais nada a fazer.
Até mais!