Pra exorcizar a emoção do carnaval

8 março, 2012

Já volto a botar minha vida e o blog nos trilhos, mas deixa só eu dar mais um último pitaco sobre o carnaval. A parte mais intensa do ano, ironicamente, ocorre sempre em seu início, sob um calor de lascar. Carnaval é sempre um momento de emoções à flor da pele, mas o derradeiro me trouxe a sensação de que tudo estava muito mais emocionante. O choro-sorriso no início da madrugada de terça para quarta-feira não foi mero reflexo do entornamento biritesco em sequência de manhãs, tardes e noites afora, muito menos uma simples epifania do carnaval que findava, nem de todas as sensações que passaram e/ou ficaram durante os festejos. A cidade foi tomada de uma maneira que há muito não se via (eu, ao menos, nunca havia visto), deixando para as autoridades um papel nada mais do que secundário. Momo representou com maestria o papel que lhe foi conferido. Tomou conta da chave da cidade muito melhor do que as oficialidades. Só não precisava ter devolvido. 

Durante o tríduo momesco, o povo tomou a cidade, fez valer seu poder sobre as ruas em locais inesperados, à revelia de organizações e ordens superiores. A inversão se concretizou. Por mais que as autoridades insistam em botar regras nos festejos, não têm a legitimidade, nem a capacidade para tal. Prova disso foi a questão dos horários de blocos e apresentações. Finalmente não saíram no horário estipulado pela Riotur, pequenos atrasos fizeram parte da festa. Mandou quem pôde, ou seja, o dono da festa da carne na terra, rei Momo, e obedeceram quem não teve juízo, ou seja, nós, os foliões, ávidos por uma brincadeira que tornasse o dia a dia menos chato e cinza.

O leitor mais atento e crítico, obviamente já percebeu que tudo isso dito acima está mais para o plano da representação, são alegorias (nada mais adequado para o período), sentido figurado mesmo. Toda essa imagem que esbocei, no entanto, não foge muito da realidade. Claro, da minha realidade, da realidade dos que passaram comigo, ou que encontrei na folia, felizmente. O carnaval dos meus foi, senão inteiramente, algo muito próximo disso. E a realidade não teria importância nenhuma se não trouxesse consigo altas cargas de emoção. E digo-lhes, nunca havia sentido tanta emoção, nos mais diversos sentidos quanto as que senti ao longo do derradeiro carnaval.

No entanto, se posso falar isso a respeito do carnaval dos meus, me sentiria um baita traíra se não examinasse o carnaval com olhares mais abrangentes. Afinal, o carnaval não é só dos nossos, mas do povo (e obviamente, os nossos fazem parte do povo), a cidade, suas ruas, rios, calçadas, praças, praias, morros e florestas são do povo, embora desde os tempos de colônia as autoridades busquem a negação dessa condição. O fenômeno que podemos observar nos últimos anos diz respeito à mercantilização e privatização dos espaços públicos e blocos do Rio com total assentimento da prefeitura e governo do estado (e isso não é exclusividade do Rio. Aliás, é um fenômeno nacional).

A intenção de transformar o carnaval carioca em uma espécie de franquia semelhante ao que é o Cirque du Soleil (vejam mais nesse obrigatório artigo do blog do Lúcio de Castro aqui), além do nojo que dá, é uma representação claríssima do que essa turma que nada entende do babado está a fazer com a festa das ruas do povo. Nada muito difícil de  imaginar, vindo de um pessoal que escolheu como símbolo da Riotur um boneco chamado John Carioca, uma caricatura de turista.  Nem o fato de serem eles caricaturas de autoridade torna o troço mais aceitável. Só mesmo quem não entende nada de Rio de Janeiro pra achar ótimo ter como símbolo de campanha para atração de turistas pra cidade um boneco com todo o jeitão de bobo alegre. Vejamos como exemplo o responsável pela secretaria de turismo (e consequentemente responsável pela organização do carnaval), Antonio Pedro Figueira de Mello, que é quem aparece ao lado do boneco, curiosamente também sempre sorrindo.

