Ida à favela (versão twitter)

28 setembro, 2011

Devido às centenas de ligações, cartas, telegramas, mensagens telegrafadas em código morse, campainhas tocadas e informações trazidas por um sem-número de meios não muito utilizados, não-convencionais ou obsoletos, paradoxalmente, a história da ida à favela ganhará uma versão para a página do passarinho azul que nada tem a ver com o caldo Maggi, o caldo nobre da galinha azul. Sem deixar de incorrer no clima fanfarrônico que tomou conta do imaginário coletivo na história recém contada, eis a versão de ”Ida à favela” para o twitter (se alguém vai publicá-la por lá é outra história):

“Na Cruzada, reunir e pegar vodka pra niver de amigo de amigo. Lá, ninguém bebeu. Tristes até cerveja e Pixinguinha na favela. Noite mágica.”

É, como puderam perceber, não nasci pro twitter (já fui, inclusive, chamado de prolixo na escrita). Aliás, essas novas mídias digitais têm o seu espaço, mas devemos estar sempre atentos para não incorrermos no erro de passar ou receber informações fragmentadas. Fiquemos por aqui mesmo com esse blog. E olha que ainda sobrou 1 (um!) caractere pra usar nesta postagem “twíttica”. Para ver a história completa, acompanhe aqui as partes um e dois

Até mais!


Ida à favela – parte 2 (o retorno apoteótico)

22 setembro, 2011

Como já dizia o velho ditado cantado por Chico Buarque: festa acabada, músicos a pé. Conosco, convidados de última hora pra fazer uma barulheira informal (quem não leu a parte 1, veja aqui), não poderia ser diferente, até porquê àquela altura já estávamos “prontinhos”, se é que me entendem, apesar da frustração com o fato de não termos conseguido nem dar uma mísera bicada na tal da Vodka importada que os garotos haviam guardado por dois meses pra uma ocasião especial. A sensação era de que o líquido havia escorrido pelo ralo. Para abater a desolação que pairava sobre alguns, Tadeu sugeriu que sentássemos em algum botequim. Aliás, nada disso teria acontecido sem Tadue, pois além do convite para o evento, foi por sua influência e amizade que ainda nos tempos de escola comecei a me interessar por samba. Era domingo, mas quase todos curtiam suas férias, ou não trabalhariam no dia seguinte.

Sugestão aceita, restava saber o porto a atracar. Não sei se malandramente da parte de alguns, mas seguimos pela Humberto de Campos em direção à Cruzada. Pra desanuviar o clima, Pedro Veríssimo logo tirou sua flauta da mochila e começou a tocar. Fadico foi o segundo. Titubeei um pouco por carregar um instrumento maior, mas mas acabei cedendo e tirando meu violão da capa. A turma da percussão ficou na palma da mão mesmo, ou tocando tamborim com o dedo. Logo passamos por um buteco daqueles pés-sujos que bravamente ainda resistem nas cercanias do Leblon, tocando algum chorinho, provavelmente o Carinhoso, de fácil apreensão, o qual f oi bem recebido pelo pessoal que assistia a um jogo do Botafogo, ou apenas tomava sua cervejinha no bar. O furdunço agradou, tanto que rapidamente nos trouxeram duas garrafas, uns copos e um banquinho. Fui ajudar a carregar todos os ítens e pude perceber que o bar internamente trazia um calor senegalês, ou melhor, um calor banguense (afinal, estávamos no Rio). Sorte que era inverno (naquele mesmo ano, retornei àquele balcão quase no verão e em vinte segundos já transpirava freneticamente).

Não pagamos uma cerveja sequer, apesar de termos nos oferecido para fazê-lo. O pessoal do bar, por sua vez, apenas pedia músicas e mais músicas. Não sei se foi no calor do momento, mas modéstia à parte (e aqui falo por todos nós) o repertório fluiu que foi uma beleza, quem sabia cantava, quem não sabia acompanhava na palma da mão ou apenas enchia os copos que faziam questão de esvaziar sem pedir licença. A bem da verdade, não era nada muito virtuoso o que fazíamos, mas aquele feijão com arroz empolgou o público. O jogo, que estava péssimo, foi sendo deixado de lado e não foram poucos os pedidos, nem foi pequena a sanha por informações sobre nosso “conjunto”. Um dos caras – e sempre tem alguém assim em qualquer bar – começou a tentar tirar vantagem, dizendo-se amigo pessoal de músicos conhecidos, ate o momento em que falou sobre o péssimo estado de saúde de um cavaquinista, que, segundo ele, havia se afastado da profissão. Nisso, alguns de nós estranharam por se tratar de um nome em razoável evidência, até que Fadico, o único do meio, embora iniciante, virou-se pro nosso lado e sussurrou:

- Bravateiro. Vi ele tocar semana passada. Saúde perfeita, não morre tão cedo.

 Tadeu recebeu um telefonema e foi correndo buscar sua namorada que queria ao menos estar presente na bagunça (tem hora que a coleira aperta!). Enquanto isso, fomos ficando cada vez mais constrangidos em aceitar tamanha quantidade de benesses etílicas, de modo que começamos a nos articular para pagar por elas. Tentativas frustradas uma a uma (e falo sério, nós seis tentamos, ao menos uma vez cada um, nos oferecer pra pagar pelas bebidas), ao findar do jogo (zero a zero), inventamos uma desculpa para a partida precoce e, decidimos continuar a saga rumo à Cruzada.

Apontamos na reta e duas mulheres, provavelmente mãe e filha, na casa dos sessenta e trinta e poucos anos, nos abordaram ao ver que saíamos tocando e cantando pela rua. Queriam saber se nós tocávamos em festas, pois estavam pensando em fazer uma roda num fim de semana próximo. Entrando no clima fanfarrão que se instaurava, logo respondi:

- Nós estamos saindo, justamente, de uma apresentação.

- Mas vocês tocam com algum tipo de uniforme? – Fez a mais velha.

- Ah, isso a gente tem que ver com nosso empresário, mas acho não ter problemas. – Alex se antecipou.

- Ih, vão querer que a gente use camisas listradas. - Sussurrei.

- Ou gravatas borboletas. – Complementou Pedro Veríssimo. Reinaldo não se continha, não parara de rir desde a saída do buteco, sem falar uma só palavra.

Apesar da distração momentânea, percebemos que pegaram nosso “telefone de contato” (o número de Fadico, que quando disse seu verdadeiro nome quase fez a mulher desistir do negócio, tamanha a excentricidade registrada em cartório por seus pais). Apesar de toda a dificuldade, surpreendentemente não desconfiaram de que aquele amontoado de pessoas fazendo sons aleatoriamente organizados (ê contradição!) se tratava de um grupo amador. Estava praticamente escrito na testa de cada um, mas não dissimulávamos, nem buscávamos tirar proveito de qualquer situação. Se houvesse um contrato, garanto que (até!) ensaiaríamos (a turma, de bom caráter, é preciso dizer, não compactua com a “lei de Gérson”).

Nos despedimos e, enfim, nos aproximamos da Cruzada São Sebastião. Tadeu reapareceu, agora acompanhado de sua menina, Paula. Neste momento, faltando menos de um quarteirão para a entrada, Fadico abruptamente guardou seu cavaco e falou, agitado:

- Agora é com vocês. Se eu entrar tocando cavaquinho na favela, aí é que a gente não consegue chegar no bar!

Eu e Pedro Veríssimo compreendemos o recado e topamos o desafio de seguir em frente. Àquela altura, nada mais poderia nos parar, não haveria timidez ou olhares curiosos que impedissem nossa caminhada musical. O barulho local há muito diminuíra, não sei se por convenção, hábito ou coincidência. Ouvíamos apenas a gritaria da meninada, correndo por dentro dos prédios e das vozes a gargalhar e conversar nos quiosques em formato de trailer. Era a hora! Nosso momento enfim se desenhava na nossa frente…

… E foi apoteótico! Não poderia imaginar cena mais bela e, ao mesmo tempo, pouco usual para tudo o que aconteceu. O céu já se fazia escuro, postes iluminavam do alto, com sua luz amarela, apoucas estrelas por trás das muitas nuvens, nenhum carro impedindo nossa passagem, os ecos do interior pareciam esperar por aquilo tudo, Fadico abriu os braços a cantarolar, Alex e Reinaldo a arrastar seus chinelos mais para trás, Tadeu e Paula, que já sabiam o destino, mais à frente, Pedro Veríssimo empunhou sua flauta e comandou o choro Naquele Tempo, de Pixinguinha (Choro maiúsculo dos mais conhecidos que, em texto antológico, o mestre Aldir Blanc já recomendara, àqueles que não o conheciam, enfiar a cabeça no vaso e puxar a descarga), comigo acompanhando na viola. Vou escrever de novo, entramos tocando Naquele Tempo, de Pixinguinha, Pixinguinha (!), em pleno domingo à noite na Cruzada. Apenas um aperitivo para tudo o que tocaríamos lá dentro. Foi lindo, magistral!