No mesmo movimento, o patrocínio dos blocos de carnaval também mostra a mercantilização dos espaços carnavalescos. Reitero o pedido, leiam o texto do Lúcio de Castro que expus o link acima, ele explica melhor do que eu poderia. Entre questões pertinentes, tais como “foi feita alguma licitação?” e “não seria essa mercantilização, que necessita, portanto, de um mercado consumidor para cumprir seu objetivo – o lucro -, a responsável pelo crescimento desenfreado de alguns blocos, bem como seria a patrocinadora também responsável por garantir a infraestrutura da folia – e não seria uma mera questão de culpar os foliões por eventuais sujeiras, mijões, apertos e confusões por problemas criados por outros, leia-se, esses megablocos e seus patrocinardores?” (pergunta grande, né? pois é, deveria ter uma resposta séria e menos fanfarrônica do que a do sr. secretário de turismo), outras merecem maior esclarecimento (deixa eu dar um ponto-parágrafo aqui pra não matar os asmáticos com falta de ar).

 Aquela imensidão de guarda-chuvas azuis com o símbolo da cerveja da Ambev (ou Inbev, venderam aquela porcaria pros gringos), uma cerveja das que mais bebo (não falemos em quantidade, que na hora da conta depois de umas e outras o bicho pega), além de tornar o carnaval de rua quase monocromático naquela imensidão azul em nada semelhante ao mar, por estar interessada no potencial de mercado, privilegia alguns blocos em detrimento de outros. Daí que superlota blocos tradicionais, blocos “novidadeiros” (não achei outra expressão para esses novos tipos de bloco, sem juízo de valor, pois alguns são até bons) e outros blocos ficam sem verba para desfilar, como foi o absurdo caso do Rancho Carnavalesco Flor do Sereno, que dá uma aula de música, não ter verba para realizar seu já tradicional baile ao ar livre, em copacabana. A questão que surge, portanto, é: essa porcaria toda padronizada e nada espontânea que procuram promover é carnaval?  

Entendam que o problema não é especificamente a existência de patrocínios para blocos, afinal deixar tudo nas costas da prefeitura seria um disparate, visto que a natureza dos blocos é sua espontaneidade e sua não dependência frente a regras e maiores formas de organização. A mercantilização, que define um padrão para os blocos, locais em que podem sair em virtude do tamanho que alcançaram (veja o exemplo dos blocos que são obrigados a sair na orla, Rio Branco ou Presidente Vargas – antes e depois do carnaval – e no aterro do Flamengo) e às vezes até o tipo de público desejado, “matam”  (embora seja notório que nunca conseguirão acabar com a vontade do povo de brincar nesses dias de festa) o carnaval, minam a espontaneidade e – o que é pior de tudo – criam e disseminam uma espécie de folião que foge completamente do que deveria ser o folião carnavalesco: aquele que vai aos blocos sem preocupação com fantasias, com a inversão da realidade, que se “veste”, no máximo (quando aceita tirar o boné), com um chapéu patrocinado por cervejarias ou bancos/instituições financeiras e desfila por aí sem camisa com espírito de micareta (aliás, poderiam fazer uma Cabofolia da vida com passagem de ida gratuita durante o pessoal pra ver se atrai essa galera). Não é o folião que brinca, que pula, que beija, que canta até mesmo depois de ficar rouco, é o que pega pelo braço, pelo cabelo e puxa a mulher na força bruta, o que começa a cantar músicas de torcida organizada mesmo perto da caixa de som a tocar outra canção, o que desfila num clima de indiferença e nariz empinado ao estilo do baixo gávea em seus piores dias, o que arruma confusão por um pisão no pé, o que bota um carro com o porta-malas aberto e som tocando hip hop ao final do desfile, enfim, o que mantém sua conduta do ano inteiro nos festejos de Momo.

Felizmente, mesmo se formos pensar que vivemos numa sociedade que a cada dia mais se “emplayboyza”, podemos fazer o carnaval de outra forma. Se avacalham o carnaval de inúmeras maneiras, como fizeram com a zona sul ao tornarem seu carnaval praticamente impraticável, com algumas exceções, o povo reinventa a festa, busca novos lugares, percorre a cidade atrás de novos caminhos, faz a bagunça chegar no aeroporto, sair do centro da cidade, atravessar o aterro até a praia de botafogo e desaguar no mar, por mais suja que seja a água de lá; se tornam o carnaval oficial da Sapucaí um absurdo de caro, têm que se contentar com a arquibancada do povão sempre lotada, com milhares de pessoas na concentração e dispersão; se tiram o povo de dentro da avenida no carnaval oficial, o povo brinca longe dele e não sente falta, pois com fantasia mais leve e sem gente mandando fazer coreografias e preencher buracos é muito melhor; se tentam colocar cordas e “abadás Vip”, ouvem a revolta de pessoas a gritar ”não põe corda no meu bloco!” (um fenômeno que começa a ganhar forças até na Bahia, finalmente); se proíbem blocos de desfilar, os blocos desfilam ainda assim, clandestinamente, com ambulantes autônomos, ou com os foliões correndo desesperados para o primeiro boteco  que encontrarem aberto (aliás, é necessário levantar o tema, os botecos pés-sujo se tornam cada vez mais raros em virtude da especulação imobiliária que joga o preço de seus aluguéis nas alturas – ainda assim, mesmo sem esses, que não desaparecerão completamente, o folião inventa uma nova forma de achar algo para molhar a garganta, nem que seja carregando seu próprio isopor), mas sem abdicar da festa. 

Pra concluir, a festa é do povo, a festa é o povo, que não sobrevive sem festa. A emoção é necessária para aguentar e buscar transformar esse mundo ao avesso. Pronto, agora dá, enfim, pra retomar a vida.

Até mais!

P. s.Você que chegou bravamente até aqui, ganha de presente duas músicas que dizem muito sobre o tema, a primeira, de Elton Medeiros (sugestão do mano Pedro Veríssimo. Só consigo botar o link) e outra de João Bosco e Aldir Blanc:

http://grooveshark.com/#!/s/Avenida+Fechada/2YD4PX?src=52YD4PX?src=5

 


Carnaval é subversão

14 fevereiro, 2012

Antes de mais nada, não estou pedindo pra saírem mijando por aí pelas ruas. O cheiro que fica nas ruas causa sim incômodo e na existência de banheiros, estes continuam sendo a melhor opção. Também não estou defendendo atos de violência urbana durante os festejos de Momo. Brigar na rua é coisa de babaca.  Faço mais uma defesa do carnaval como momento de inversão. Tá certo, explicarei melhor, aguentem só um pouquinho.

Vivemos em um mundo cada vez mais insuportável, com pouquíssimos fazendo a festa a custa do sofrimento e da vida da imensa e esmagadora maioria. Até aí, nenhuma novidade, seria apenas mais um dentre os milhões de comentários a lamentar a vidinha de merda que poderosos impõem à humanidade diariamente. Uma população que aguenta cada tranco do jeito que aguenta, deve ter ao menos os dias do ex-tríduo momesco (atualmente já são quatro, cinco, ou até mais dias de carnaval) para realizar a tão necessária inversão na sociedade.