Tudo aquilo já teria valido à pena, ninguém se lembrava mais da marvada vodka de outrora, mas ainda havia um complemento especial a nos esperar. Entramos na cruzada e sentamos num buteco de fazer inveja a muito pé-sujo, a birosca da “tia” Sônia, mãe de Alex. A birosca nada mais era do que um balcão improvisado, montado sobre mesas e algumas geladeiras, freezers e um fogão atrás, para guardar as bebidas e preparar os comestíveis. Algo bem desordenado à primeira vista, mas vai perguntar pra alguém de lá se querem aquilo em ordem?! Na verdade, o troço é (ou era, o choque andou fazendo suas rondas por lá) improvisado, mas bastante organizadinho, próximo à entrada, porém no canto.

Conjecturamos sobre que alimento pedir e, finalmente, o até então o monossilábico Reinaldo abriu a boca e se manifestou.

- Batata frita! – Depois disso, Reinaldo desandou a falar, sobre tudo. Não sei se algo o impedia, promessa, timidez, recato, dor de garganta, mas vá entender?

Sua sugestão foi bem aceita, pedimos pela batata frita, que veio numa generosíssima porção, e continuamos a bebericar.

Logo que nos ajeitamos na mesa, um dos moradores da área, afirmando ser MC, pediu para mostrar uma de suas músicas. Deixamos, por quê não? O cara, conhecido pela área, inclusive pelo pessoal que estava na mesa conosco (apenas eu e Pedro Veríssimo estavámos sendo a ele apresentados) cantou, fez dancinha, sentou-se à mesa e pouco depois foi embora.

- Ele sempre canta essa. – Tadeu me falou.

Foi ficando tarde e as crianças começaram a ser chamadas para suas casas. Precisamos dar uma passada no banheiro e descobrimos que o bar não possuía um banheiro propriamente dito.

-  Cada um faz na sua casa.  – Disse Alex.

O mesmo Alex nos encaminhou até sua casa, a mais próxima, no andar de cima, mas tivemos que esperar , pois sua irmã mais nova estava a terminar seu banho. Foi duro aguentar tamanha a vontade, mas, felizmente nenhuma bexiga saiu avariada da situação. Pudemos perceber o esforço que os moradores de lá fazem pela conservação de seu patrimônio (mesmo sendo um prédio pertencente a uma favela, o custo de vida no leblon não é barato, muito pelo contrário). Tivemos de fazer a viagem para o banheiro ainda algumas vezes, cada vez mais em silêncio pois muitos dos moradores já dormiam. Saímos de lá por volta das duas horas da madrugada (Tadeu um pouco antes para levar Paula em casa), quando o bar fechou, após muitas saideiras musicais e cervejísticas.

Certamente houve um abatimento na conta, pois pagamos oito reais cada (por mais barata que seja a cerveja de lá, foram algumas e uma batata frita!) e ainda fomos acompanhados até o ponto de ônibus mais próximo. Ótimos anfitriões, ótimas pessoas. Resumo da ópera, um dia fora de casa por oito reais gastos! Na verdade, as questões financeiras ficaram deixadas totalmente de lado (porque não fui eu quem pagou pela vodka, né?). O estado em que nos encontrávamos – e aqui digo por todos nós, em ordem alfabética Alex, Fadico (vamos adotar o apelido, pois pelo nome seria o último), Pedro, Reinaldo, Tadeu (Paula chegou depois e não presenciou a tudo) e eu (começo com a letra V) – pode ser resumido por uma palavra: êxtase. E um viva ao Rio, que nos proporciona uma experiência dessas.

Até mais!


Ida à favela – parte 1 (rumo à feijoada)

13 setembro, 2011

 Não conheço muitas favelas por dentro. Isso, vindo de um carioca, me traz um sentimento de frustração e até um pouco de vergonha. Já fui, no entanto, a convite, à Rocinha (que desde o primeiro mandato do interminável Cesar Maia se tornou bairro, mais numa forma de cobrar impostos mais caros aos seus moradores do que efetivamente melhorar as condições do local, com o não muito mais do que maquiador “Favela Bairro”) por algumas vezes, à Mangueira (num local que realizava um interessante projeto educacional – com direito a alimentação, chuveiros e até dormitórios – com crianças e jovens, embora fosse pouco acima do pé do morro, basicamente na entrada da favela) poucas vezes, à Tavares Bastos (só pra conhecer aquele jazz na casa do gringo, que aliás só vale pelo som que, de fato, é de boa qualidade e pela vista, pois os preços são escandalosos), e à Cruzada de São Sebastião (que sempre tratei como um conjunto habitacional - foi criada por iniciativa de Dom Hélder Câmara, aliás, a aproximação da Igreja nesse sentido salvou sua pele se levarmos em conta o projeto de remoção/expulsão da população de baixa renda que se intencionava na área; cabe apenas lembrar que a Cruzada é praticamente vizinha da antiga favela da Praia do Pinto, incendiada sem dó nem piedade pela PM aos mandos do então governador Carlos Lacerda -, mas, que de tanto seus moradores se referirem ao lugar como favela, passarei a tratá-la enquanto tal, sem nenhum juízo de valor negativo no termo) por algumas. Estou, portanto, em débito altíssimo quanto a esses espaços da cidade (alguns pessoais, como os inúmeros convites que tive pra subir o Vidigal, o Formiga, o Morro Azul e o Dona Marta – do qual só conheço o mirante – , por exemplo). Ao contrário do pensamento oficial, que trata as favelas como foco de violência, tráfico e desordem (vide o caso das UPP’s, que a opinião pública – seja lá o que for isso – começa a se dar conta de que este projeto de segurança pública não se trata daquela maravilha toda que Cabralzinho e Beltrame preconizavam, longe disso até), sempre fui nelas para aproveitar sua riqueza social.

No dia do relato que pretendo lhes contar, por sua vez, a situação teve contornos especiais. Tudo começou após um convite de meu camarada de infância Tadeu, para que fôssemos fazer um furdunço musical na feijoada de um amigo dele. Na verdade, a feijoada era do amigo de um amigo, um cara fortemente ligado à Escola de Samba Mocidade Independente de Padre Miguel (se não me engano, fazia parte da diretoria) e que naquela data comemoraria seu aniversário, de modo que precisava de músicos. Sorte nossa que o troço era informal, pois não fazia uma brincadeira musical com Tadeu há anos, nunca tinha sequer visto os dois percussionistas e acabara de conhecer o cavaquinista da galera, dias antes. Entrosamento mesmo, apenas com o flautista, mais no copo do que musicalmente, apesar da bagunça mensal e alguns ensaios e apresentações em busca de parcos trocados, este chegaria mais tarde ao evento por questões de trabalho. 

Tudo combinado, passei na casa de Tadeu e rumamos para a Cruzada São Sebastião atrás dos outros músicos, Fadico, Alex e Reinaldo, que lá moravam. Fadico, o amigo do aniversariante anfitrião da festa, sempre com uma tirada engraçada e de gestos expansivos, é o único que sobrevive profissionalmente de música, com seu cavaquinho.  Os outros dois, nem instrumento tinham, pra vocês verem o nível do negócio. Confesso que ingenuamente acreditei quando Alex falou que iria apenas batucar com seu chinelo de dedo. Reinaldo, quieto que só ele, era o típico cara que ri de tudo, até do que à primeira vista não parece engraçado.

Chegamos na Cruzada e levamos um verdadeiro chá de cadeira. Quase meia hora depois do planejado, entre ligações e informações desencontradas, Fadico finalmente apareceu, resmungando:

- Parecem donzelas aqueles dois, até pra vestir regata e chinelo demoram pra sair. Cansei de ficar lá em cima. Só espero que não esqueçam do presentinho que vamos levar pro aniversariante e pra gente. – Para em seguida nos cumprimentar.