Foi só eu passar por aproximadamente duas semanas com pouco contato com a realidade que bombas e mais bombas estouram aqui no Brasil. Por preguiça e outras razões, não cabem ser mencionadas por ora (andaram até falando por aí que eu estava ficando louco, né não, Pedrinho e João?!), mas principalmente mesmo por preguiça, deixei de escrever por estas páginas. Pra não passar em branco, as últimas semanas, é complicado assistir calado às barbaridades que aparecem (ou são solenemente ignoradas) pelos meios de comunicação tradicional, por exemplo. O massacre de Pinheirinho no interior de São Paulo, uma renovada versão do despejo na favela cantado por Adoniran décadas atrás, um repeteco das práticas Alckimistas desde que esse desgraçado se elegeu pelo estado de lá, a conivência da justiça paulista, que passou por cima do pacto federativo, ignorando uma decisão do Supremo, a polícia sanguinolenta como sempre. Por aqui, as remoções do prefeito Paes, relembrando o governo Lacerda, que tacava fogo nas favelas para depois desapropriá-las e deixar o terreno livre para especuladores imobiliários fazerem a festa, não ficam por menos. Os absurdos pró-Cabral, o pior governador que esse estado já teve, mau caráter da pior estirpe, que some na hora de dar explicações, morador de Paris, mancomunado com grupos empresariais (Cavendish e a turma da Delta, Eike Batista, o novo dono do Rio, entre outros) em detrimento do interesse geral de atendimento ao povo que um cargo público deveria zelar, única e exclusivamente. Enquanto isso, as televisões silenciam ou distorcem fatos sobre as péssimas condições de professores, médicos, profissionais da educação e saúde, bombeiros, policiais e etc. 

Enfim, vivemos em um lugar difícil e nada bom de se viver (ao contrário do que dizia o jingle do Cabralzinho nos anos 1990 e 2000, aquele do “pra ficar legal”), apesar das sutis belezas da vida e das pessoas boas que nos cercam (e felizmente, são muitas, muitas! Certamente em número muito maior do que os imprestáveis), que nos fazem aguentar e seguir em frente. Portanto, não tem essa de pilantras como Daniel Dantas, Sérgio Cabral filho, Geraldo Alckmin, Paulo Maluf, José Sarney, Eduardo Paes, a família Maia, Nadinho, Jerominho, Naji Nahas, Júlio Lopes, os ministros mambembes, enfim toda a sorte de pulhas que existem país afora, o carnaval é uma festa do povo e para o povo.

Sendo os dias de folia feitos para o povo e pelo povo, não podem faltar nas fantasias, cartazes, manifestações corporais, emocionais, nas gargantas e olhares a expressão de seus sentimentos. Alegrias, angústias, sofrimentos, amores, desenganos, protestos, desesperos, êxtase, tudo tem espaço durante a festa. Tudo tem espaço na inversão. é hora de tomar a cidade, o espaço que diariamente nos é negado, ruas e praças, é hora da subversão, da inversão de valores e da sociedade. Não há mais ordem sobre os foliões, o único decreto do rei Momo é que todos devem brincar, a galhofa está liberada. Inclusive para os tristes e inquietos, que entrem na dança da inversão de valores de sua vida a brincar como crianças.

Há aqueles que dizem ser o carnaval um período de alienação, em que todos esquecem dos problemas que enfrentam na vida para se interessar apenas em brincadeiras, em pessoas seminuas, enfim em uma farra descompromissada com a realidade, enquanto “lá em Brasília” (ah, como eu odeio expressões desse tipo!), o pessoal rouba na cara de pau. É um argumento típico de quem reduz política a esses ambientes (direitista a dar com o pau, sejamos claros). Política se faz na vida cotidiana, vivendo a cidade, suas mazelas e oportunidades. É por isso mesmo que reafirmo a idéia do carnaval como subversão. Ninguém fica satisfeito com roubalheira ou com o favorecimento a um ou outro picareta em detrimento do bem estar público, de maneira alguma. O carnaval é sim momento de se mostrar, em fantasias, cânticos, cartazes e de todas as formas possíveis, toda a indignação que nos  deixa inebriados a rodar a cabeça, ano após ano, com a realidade, mas de um modo diferente. São dias em que o povo tem, antes de mais nada, de mandar todos os escusos nomes da política-empresarial e afins se danar.