Perguntamos qual o presente, mas Fadico fez questão de não revelar, apenas dizendo: “todo mundo vai gostar, é especial”. 

A Cruzada trazia aquele climão de domingo na hora do almoço: crianças correndo entrando e saindo de frestas inimagináveis, futebolzinho rolando solto entre os prédios, mulheres sentadas na birosca improvisada que funcionava de dentro das grades da “pequena cidade” (porque aquilo é uma cidadezinha em pleno Leblon), do lado de fora homens e adolescentes em pé nas barraquinhas, tomando cerveja, admirando as motos de alguns, fazendo churrasquinho, ouvindo som (funk, pagode, samba antigo, conflitantes uns com os outros em sonoridade, mas em plena harmonia comunitária), jogando bola, fut-lata, dançando e fazendo gracinhas com as meninas que passavam, tudo em plena rua Humberto de Campos. Camisas do Flamengo que mais pareciam as redondezas do Maracanã em dia de jogo (e o Flamengo havia vencido na véspera, jogando mal, mas havia vencido). E é impressionante como todos na Cruzada parecem torcer pelo Flamengo, algo natural, tendo em vista a vizinhança com o clube.  

Esperamos uns bons 40 minutos, que aproveitamos pra jogar conversa fora, dar uma conferida na afinação dos instrumentos, perguntar sobre o presente, sem sucesso, e jogar conversa fora. Quando, enfim despontaram Alex e Reinaldo, Fadico, visivelmente irritado esbravejou:

- Demoraram esse tempo todo e esqueceram da garrafa?!! – Ao perceber a gafe, Alex deu meia volta e correu em direção a sua casa. Tadeu logo perguntou:

- Garrafa de quê? – Já imaginando que se tratava de birita.

- Tá, agora vou falar. É uma vodka importada que nós compramos há dois meses, a gente tava esperando uma ocasião especial para tomá-la. - Fadico, de bate-pronto. 

E tome de elogios à tal da vodka. Comparações com outras marcas conhecidas, frias análises sobre a diferença entre aquela e as demais, sempre ressaltando as qualidades do produto que traríamos para ser degustado na festa. Alex voltou e enfim partimos em direção à casa do aniversariante. Uma hora e meia depois do inicialmente planejado, como de praxe. Praticamente o assunto não foi outro senão a vodka. Seria melhor experimentá-la antes de encher a barriga, ou depois da feijoada, todos poderiam provar ou apenas o pessoal da “diretoria”. Toda uma estratégia foi traçada minuciosamente. A garrafa seguiu ao local guardada na mochila de Alex. Reinaldo, não parava de rir das besteiras e planos bolados por todos, sem dizer uma palavra. Cheguei a achar que o menino era mudo.

Chegamos na festa na exata hora em que a feijoada estava saindo da panela para uma grande mesa posta na sala. Uma confusão generalizada, gente saindo pela porta da cozinha, cortando caminho entre as mesas e cadeiras espalhadas, a varanda intransitável. Nesse momento avistamos o aniversariante (mesmo sem saber quem era, logo de cara deu pra identificá-lo, comandando toda a movimentação com um embrulho de presente debaixo do braço) e fomos lentamente em sua direção, na grande varanda daquela cobertura (ah sim, o apartamento era uma cobertura, cuja varanda parecia ser maior do que a sala). Apesar do auê danado que se criava na sanha pela feijoada (afinal, já havia um pessoal esperando pelo rango há algumas horas), fomos calorosamente recebidos, de modo que nem parecia ser a maioria desconhecida do moço. Fadico cochichou algo no pé do ouvido de Alex, que se virou e abriu a mochila. Fadico pegou a garrafa da Vodka e tentou presentear o aniversariante:

-Parabéns cara, ess…

- Ô, muito obrigado meu irmãozinho!!! Dá licença. - Interrompeu o aniversariante, que pegou a garrafa e, sem dar o menor tempo para a reação, se dirigiu ao interior da casa.

Os quatro olhares dos recém-chegados se viraram em direção de Fadico, como que perguntando: “e agora?!!”. A garrafa tinha ido embora, lacrada, é verdade, mas sabe-se lá pra onde. 

- Ah, vamos encher o bucho nessa feijoada e depois a gente resolve! – Fez Fadico.

Todos nós rumamos novamente para dentro da casa, pegando os pratos e verificando se, porventura, não achávamos a garrafa presenteada em alguma bancada ou mesa.

- Está ali! Viu Alex, apontando para o alto de uma estante.

- Então é isso, primeiro a gente come, depois a gente desenrola. Sentenciou Tadeu. 

Na boa gíria da galera, batemos um pratão cada um, alguns com direito a repeteco. Nesse ínterim, o flautista, meu mano Pedro Veríssimo, chegou na esquina da rua, no que desci para buscá-lo. Todos comeram bem, sendo servidos por generosas jarras de cerveja, nervosas, afobadas, a não deixar o esvaziar dos copos. Fizemos um breve descanso para a comida se acomodar e começamos a tocar. É bem verdade que, apesar da farta alimentação e do fluxo incessante de louras geladas, o troço não começou muito bem por conta das preocupações com aquela que adormecia na prateleira. Era só terminar uma música que lá vinha alguém: “e aí, vamos falar com o camarada pra ele abrir a vodka em comemoração ao seu aniversário?”, “será que ele vai fazer desfeita e não vai experimentar o presente com a gente?”, “tô sentindo falta de uma água com a brisa gelada da Sibéria!”.

É verdade que a barulheira era tanta que cada instrumentista mal ouvia o som dos seus colegas, de modo que , se já não o fosse pra quem estava na festa, o samba acabou sendo deixado meio que de lado inclusive pelo pessoal da banda. Tocamos por pouco mais de meia hora e direcionamos nossos pensamentos para o que realmente interessava àquela altura do campeonato: a birita. Tendo a mesa repleta de pratos vazios e copos cheios, não era possível trocar mais do que poucas palavras com o aniversariante, que volta e meia passava por nossa mesa e, dando tapinhas em nossas costas, perguntava se tudo estava bem, ao que respondíamos que sim, alguns sem disfarçar o sorriso amarelo pela falta da “branquinha do mar Báltico”.

Papo vai, papo vem, alguns começaram a se esquecer da vodka, até o momento em que visivelmente a festa parecia estar se aproximando de seu fim. Com menos pessoas para filar o presente alheio, foi tentada uma aproximação direta. Fadico se aproximou do aniversariante, àquela altura menos assediado (foi um negócio de louco a festa toda) e fez, enfim, a pergunta direta:

- E aí, vamos brindar com aquela vodkazinha?

- Ih é rapaz, vamos, vamos! - Fez que sim o aniversariante, que novamente adentrou a casa. 

Enquanto esperávamos, tratamos de ensaiar uma batucada, que finalmente pôde ser ouvida pelos convidados restantes, de modo que passamos a atender a pedidos, na medida do possível (e vou lhes dizer, àquela hora, tudo já era possível). Acabamos nos distraindo e nem notamos o tempo passar. O aniversariante, por sua vez, estava entretido com as despedidas. Quando retornou à varanda, alguns minutos depois, veio em nossa direção com a mão espalmada sobre a testa. Era o prenúncio do que mais temíamos:

- Ih rapaziada, vocês não vão acreditar! Tinha guardado aquela garrafa pra gente tomar, mas alguém usou quase toda pra fazer caipirosca (ou caipivodka) de morango… – Lamentou, apontando para uma mesa escondida de nosso campo de visão, onde anteriormente estavam sua mãe e algumas comadres, que deviam ter feito bom proveito da dita cuja (no momento, restavam um rapaz e sua mulher). Esticamos o pescoço e fizemos o gesto de brinde com nossos copos ao casal, que retribuiu.

- Ih, então deixa esse restinho de presente pra você. – Fadico sentenciou brincando, sem ressentimentos.

Alex e Reinaldo foram os que mais sentiram o golpe, a cara deles denunciava tudo. Ficamos mais alguns minutos na festa, cumprimentamos e recebemos elogios do anfitrião para, em seguida nos despedirmos. Ainda no elevador, Alex, desolado, levantou as mãos, olhou para cima e lamentou:

- Logo a mãe! Logo a mãe do cara! Grande ocasião para trazer a vodka!

Todos rimos, afinal não havia mais nada a fazer.

Até mais!


Bater em bêbado

13 agosto, 2011

Um dos locais mais propícios para a concentração de chatos, sem dúvidas, é o bar. Também pudera, o botequim é o lugar onde as pessoas vão pra beber ou pra conversar. Na medida em que o álcool entra e as palavras saem, é possível diagnosticar se quem está na mesma mesa, na mesa ao lado, em pé no balcão, ou encostado na porta do estabelecimento, é um potencial chato, ou um completo chato de galochas. Aliás, melhor do que eu, acho que essa música da voz do botequim, Jota Canalha, explica direitinho que boteco é lugar pra juntar chato.

São, portanto, vários os tipos de chato possíveis de se encontrar durante a estadia de poucas horas num bar. Outro dia, quem veio torrar a paciência do pessoal que confraternizava num boteco na rua Gago Coutinho, em laranjeiras, foi um senhor de idade, morador da casa ao lado (aliás, o lugar deve ser um cortiço, casa de cômodos ou algo parecido, tamanho é o número de famílias que lá habitam), mais mamado do que bebê quando começa a nascer a dentição. O cara já chegou aprontando das suas, sorrateiro, mancando, balançando de um lado para outro, não perdeu a oportunidade e passou a mão boba na bunda da menina que trajava um vestido curtíssimo e volta e meia vinha pedir um fósforo ou isqueiro para os fumantes do grupo em que me encontrava. A menina, por sinal, habituée do estabelecimento, dava lá suas olhadelas “cheias de má intenção” para um ou outro rapazote do grupo e do bar inteiro, especialmente os fumantes, talvez pela identificação imediata, mas na certa, por alguma situação mal resolvida com seu par, que não se encontrava no momento.

Voltando à cena inicial, foi só o ébrio senhor realizar o rápido ato que a moça não perdeu a oportunidade e veio reclamar:

- Que é isso! Você passou a mão na minha bunda! Por quê não passa a mão na bunda de um dos meninos aqui?! - se aproveitando para mais uma vez se aproximar de nosso grupo e, claro, fazer um rápido contato.

A rapariga estava, como dizem por aí, “toda se querendo”. Não demorou muito e se esqueceu, ou aparentou esquecer, do acontecimento. Parecia ser mais interessante filar o cigarro dos camaradas e demais presentes no bar, que abrigava um público razoavelmente grande.

Nós, no entanto, passamos a sofrer com o outro tipo de assédio do alcoolizado (muito mais habitual na porta de um bar e muito menos desagradável do que uma passada de mão na bunda por marmanjo, diga-se de passagem). O cara desandou a pedir para todos, um a um, por um copo de plástico cheio de cerveja e um cigarro. Diante das negativas, lá ia ele de novo recomeçando o ciclo de pedidos, todos negados (porque tem dia que ninguém está a fim de desperdiçar um gole que seja).  Começou a falar algo sobre ser feio e ter a cara amassada, entediando quem estava em volta. Até que foi para sua casa, não sem antes se desentender com a fechadura, que cismava em sair do lugar à revelia das vontades do velho.

Antes de mais nada, cabe fazer a ressalva de que essas atitudes, por mais insuportáveis que sejam, fazem parte do cotidiano. Quem está no bar está sujeito a essas intempéries, devendo saber lidar com jogo de cintura a esses momentos de torrar a paciência. O problema é que nem todos sabem segurar a onda, como veremos…

Algum tempo se passou e o senhor resolveu aparecer de novo, de banho tomado, cheiroso, de roupas trocadas, chinelo de dedo e álcool (ainda) na cabeça. Alguns assistiam o jogo do Vasco na tv, da entrada do bar e junto ao balcão, enquanto outros, do lado de fora, apenas conversavam. O senhor voltou a insistir:

- Me arruma cerveja num copo de plástico?

E ninguém dava bola. Papo ia, papo vinha, o garçom impecável a trocar as garrafas na “camisinha” térmica, bolinhos de bacalhau, kibes, esfihas (o consumidor tradicional dos torresmos não estava), e volta e meia o pedido do senhor era refeito.

- Me arruma uma cerveja? Bota num copo de plástico.

Eis que de repente, não mais que de repente, o tal do par da menina que levara a conferida manual, um armário de dois metros de altura, com sinais claros de calvície e óculos, que chegou no recinto sob a desatenta indiferença de todos, se aproxima do senhor, raivoso e trata logo de pegá-lo pelo braço, bufando.

- Tá maluco, o que você fez?! Esbravejou, torcendo o braço do senhor, para em seguida levá-lo ao chão atrás de um carro estacionado.

Todos se aproximaram, o que obrigou o grandalhão a arrastar o senhor até o outro lado da rua para se afastar, parando atrás de outro carro e deixando os chinelos do senhor pelo caminho. O velho, não bastasse a idade avançada, não conseguia demonstrar a menor reação. Felizmente, a turma do deixa disso era numerosa, mas de início o potencial corno não parecia escutar, afastando o braço do primeiro que tentou apartar a situação. O côro de “larga ele!”, “vai bater em bêbado?”, “deixa de ser covarde!”, “para com isso rapá!”, não bate no velho não!” foi se tornando encorpado, inclusive com os gritos de “larga ele, Rodrigo!” (era Rodrigo? Sinceramente, não faz a menor diferença), dados pela pivô da briga, àquela altura, devido à movimentação, mostrando mais do que o ciumento gostaria.

O clima de tensão durou aproximadamente um minuto, até que o estouradinho resolveu largar o coitado do senhor no chão, não sem antes resmungar palavras incompreensíveis com o dedo em riste, apontado para a fuça do indefeso. Muitos cercavam a cena, preparados para impedir e apartar a covardia consumada. Felizmente não houve soco, nem chute. O casal se afastou, ouvindo de todos lados apupos e frases nada amigáveis (àquela altura, a vizinhança toda já observava a cena de camarote). Comentários maldosos não faltaram; “o chifre vai crescer”, “o otário deve gostar de apanhar da mulher”, “que nada, deve ser é brocha!”. Todos tiveram aquela nítida impressão de que a atitude do valentão escondia alguma frustração maior. A mulher, certamente, voltará muitas vezes para o bar.

A coisa se acalmou, pessoas se dissipando, atravessei a rua e busquei o par de chinelos do senhor, lhe entregando em mãos. Notei seus joelhos e cotovelos ralados, além da camisa amassada e com um risco branco de sujeira. Falei palavras de consolo, indignado com a covardia do gigante e sugeri que lavasse suas feridas quando retornasse à sua casa. O senhor, imóvel, em choque, após alguns segundos, balbuciou:

- Apanhei, ele me bateu. Ele me bateu.

Sentou-se no meio fio de cabeça baixa, envergonhado, por alguns minutos, se levantou e foi pra casa, sendo ajudado na abertura da fechadura.

Até mais.


Discussão no bar

13 maio, 2011

É coisa que acontece. Se não são poucos os brasileiros que fazem do botequim o seu segundo – e às vezes, até, primeiro – lar, também não são poucos os que vez por outra se envolvem em discussões no respectivo ambiente. Alguns bares, geralmente aqueles mais identificados com seu bairro ou cercania, têm uma espécie de clientela própria, que dá vida ao lugar. Laços de solidariedade e comunitarismo muito fortes são criados no cotidiano de um botequim, o local hoje em dia é um verdadeiro foco de resistência ao individualismo que assustadoramente transforma a mentalidade de nossa população, sem distinção de classe, cor, ou credo. Nesse sentido, a dinâmica da vida dos botecos transforma seus frequentadores numa espécie de família, alguns mais próximos – e é impressionante a proximidade que se cria -, outros menos, alguns mais amigáveis, outros conflitantes, sem mencionar todo seu calendário próprio de festividades, seus rituais e todo o conjunto de práticas que dá sentido e ganha sentido na vivência cotidiana de um bar.

Voltando ao âmbito das discussões, no bar, como em qualquer lugar, sempre há aquele sujeito “do contra”, que não concorda com nada do que é debatido ou jogado ao vento no ambiente etílico. Até aí não há problema, se o cara for capaz de argumentar toda sua contrariedade, mesmo que não convença a ninguém, tem lá seus méritos. O problema é quando o sujeito não se contenta em discordar e ainda parte para a provocação, ou pior, quando além disso, não aceita ser provocado, ou ainda, somado a tudo, ainda arruma confusão, procura confusão e inventa confusão em assunto não merecedor ou que não lhe diz respeito.