E que se danem mesmo, que sumam! Após a morte na quarta-feira, retomamos nossos protestos e nossas vidas regulares, mas antes vamos brincar. Os protestos carnavalescos ocorrem, mas sob a forma de alegorias. O carnaval é uma alegoria da vida, ora bolas! Por isso já preparei meu pedido para que Momo engula a chave da cidade e que não devolva aos crápulas. A cidade é e tem que ser do povo que se organiza mesmo na desordem. As praças e ruas são nossas!

Até mais!


Comentários sobre o Carnaval 2011

14 março, 2011

Relaxem leitores, não vou falar do que fiz nesse carnaval, pois além de ser uma questão pessoal, por vezes modorrenta e que tornaria o texto mais longo do que o habitual alongamento dos já lidos (ou não) por aqui, não venho com esse propósito por ora. Cabe apenas falar que, ao saber da liberação antecipada dos afazeres, saí pela rua desnorteado, sendo quase atropelado em uma pacata via perto de casa e atropelando um grupo, provavelmente de um pessoal uns dois, três anos mais novo que eu, enquanto dava a notícia pelo telefone aos mais chegados e foliões em compasso de espera pelo meu sinal de vida – ou de morte da vida cotidiana. Modéstia à parte, a energia despendida no primeiro dia de carnaval deixaria muita gente de cama nos seguintes, mas nem a chuva que veio forte seria capaz de superar a certeza de que doenças não teriam vez sob o reinado de Momo.

Já tendo passado a quarta-feira de cinzas, fui ao trabalho para não trabalhar. Não por vontade própria, mas por falta de quórum, digamos assim. Na porta, um colega que comemorava a proximidade de sua aposentadoria (ao fim do ano) comentou: isso aqui (o Rio de Janeiro) está ficando igual à Bahia, lá os carnavais duram duas semanas ou mais, no meu tempo não era assim não. Lembrei-me imediatamente da preliminar e certamente incompleta análise que fiz (como todas que faço por estas bandas largas) sobre a bahianização do carnaval carioca aqui, mas sob outro aspecto. Se antes me referi ao público e seu caráter micareteiro, vamos rapidamente trazer uma abordagem sob outro prisma, o da mercantilização. Não é de hoje que empresas procuram divulgar suas marcas nos blocos – não falo isso com nenhum juízo de valor, embora talvez devesse -, no entanto, o que vemos cada vez mais – agora sim, trazendo uma visão crítica - é o loteamento do espaço público e o ”ordenamento” do carnaval por determinadas empresas. Também já presenciamos blocos com transmissão ao vivo (como foi o ridículo caso dos repórteres “flagrando” mijões em pleno Cordão da Bola Preta), provavelmente com contratos de divulgação das marcas patrocinadoras da folia. A tendência é piorar, com cada vez mais flashes ao vivo e palhaçadas do mesmo tipo.

Se o carnaval cercado por cordas encontra, felizmente, forte resistência para se disseminar na cidade mulher, por outro lado, o mar de chapéus azuis que se fez em alguns blocos traz um tom preocupante. Claro que o chapéu em si não significa nada, mas ver 90% dos ambulantes “patrocinados” por determinada marca de cerveja, sem receber nada em troca dá a dimensão do troço. Os ambulantes “legalizados” (uma incongruência, discriminar um trabalhador informal e outro não) são obrigados fazer propaganda gratuita para tal ou qual cerveja. Se recuperarmos a informação de que a empresa que acabou com a espontaneidade do carnaval baiano tem sérias intenções em aportar pela baía da Guanabara, é preciso estarmos atentos que vem chumbo grosso por aí. Daqui a pouco começam a cobrar pelo uso dos banheiros (mas deixem quieto, é melhor não dar idéias a esses pulhas). Outra pergunta cabe aqui: os patrocinadores contribuem na organização da infraestrutura do bloco de alguma forma, seja na forma de banheiros, apoio pro carro de som, etc.? 