Não estou condenando pessoas assim, o bar, assim como a maioria dos ambientes sociais, deve propiciar a discussão, de modo que é natural que algumas se tornem fervorosas – antes uma grande dissenção do que um bando de quietos que concordam com tudo a todo tempo. No entanto, em se tratando de ambientes amigáveis como um botequim, o exaltar de ânimos pode provocar desconforto posterior entre os frequentadores.

E foi assim que se sucedeu. Se fiquei um pouco titubeante a escrever sobre isso (pois dois de meus “três” leitores sacaram no título do que se tratava), foi para não jogar mais gasolina em fogo recém-apagado. A verdade é que todo bar tem seu sujeito estourado. Não a todo momento, pois em noventa por cento das vezes ou mais o ambiente familiar e amigável não se desmancha no transcorrer dos fins de tarde e noites. O estopim, embora também possa ocorrer quando o objeto da discussão é política, mulher, música, o tempero da feijoada, o ovo azul do balcão, a última cerveja na geladeira, ou a fumaça de cigarro alheia, geralmente é o futebol, especialmente quando o jogo diz respeito a apenas um dos times dos frequentadores presentes no momento. É um festival de “não venha falar mal do meu time quando o seu não está jogando!”, “você só tá aqui pra secar, né?!”, “vocês só ganham roubado!”, “viu?! Pênalty assim pra gente esse safado não dá!”, “vai errar, vai errar!”, “essa pelada é o que vocês chamam de futebol?!”, “que timinho, hein?!”, sempre aos berros, que não tem mais fim. 

Vamos aos fatos, que já começo a ficar inquieto. Todo bar tem lá seu Wanderley, chamemos assim. Uma figura a maior parte do tempo boa praça, cheia de seus trocadilhos maliciosos, frequentador assíduo e dos mais antigos do estabelecimento, pai e avô de família, a quem todos possuem respeito, consideração e amizade. Vale ressaltar que o Wanderley no caso em questão nada tem a ver com seu xará com a letra “V”, treinador de ego inflado e que há muito parece ter perdido qualquer noção de como se monta um time de futebol, visto que o cara já está aí há alguns meses e o que se vê em campo é apenas um bando desordenado que só ganha na base do talento e vontade de seus jogadores. 

Como frequentador de buteco não faz cerimônia pra escolher a hora de aportar no balcão, volta e meia ocorre de os torcedores do time cujo jogo está sendo transmitido serem minoria ou, como foi o caso, ocorre de um ou outro gato pingado torcedor do time que nem em campo estava ter aparecido para bebericar justamente na hora do jogo. Gozações e secações à parte, tudo transcorreu normalmente no desenrolar da peleja, todas as suaves doses de crueldade e tensão desceram sem arranhar as gargantas, nem a reputação de ninguém (apenas acelerando vez por outra os batimentos cardíacos).  A confusão se instaurou após o fim do jogo (e do campeonato), com o pessoal já naquele clima de alma lavada, quando involuntariamente e sem saber, um dos campeões da noite soltou, ao chegar de um costumaz freguês, o bordão do esquentadinho (sim, frequentadores assíduos vez por outra criam bordões como modo de definir seu espaço), que àquela altura bebia num canto.

O troço não teve explicação, todo o ressentimento sabe-se lá de quê acumulado explodiu de maneira incontrolável e não houve nada que fizesse o homem parar, esteve possuído por alguns minutos. O desconforto ficou nítido entre os presentes e deixou suas marcas. Mais tarde e nas noites subsequentes, muito foi discutido a respeito de tal atitude. Não havia sido a primeira e todos sabem que não será a última discussão do bar. Aliás, é piada recorrente do local adivinhar quem ainda não brigou com Wanderley, um claro exagero somente possível diante do bom humor característico dos frequentadores de buteco. Ninguém pode afirmar com certeza o que ocorrerá daqui pra frente, apenas que esses estremecimentos das relações fazem parte de ambientes que proporcionam a vida em grupo. Ainda estamos naquele momento preliminar em que alguns simplesmente evitam ficar no bar durante os jogos dos outros times, para não provocar nem desandar de vez as relações. Até o dono do bar foi obrigado a dar uma dura em seu freguês turrão (“tá vendo, agora você espantou minha freguesia!”). Muito se conversa e provavelmente a situação se amenizará, mas isso não ocorre de uma vez e talvez eu não tenha paciêcia para lhes contar o desfecho da história.

Até mais!


A menina dançante

5 abril, 2011

Era apenas uma caminhada a esmo, sem destino previamente traçado, daquelas pra desanuviar a mente. Nada como uma caminhada ao escurecer de uma tarde nublada pra clarear as idéias. Quando, ao atravessar a rua, tomando cuidado para não ser pego pelo caminhão – que furava o sinal descaradamente – e ouvindo o grito de um pai para seu filho - “você viu? ele furou o sinal!” -, surge na visão uma jovem, em não mais que seus vinte e poucos, a continuar seu percurso de início incógnito.

Tendo reparado na beleza da jovem, que ninguém é de ferro, mas sem despender maiores atenções que merecessem um relato primário, terminei de atravessar a rua com segurança. Íamos pelo mesmo caminho, ela ligeiramente à frente e com passadas ligeiramente mais rápidas, apesar de minha perna ligeiramente mais longa. Fazia meu percurso sem pressa, afinal, estava a matutar.

Demorei a tornar o olhar para a menina, que seguia aproximadamente uns dez metros adiante. Talvez não tornaria a repará-la não fosse a reação que provocava nas pessoas vindas no sentido oposto, geralmente de estranheza e de risos. A menina caminhava dançando e isso era um motivo mais do que suficiente para virar os olhares de todos em sua direção. Tudo aquilo que não é convencional costuma chamar a atenção das pessoas, se esquecem que o estranhamento é uma das primeiras possibilidades de reação antes do reconhecimento de diferenças e, inclusive, semelhanças (nossa, aflorou o antropólogo adormecido agora!).

Foi assim por muitos e muitos quarteirões. De início, os poucos transeuntes que andavam na calçada próxima a tapumes de alguma obra embargada foram os primeiros a notar os passos dançantes da garota. A marcha-baile continuava, deixando para trás lojas de serviços diversos, quase todas fechadas no domingo, e os gestos corporais da garota se intensificavam. Tentei não reparar, em vão. Era inevitável, o remexer dos braços, o andar desalinhado, porém preciso e ritmado, hipnotizava e trazia as atenções para sua silhueta. Àquela altura já caminhávamos juntos, ela à frente, eu fazendo as vezes de guarda-costas para assegurá-la em qualquer eventualidade, afinal, já estávamos adentrando na parte movimentada do bairro e as reações do público se faziam inimagináveis.

A moça parecia não estar nem aí para os olhares que, um a um, tornavam em sua direção. Um misto de desinteresse com desatenção às reações dos demais tomava conta de seu corpo, apenas focalizado em si e para si mesmo, em seus movimentos que, apesar de irregulares, traziam uma perfeição que se completava em sua inconstância e imprevisibilidade. Todos, sem exceção, paravam para vê-la passar com seu balançar, ora mais acentuado, ora minimalista, como se fosse um verdadeiro balé sem destino final traçado ou som a guiar. Eu, que não fugi à regra, àquela altura já havia me perdido completamente. Não sabia mais pra onde ia, nem muito menos sobre o que estava a matutar antes da estonteante visão.

A menina instigava a todos, mas apenas eu seguia o mesmo rumo. Ao menos essa era a única crença que me restava e que permitia a retomda do contato com a realidade. Somente pouco depois de passar pelo local em que deveria mudar o rumo de minha caminhada é que me dei conta de para onde estava indo. Alterei meu percurso, retornando ao sentido original, deixando a menina dançante escapar de meu campo de visão e seguir seu caminho rumo ao desconhecido.

Olhei no relógio. Não mais que cinco minutos marcaram aquela aparente alucinação coletiva. Voltando à realidade, percebi que não estava sozinho naquele sentimento indefinido. Não mais que cinco minutos haviam se passado da contagem oficial do tempo! No entanto, não foi difícil perceber a imprecisão dos relógios, meros produtos da mortalidade, na marcação do tempo realmente transcorrido. Todos puderam notar que o próprio tempo dera uma trégua em sua rigidez, refreando seu ímpeto de avançar a qualquer custo para admirar aquela cena inusitada. A noite iniciou sem o tempo passar. Alguns também perceberam não sentir calor nem frio naquela ocasião.

Até mais!