Falando em banheiros, sinceramente, não venho em tom de provocação (ao menos não inicialmente), mas notei um número muito menor de banheiros químicos dispostos em setores chave do carnaval carioca. Houve bloco sem banheiro algum! Se não houvesse a boa vontade dos donos de buteco, fundamentais em quaisquer situação da vida, diga-se de passagem, e o ímpeto transgressor de nossos foliões (descaradamente mando um viva à desobediência civil! Ninguém se alivia na rua sem o precedente básico para tal aberto pelo poder público.) A primeira conclusão que tiro é a de que a prefeitura é no mínimo, uma baita de uma mentirosa. 15 banheiros espalhados pela Av. Rio Branco é uma quantidade vergonhosa e um desrespeito com o grande público que brinca pela área durante o tríduo momesco. Não é de se adimirar que algumas das regiões mais populares do Rio tenham sido abandonadas pelo prefeito anti-carioca e seus comparsas. Pra não dizer que apenas desço o malho no infeliz, fica meu elogio ao “contêiner-banheiro”, com capacidade para sete vasos, um mictório e ainda pia para lavar as mãos! Absurdo, porém, foi encontrar um desses fechado ainda durante a noite da terça , portanto, antes do fim do carnaval. Mas não foi só o banheiro quem antecipadamente se fechou na folia. Sei que é preciso em algum momento realizar a manutenção, etcéteras e tal, mas o fechamento do metrô na madrugada de terça para quarta, enquanto blocos ainda desfilavam e shows ainda rolavam a pleno vapor, pulmões e gargantas roucas, falando no jargão popular, é uma sacanagem!

Mantendo o tom, outra sacanagem é a intenção da prefeitura em diminuir o número de blocos sob a alegação de que alguns levam contingentes menores do que o anunciado. Sabemos do esforço brutal de engenharia de tráfego para fechar determinadas vias e minimizar o efeito que uma rua fechada pode trazer ao trânsito, mas, sem brincadeira, isso não é argumento. No fundo é mais uma tentativa de acabar com o espírito do carnaval. A anti-festa da carne é espontânea, os foliões não marcam presença em uma lista pré-fixada, isso não existe e parece que os manda-chuvas cismam em não entender, ou fingem não entender. Blocos, batuques e cantorias surgem de livre vontade, às vezes imediatamente ao findar de um bloco. A restrição de horários de forma rígida é mais uma tentativa de esfriar o espírito de um povo, que apenas faz uso de um espaço de todos – sabemos, é claro, da necessidade de se respeitar o próximo. Alguns locais já ficam insuportavelmente cheios durante o carnaval e a diminuição de blocos autorizados em nada resolverá tal problema. Ao invés de descentralizar, pretendem concentrar ainda mais a boa bagunça. A verdade é que, para eles, quanto mais privado estiver o espaço público, melhor. E os foliões que se danem!

Todavia, sabemos que eles passarão, e nós, cocô de passarinho em seus planos e cabeças. Nesse sentido, exalto todos os blocos, bandas e cordões rebeldes e resistentes, os salvadores da folia verdadeiramente espontânea e popular da cidade maravilhosa. Horários ultrapassados, trajetos modificados, críticas em alto e bom som, carros de som cedidos pela prefeitura abandonados enquanto a banda prosseguia livremente, essa é a cor e a cara do carnaval. Um viva à descontração! Há algo mais descontraído, do que o povo, no aperto de uma fila quilométrica de banheiro (queria ver o senhor secretário de turismo e lazer – de tanta relevância que seu nome não passa nem perto de minha lembrança, embora sua cara de mauricinho me venha em relances espasmódicos – esperar apertadaço meia hora numa fila, tranquilamente, como falou ser possível), enquanto preconizava e tentava organizar uma desobediência civil coletiva, fazer piada e ressaltar que “eles não podem prender a gente se formos todos ali atrás da moita ou do caminhão… agora, sem darmos a “balançadinha”, pro PM não nos levar por atentado violento ao pudor”.