A “Festa da Democracia”

27 setembro, 2010

Começo apenas esclarecendo o quanto odeio esta expressão. Aqueles que falam em festa da democracia, por muitos anos foram aqueles que legitimaram, bajularam e apoiaram, implícita ou explicitamente, governos que nada tiveram de populares e que se mantiveram no poder por décadas e mais décadas aumentando a concentração de renda, suas contas bancárias e o modelo baseado no mercado financeiro, onde nada ou pouco se produzia e o crescimento se dava de forma basicamente especulativa, portanto, suscetível à mais inexpressiva crise mundial. Como parte desse esforço, para encobrir as tramóias e ludibriar o povo, criaram essa expressão em nada condizente com a realidade de outrora. A “Festa da democracia” tinha vez enquanto uma maioria silenciosa, por estar encoberta, ludibriada ou pouco entender do assunto, elegia figuras como os Fenandos que os fariam pagar caro, “com o corpo e com a alma” (já dizia, na minha adolescência, o saudoso Planet Hemp).

Movimentos de rua, tais como comícios, passeatas e demais manifestações aos poucos foram desacreditados ou ridicularizados pela grande mídia, num processo longo. Já haviam sido quase extirpadas durante a ditadura militar, mas com o sopro de renovação propiciado pela abertura e redemocratização, essa foi a saída dos conservadores e reacionários. A manifestação da “Diretas Já” foi transmitida como celebração do aniversário da capital paulista; comícios com centenas de milhares de pessoas nas ruas eram reduzidos a menos de 50 mil pelas autoridades; o direito de greve passou a ser tratado como coisa de “preguiçosos”,  ‘chatos” e “baderneiros” que não querem trabalhar”; criminalizou-se os movimentos sociais; e oito anos (!) de salário congelado ou quase isso passou a ser considerado algo normal, fruto de uma política de “cortar gastos”. O social sempre foi um gasto na visão destes. 

Escrevendo essas linhas (e, se demorei, foi por uma infinidade de coisas pra fazer e filas intermináveis que tive de enfrentar, ficando esse texto flanando apenas na minha cabeça por mais de uma semana), não poderia me furtar de recordar minha primeira experiência pessoal na política. Não, não sou candidato, e nem pretendo um dia vir a ser (mas vai que… brincadeira, “quero não”). Tinha eu quatro anos de idade, quando meu pai resolveu me carregar pra um comício da campanha de Lula, ainda nos idos de 1989. Não lembro da reação de minha mãe, mas é certo que ela deve ter pensado que aquilo era uma loucura. Todavia, recordo-me perfeitamente daquela experiência. Uma multidão tomava a candelária, jamais presenciara tanta gente naquele lugar (e jamais presenciei novamente tanta gente naquele lugar), a minha primeira vez no meio de um mar de gente. Obviamente não tenho condições de descrever o que foi dito naquele comício, pois o estado de consciência de uma criança não permite maiores abstrações de pensamento, mas lembro-me do carro de som (mais de um, para difundir melhor o som do palco onde ficavam os políticos), àquela altura, já no segundo turno, todos da aliança de esquerda uniam-se com a esperança de vitória. Meus pais haviam votado em Lula desde o primeiro turno e a esperança era de que a arrancada que se desenhava refletisse nas urnas. A história, todos já conhecem. Aquele mauriçola bem apessoado e de passado duvidoso em Alagoas levou a vitória no pleito, com uma ajudinha da ilha de edição global. Além das lembranças daquele dia, ficaram na memória o sensacional jingle do “Lula-lá” e dois bonés, um branco e um vermelho, esse último com o escrito de “Lula Brasil” em forma de assinatura, de modo que o traço da letra ”B” de “Brasil”, estilizada, se fazia esticado para a esquerda, de forma contínua, por cima do segundo “l” de “Lula”, dando a entender que estava escrito “Luta Brasil”. Ainda hoje temos os dois por aqui guardados. 

Anos depois, na ocasião de minha primeira vez como eleitor, inesquecível como toda primeira vez, já era possível perceber a diminuição do impacto dos grandes comícios, transformados em “showmícios” desde meados dos anos 1990. Era o ano de 2002 e o povo já não aguentava mais a sucessão de políticas anti-populares e neoliberais que tomaram conta do país e refletem ainda hoje em praticamente todas as questões de suma importância para o país. Vivendo o auge das liberdades que um adolescente passa a desfrutar e aproveitando uma rápida vivência com o grêmio estudantil, empenhei-me numa tática de guerrilha pela eleição de Lula. Nunca colei tantos adesivos em tantos postes e janelas de ônibus, quanto vou chegar a colar em qualquer outro lugar até o fim de minha vida como naquele período eleitoral. Os dias de votação foram os mais emocionantes. A militância de esquerda estava toda nas ruas (e olha que nunca fui filiado a partido algum), emanando confiança, mesmo apesar do brochante segundo turno, pois todos acreditávamos em levar a eleição de uma vez. Era possível ver várias pessoas, na cara dura e na coragem (pois a polícia poderia acabar com a mobilização política, “em nome da democracia”), fazendo boca de urna sem estar recebendo nenhum centavo em troca, empunhando suas bandeiras e cheios de adesivos nas camisas. Eu mesmo, com a camisa vermelha toda adesivada (fiquei com a camisa toda esfarrapada depois, razão pela qual não uso mais esses adesivos nas mesmas), ao lado de muitos outros, amigos, conhecidos, ou não, distribuí santinhos por “amor à causa”. Houve até uma situação bastante engraçada. Estava com meu amigo distribuindo santinhos de um candidato quem nem era o meu, mas era de confiança, quando passou outro militante, com a bandeira de outro candidato. Me virei pra ele e disse: “votei nesse cara aí”, no que ele logo me respondeu: “é sério mesmo?! Eu votei no cara que você está fazendo campanha”. Os dois eram do mesmo partido, vale ressaltar, mas o interessante foi a solidariedade de esquerda. Nessas eleições, quase um mês antes do primeiro dia de votação, fui com meu pai ao comitê do PT na Glória pegar adesivos de Lula. Saímos com um carregamento tão grande, que, mesmo distribuindo para meus amigos e colegas da escola, sobrou às pampas (e eu já falei acima onde foram parar pela cidade).  Meu primeiro voto pra presidente foi o mesmo de meus pais (pois teve uma tal de Ditadura, dando um passo à frente à beira do abismo e fazendo com que ninguém segurasse esse país por vinte e um anos de chumbo, pra atrapalhar o curso da nação), quem diria?!          

O que veio em seguida todo mundo já sabe: o risco iminente de derrota levou à apelação e a ex-namoradinha do Brasil declarou estar com medo. Em vão, porque a situação chegou a tal ponto que esses caras perderam, e tiveram que aguentar, não sem deixar de fazer campanhas difamatórias. Enquanto as tevês se seguravam e mostravam (ainda mostram) sua cara de forma velada, posto que são concessões e um dia estas podem ser simplesmente não renovadas (uma pitada de exagero, mas foi só pra lembrar que devem os tubos à União), veículos autônomos, como é o caso dos jornais, não abriram mão de sua prerrogativa raivosa face aos seus contrários. Mas não teve jeito. O povo amadureceu, não era tão bobo quanto imaginavam e já respondeu nas urnas anos atrás. Estamos nos encaminhando mais uma vez para o momento decisivo das eleições. Ao que tudo indica não será preciso segundo turno e a vitória será avassaladora. A direita psdbista não sabe mais pra onde apelar e o troço, de tão forçado, chega a ser engraçado.

No entanto, ainda há muito, mas muito mesmo a ser feito, o que não deixa de lado o fato de a melhora ser evidente. O que talvez mais faça falta é o povo nas ruas em dia de eleições. Já não fez festa nos últimos pleitos e não acredito que haverá algo como aquela comemoração na praia do Leme em 2002 (magnífica, diga-se de passagem, com direito a candidatos bêbados e muito choro com o primeiro discurso do presidente eleito com recorde mundial de votos). Por isso acho que a expressão “Festa da Democracia” é uma balela televisiva e pretexto pra vender manchetes dizendo o quão bem a imprensa faz ao país. A liberdade de imprensa deveria começar por dentro dela mesma. As pessoas, por sua vez, passaram a comemorar, quando muito, em casa. Contrariamente, é certo que não deixarei de abrir minha cerveja na rua, mas no momento imediato pós-probabilíssima vitória é de muita atenção e pressão para que se tome cuidado com as alianças, especialmente com o PMDB, partido com várias tendências e cheio de gente “estranha”. Ainda mais tendo em vista, por exemplo, a pauta de reformas políticas e mais mudanças na previdencia que querem nos impingir, entre outras. Não é fácil, mas deve-se buscar também uma mudança nesse sistema em que os bancos continuam tendo lucros em níveis além dos aceitáveis e o capital especulativo continua a demonstrar força. A pressão pela questão de terra também se faz necessária, principalmente se levarmos em conta que a questão da reforma agrária talvez tenha sido o calcanhar de aquiles desse governo. É a hora de defenestrar de vez alguns latifundiários, membros da UDR e escravizadores que ainda existem, apesar do intenso combate. Podemos estar ainda longe do Brasil que queremos, mas temos de lutar para que não seja o Brasil que eles querem.

Falei isso pra relembrar que um desses denunciados por trabalho escravo concorre ao senado aqui no Rio. E ainda tem a pachorra de dizer que é aliado do Lula, sem que o presidente nunca tenha dito uma vírgula em seu apoio. Aliás, há algo pior do que os candidatos das bancadas do PMDB, PSDB, DEM (quer dizer, PFL, quer dizer, PDS, quer dizer, Arena. Taí um passado “democrata”), PP (filho da mesma mãe do anterior) e PTB (que graças às forças divinas deixou de ser aliado do governo e parece que vem com tudo pra morrer de vez no RJ), aqui no Rio? Parece que a cada quatro anos há um sorteio e eles se embaralham por esses partidos. E olha que nem falei nos partidecos de aluguel, também nada confiáveis. A máfia que toma conta da Alerj e põe em risco a vida de um dos deputados de oposição mais atuantes é vergonhosa. De 70, apenas 7 se opõem à política do Cabralzinho, quando muito (dependendo do tema e do filme que pode queimar) chegam a 11. E o tal falso aliado do Lula, que agora deu pra aparecer de papagaio de pirata da Dilma, é ninguém menos do que o presidente da Assembléia. Outra máfia é a dos vereadores cariocas, que acabaram de reduzir a quase zero (0.01%) o imposto a ser pago pelas empresas de ônibus, sempre tão prestativas, tsc. É preciso tomar cuidado pois são quase todos candidatos (ao menos os que foram presos estão impedidos). Essa baixa política um dia, se tudo der certo, ainda vai acabar.

Outro possível retrato da mudança no país está no fato de a maioria dos candidatos ser de esquerda, algo impensável há pouco tempo. Reflete um pouco a incapacidade destes de fazerem alianças, é verdade, mas não há dúvidas de que a “onda vermelha” ganhou adeptos, ainda que alguns desacreditados (e como eu quero que alguns destes consigam ao menos uma representação!). Na maré contrária, esta semana teremos os últimos debates eleitorais na tv (infelizmente, com menos da metade dos concorrentes, excluindo a voz dos chamados nanicos, razão pela qual sou a favor da diminuição dos tempos de campanha gratuita, a fim de tornar os tempos minimamente parelhos). Será o último suspiro da imprensa, mas ao mesmo tempo não podemos achar que a culpa toda é da mídia. Até porque, a perda de sua influência é percebida a olhos vistos, razão de desespero para seus editores que se desdobram e nenhum efeito obtêm. As chamadas mídias alternativas roubaram muito de seu espaço (e aqui não me incluo de forma alguma, pois com 20 acessos diários não posso me incluir nessa levada) e é importantíssimo esse último esforço de campanha contra a corja!

Espero ter sido claro (provavelmente não o fui). Se não inventarem nenhum fato novo escuso, domingo, após iniciada a apuração, tentarei passar em frente ao comitê “MacDonald’s” dos caras no leblon e gritar pela janela do ônibus alguns termos injuriados - afinal, nas últimas eleições arrancaram um dedo a mordidas de uma militante por lá e não quero perder meu dedo, além do fato de que já combinei de ver a apuração em outro bairro. A torcida é pra que acabe logo. Mesmo se não der, não será tão difícil assim. 

Até mais!

p.s. E não é que a Dilma resolveu apoiar o crápula do Picciani? Por questões partidárias alguns têm de se submeter a absurdos como esses de apoio a donos de fazenda com escravos e afins (se bem que teria sido melhor botar um adesivinho do cara no fundo – e no canto – da tela ao invés de escancarar que essa é a aliança, pois não há garantias que gente dessa laia se mantenha aliada por muito tempo, vide PP e PTB). Como não sou comprometido com interesses de nenhum partido em específico, continuo fazendo, especialmente, campanha contra ele e o Sr. Maia.


Folgado

7 maio, 2010

Folgado foi a minha cachorra Baleia. Cabra macho, caçava sem necessidade de peixeira, um tipo puro nordestino. Só que não era nordestino. Peraí que o texto está ruim demais, deixa eu começar de novo…  

Folgado foi pra mim o equivalente ao que a cachorra Baleia fora pra Fabiano no “Vidas Secas”, de Graciliano Ramos (se você não leu esse livro, tome vergonha na cara e conclua a escola, já que esse é praticamente leitura obrigatória  no agora chamado ensino fundamental II, ou procure num sebo/livraria e não conte pra ninguém que ainda não havia lido a obra em questão, pois é vergonhoso. A não ser que você seja um leitor mirim/juvenil, fato que ainda não tive notícias por essas bandas, ou tenha abandonado os estudos por questões financeiras, ficando assim perdoado). Talvez minha relação com Folgado seja mais próxima à de um dos meninos com o cão e não à de seu pai com o mesmo. Deve-se descontar também que as circunstâncias de sua existência não eram de miséria, felizmente.

Folgado já era cachorro “formado” quando passei a ter consciência do mundo, um vira-latas dos bons, matuto daqueles sem medo de se embrenhar no mato. Convivia com Folgado desde a infância apenas duas vezes por ano: nas férias de fim/início de ano e nas de meio de ano, até meus dezessete de idade. Ninguém o viu morrer, assim como ninguém nunca teve notícias de seu nascimento, simplesmente um dia não apareceu mais, da mesma forma que surgiu repentinamente pelas bandas da casa de meu avô e por lá ficou, sem, no entanto, em nenhum momento pedir abrigo. Era um vira-latas do mato – por mais contraditório que possa parecer, pois, ao contrário das ruas, ele, obviamente, não tinha latas para virar no mato -, daqueles que caçava sua própria comida, nada que o impedisse, de vez em quando, aceitar a comida caseira por nós oferecida, além dos ossos que vez por outra lhe eram ofertados e Folgado roía de bom grado (se não me engano, a coitada da Baleia, por sua vez, só arrumava de seus donos ossos mesmo). 

Mas isso era fato raro, gostava mesmo era de sua independência. Vários garotos tentaram domesticá-lo, em vão. Falei no início sobre ele se assemelhar a um nordestino, pois de fato, sem preconceito algum, possuía o formato de sua cabeça achatado, tal qual o tipo ideal (essa foi bem weberiana) da miscigenação dos lá habitantes com os holandeses, na época de sua “invasão” (entre aspas, pois havia uma turminha que bem que gostava da colonização pelo povo dos Países Baixos, sem juízos de valor). Falo da cabeça mesmo, o focinho em si não era achatado, só a parte superior de seu crânio. Talvez seus pais fossem retirantes e tenham vindo num pau de arara com seus donos pro sudeste, vai saber. 

O fato é que estou equivocadamente chamando Folgado de cachorro, pois o rapaz era mais inteligente que muito homem e tinha uma sensibilidade descomunal. Lá em casa, se havia briga ou discussão entre irmãos ou primos, ou se havia alguém cabisbaixo, Folgado era o primeiro a chegar pra consolar. Aproveitava e pedia um carinho, nos seus lisos pelos castanhos cor de mel, estendendo sua pata para nós (tá, todo cão faz isso, mas não invariavelmente quando alguém aparentava estar triste, além de, repito, ser muito inteligente. Claro que ele pedia por chamegos em outras ocasiões também). Nunca se casou, mas fazia questão de prover a “pensão” para seus filhotes, que não foram poucos, pois, mesmo vivendo longe dos grandes centros, afastado de lugares movimentados, Folgado sabia aproveitar os prazeres da vida.