Uma das conclusões que chego é que o carnaval não pode mais elitizar.  Se os preços de comes e bebes ficarem cada vez mais caros na rua, isso acabará acontecendo, ou a galera passará a levar farnéis de casa (isopores ou mochilas térmicas pr’aquela cervejinha já é uma realidade em determinados locais). Um local que não pode elitizar de jeito nenhum é a Rio Branco. No dia em que fileiras de bombados acharem divertido curtir o Cacique de Ramos, o Bafo da Onça, ou quaisquer um dos diversos blocos que desfilam animados por lá, de domingo a terça-feira, o troço ficará complicado. Com os grupos de acesso da Intendente Magalhães a mesma coisa. Felizmente isso ainda não parece estar acontecendo.

Já que levantei a bola pra falar dos desfiles de escola de samba, um rápido pitaco. Mesmo sabendo que toda apuração gera reclamações de todos os lados, o resultado, não pelo resultado em si, mas pela discrepância nas notas, pareceu a quase todos bastante estranho. Não vou julgar méritos, mas também não poria meu mindinho no fogo por ninguém dali. Sobre a transmissão, o despreparo, a boçalidade e o estilo de apresentação da Rede Globo tornou o negócio insuportável de se assistir. Não vi ao vivo, mas aos poucos vejo as gravações e é impressionante como os dois âncoras têm uma capacidade imensa de não fechar a matraca e de falar asneiras. Isso só reforça uma velha opinião de necessidade de que o carnaval seja transmitido por, ao menos, duas emissoras de televisão, sendo obrigatória a transmissão por parte de uma emissora pública (afinal, se é um evento oficial, deveriam ter direitos de transmissão), além dos outros meios digitais e internéticos que cada vez mais fazem parte de nosso cotidiano.    

Varrendo as cinzas, agora é esperar pra fazer outras coisas da vida nesse longo interlúdio entre uma folia e outra.

Até mais!


Grito (já rouco) de Carnaval!

3 março, 2011

É como uma avalanche, não há mais tempo para nada! Parem seus afazeres que o carnaval começou! Quem dita as ordens a partir de agora é Momo e cabe aos súditos obedecer! A lei é justamente a falta de regras! É a festa da inversão, a festa do povo que só vai parar na quarta-feira! É hora do grito de “é carnaval”!

Seguindo a tradição do povo das terras de São Sebastião, terras aniversariadas neste último dia primeiro, a folia já começou faz tempo. Tem gente curtindo um carnaval desde o dia da Folia de Reis, pra falar a verdade. Não é por acaso que a garganta já há muito perdeu sua potência, mas nada que não possa ser recuperado a tempo. Haja própolis, spray de romã, limão chupado, pastilhas pra garganta e muita água para se conseguir brincar e alcançar o objetivo maior – e pra poder acabar de vez com a garganta no tríduo momesco, que preocupações menores não têm vez nessa época.

Antes de gritar, porém, vamos com algumas pérolas selecionadas pra um último aquecimento. Primeiramente, elaboremos nossas alegorias para reacender alegrias e salões com ”Nós, os foliões” de Sidney Miller:

Em seguida, uma das mais belas marchas-rancho de todos os tempos, “As Pastorinhas”. Também pudera, uma parceria de Noel Rosa com João de Barro, o querido Braguinha, não poderia sair incólume :

 

E pra fechar a conta até quarta-feira, de preferência com o raiar do dia a irradiar sobre nossos cocurutos, já não mais cobertos de tanta razão, porém repletos de uma emoção transbordante incapaz de tornar uma caminhada retilínea uma tarefa exequível,  vamos de Zé Keti com sua fundamental “Máscara Negra”:

Até mais! Até depois de quarta-feira, para renascer das cinzas!


Bahianização?

25 fevereiro, 2011

Um fato nesse último fim de semana me assustou um bocado: saindo de um bloco pré-carnavalesco e rumando a outro, no domingo, não havia mais sinal do bloco, apenas uma multidão de pessoas paradas ao na praça (São Salvador) e arredores. Até aí nenhum problema, era apenas sinal de fim de bloco, natural que as pessoas continuassem um tempo por ali conversando, bebendo, comendo e azarando.