Era um cão protetor e companheiro, portanto, mas não apenas com seus filhotes. Certa noite, quando já idoso (essa eu presenciei), se meteu numa enrascada ao tentar ajudar um amigo que se engalfinhava e levava uma surra de um tamanduá . Foi uma porradaria generalizada, latidos, ganidos e até berros do tamanduá (desculpem, mas não sei o nome do som emitido pelo animal), que, coitado, só se defendia. Na verdade, acho que os cachorros também. O encontro entre os dois parece que foi sem querer, pois estava escuro. Na primeira oportunidade que teve, o tamanduá se mandou pra cima de uma árvore. Os cachorros vieram pra perto da casa cheios de arranhões, sob o olhar de todos, atônitos. Folgado tivera uma orelha rasgada, mas ao menos salvara seu amigo do sufoco – daqueles amigos que, ao ver seus chapas em apuros, já chegaria com uma voadora no meio do peito do oponente, como bem manda a lealdade de uma amizade fraternal.

Tinha uma habilidade fora do comum para caçar cobras, quase um  pré-requisito para se adentrar nas matas daquela região, ”infestadas” de jararacas. E nesse quesito foi um grande professor para a matilha das redondezas. Não foram poucas as vezes em que aparecia um cão com uma cobra morta na boca. Mas, nessa brincadeira, volta e meia algum canino se dava mal e acabava levando uma picada (lembro-me de uma vez em que tivemos de correr ao veterinário, pois um cão amanhecera ferido com um bola no pescoço. Felizmente se salvou), conforme já falei, sua habilidade na caça às cobras era pra poucos.

  Conforme já adiantei, não sei como morreu, mas me recordo dele já bem velhinho, desdentado, saindo pra passear pelo mato e, se possível, descolar uma bóia. De Folgado só tinha o nome mesmo. Um baita amigo.

Até mais.


Chinelos são comunitários

13 março, 2010

O temporal do fim de semana passado coroou magistralmente as águas de março, que vieram pra refrescar o finalzinho do verão e deixar a cidade inviável, mas não foi suficiente para sanar a quase fissura de alguns por uma  loura gelada. Dentre os poucos perseverantes - após longa espera por ônibus e táxis, que se recolheram para suas respectivas garagens com medo do retorno da tromba d’água -, alguns poucos se encaminharam para um outrora buteco, na correta acepção da palavra (leia-se, mais acessível), e que agora se faz de mais arrumadinho e careiro para além dessa saudável atividade, praticar a também salubérrima Sinuca (da qual provei novamente minha inaptidão mesmo após anos de prática, mas sou perseverante e continuarei estragando o jogo das minhas duplas por algum tempo. Aprenderei na marra!). Não foram tão poucos assim, mas foi a quantidade de pessoas suficiente para a cerveja vir sempre gelada, o que é algo ótimo e bastante satisfatório para a ocasião.

Acontece que as ruas ficaram num lamaçal danado, sujando os tênis, sandálias e sapatos dos poucos aventureiros notívagos. Dada a necessidade de lavar os mesmos, mesmo após a exagerada limpeza feita nos tapetes, que renderam uma senhora bronca a um alguém que não vem ao caso no momento, os agradáveis e ventilados chinelos tornaram-se de uso obrigatório por mais tempo do que o usual.

Serei franco. Nunca fui muito de usar chinelos. Tive uns quando moleque, que rasgavam com facilidade e rapidez (criança é fogo), razão pela qual sempre preferí os tênis e chuteiras que “topam qualquer parada” e não desmancham por bobagens (ao contrário daqueles todos emperiquitados, fluorescentes, adesivados, e vêm com luzinhas, refrigeração, vale-salgadinho e saída livre da prisão, que existem por aí), ou mesmo ficar descalço. Porém, sempre usei os chinelos para aquelas atividades corriqueiras - talvez não tanto quanto ir a um balcão de bar, mas ainda assim corriqueiras - como ir até a padaria, ao banco, ao mercado e atividades afins. (Curiosamente, pouco vou aos botequins de chinelos, visto que prefiro os, digamos, mais longínquos, onde é necessário calçar um tênis para percorrer os trajetos não tão curtos).

O último par que comprei e vem sendo satisfatório já deve ter uns quatro ou cinco anos, mas isso não faz tanta diferença por não estarem mais comigo. A frase pareceu estranha, mas explico a seguir. Sou da teoria de que um par de chinelos não pertence a ninguém e pertence a todos ao mesmo tempo, desde que sejam do mesmo tamanho. Continua estranho, mas esperem só mais um pouquinho. Este tal de último par que comprei, da marca “Havaianas” (não ia dizer, mas dane-se, não é merchandising mesmo), foi por muito tempo usado única e exclusivamente por mim, até que alguém (sei quem é, só pra constar), por engano, os levou e deixou os seus para mim. Tendo notado o engano, dias depois a troca foi desfeita. No entanto, na despedida, nova confusão ocorreu e lá se foi o pé esquerdo do meu chinelo, ficando com um pé original e um trocado. 

Tempo vai, tempo vem, chinelos são quase trocados e destrocados e, nessa semana, com as ruas já sem resquícios do barro pós-dilúvio, novamente me deparei com a mesma pessoa no mesmo local. Os chinelos, porém, eram diferentes. Pensei comigo mesmo: “agora já era”. Não sei porque cargas d’água (calma gente, ainda não choveu mais!) ou como aconteceu, mas chegando em casa olho para meus pés e percebo que agora o pé direito do chinelo não é mais o mesmo, trocamos novamente. Agora estou com um pé de cada do sujeito, e o tal, com meu par e um de cada dos comprados pelo próprio. E que assim seja.

Até mais!

P.s. Não venham me perguntar se esqueci de tomar meu remedinho.


A chuva e o “Rapaz de Bem”

5 março, 2010

O tempo chuvoso e de céu carregado sempre traz à tona sentimentos melancólicos. Talvez seja por isso que não gosto nem de me imaginar morando exilado, ou por vontade própria, em uma cidade como Londres, por exemplo. E nessa semana inteira chuvosa em que os carros e ônibus parecem cheirar (e efetivamente cheiram) a mofo e em que a internet cisma em ficar fora do ar, mais um grande nome da música brasileira infelizmente se foi.

Johnny Alf, nascido Alfredo José, no bairro de Vila Isabel, um dos precursores da bossa nova e grande pianista. Não pretendo me alongar muito, mas gostaria de escrever somente pelo fato de ser um dos ídolos de meu pai, que, ainda adolescente menor de idade (assim como tantos fizeram) chegou a vê-lo na Boate Plaza, pertencente ao hotel homônimo, ainda existente, criado para ser um hotel de luxo, mas que nos anos 1960 era mais conhecido por ser local de outras atividades, digamos assim. Bem, basta dizer que ambos situavam-se na Prado Júnior (o hotel tem entrada também para a Princesa Isabel). Dividia o piano da casa com o também genial Luiz Eça, fã assumido de Johnny Alf. Assim como tantos outros músicos, se apresentava comumente no há muito tempo abandonado Beco das Garrafas, em copacabana – e é impressionante a ausência de uma política cultural séria de preservação e revitalização de um dos nascedouros da Bossa Nova.

Possuía residência no bairro de copacabana, no entanto, a maior parte do tempo Johnny Alf  morava mesmo num apartamento na também há muito abandonada e fétida Praça Tiradentes, perto da gafieira Estudantina. Ele gostava mesmo era da bagunça daquela terra desregrada, do métier e da turma local (não que copacabana seja, ou fosse, um poço de organização). Novamente, por coincidência ou não, estive pelas bandas da praça (por uma causa nobre, diga-se de passagem, no belíssimo show de lançamento do CD de uma amiga, provando que ainda há esperança quanto ao futuro da música brasileira), na véspera de seu falecimento. Por lá ele também passou alguns anos praticamente esquecido, apesar de seu grande talento.

Em 2005, se não me engano, foi realizado um desses shows comemorativos com músicos da bossa nova, na lagoa, se novamente não me engano. Fui assistir, se também não me engano (foi de propósito, hehe), com minha irmã ainda meninota. A gravação abaixo é desse dia. Uma curiosidade: nesse evento, gravavam um DVD, e como de praxe, algumas músicas tiveram que ser repetidas, devido a problemas de captação no áudio. A música “Rapaz de Bem”, do próprio Johnny Alf, foi a mais “problemática” e teve de ser tocada por três vezes. Portanto, da fala do Miele até a execução musical, há um corte:

Próxima vez venho com um tema mais animado, prometo. E que essas águas de março tragam bons fluidos a partir de agora.

Até mais!


Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.