Havia passado mais cedo pelo local com os manos Victor “Robinho” e PC e não havia tanta gente no início, talvez pelo Flamengo x Botafogo no mesmo horário. Assistimos ao primeiro tempo da partida por lá na tevezinha antiga da Adega da Praça e saímos antes de o negócio esquentar, é verdade, mas o número de ambulantes com seus bonezinhos azuis da patrocinadora oficial (o que francamente é uma babaquice. Desculpem os termos, mas vendedores ambulantes patrocinados não dá. Me pergunto – por ignorância mesmo – se ganharam algo pra fazer aquela  propaganda toda) era prenúncio de que faltaria ar pra circular por ali.

A celeuma foi criada quando da dispersão de nosso pessoal (pra lá de quinze cabeças)  do bloco “vizinho” rumo à gloriosa pracinha. Nunca o nome do local foi tão condizente com o espírito que havia tomado o lugar. São Salvador era ali (tira o pé do chão!). Não bastasse a multidão de descamisados bombadinhos, algo péssimo visualmente, mas aceitável se levarmos em consideração o forno no qual o local havia se tornado (já é quente naturalmente, imaginem apinhado de gente!). Talvez seja preciso, antes de mais nada, esclarecer que não tenho nada contra playboys, conheço playboys, tenho amigos playboys e até já comprei edições passadas da playboy, é uma convivência impossível de não acontecer no Rio e até necessária, visto que a mistura é uma coisa bacana e característica de nossa cidade. Mas o que não dá pra aceitar sem reclamar é a prevalência do “comportamento playboy” nas terras de São Sebastião.

Por “comportamento playboy” faço referência a um tipo específico, intolerável no carnaval carioca, qual seja, a transformação dos blocos em micareta. Mais precisamente, são nos pós-blocos os momentos em que, em algumas cercanias, acabam sendo criados climas de micareta. Homens puxando mulheres pelo braço, cantadas grosseiras, uma verdadeira caça animalesca às presas. Antes que alguém venha aqui falar que é recalque (e eu mande pr’aquele lugar), gostaria de afirmar que considero esta uma prática nojenta. Se o carnaval já é por excelência a festa da carne e talvez seja a época mais propícia para os relacionamentos de curta-duração sem compromisso – que não são minha praia – , há outras maneiras muito mais inteligentes e bem humoradas de se conseguir o objetivo, de modo que essa apelação torna-se uma heresia frente ao povo e à tradição do carioca.

Dia desses, conversei com meu amigo Armando e seu diagnóstico foi direto: estamos vivendo uma baianização do carnaval do Rio. Obviamente esta baianização ainda não chegou nem perto de um quinto dos blocos carnavalescos, mas é inegável a mudança do comportamento de boa parte da população, cada vez mais semelhante ao ritual baiano. Tenho certeza que até os puristas baianos odeiam essa tradição originada com a invasão comercial do chamado “Axé music”. Se já vimos por aí blocos com cordões loteando espaços privilegiados e o abadá já pipoca por certos eventos, daqui a pouco é possível que esse troço tome rumo maiores, descaracterizando de vez os festejos de Momo cariocas. A bem da verdade e de nossas tradições, não confio completamente no espraiamento e perpetuação dessa micaretização, não sei até quando vai durar, se é definitiva ou não, mas, por via das dúvidas, já não me arrisco mais em alguns dos blocos nos quais os foliões seguiram por esse caminho (uma pena, pois alguns desses possuíam boa energia para brincar). Não há nada mais anti-clímax carnavalesco do que dez minutos após o fim de algum bloco presenciar um infeliz com o porta-malas do carro levantado e o som explodindo num batidão de hip-hop qualquer. Foliões, estes nunca serão!

Até mais! Tá chegando…


O Carnaval somos nós

19 fevereiro, 2011

Outro dia, dando aquela verificada na programação dos blocos carnavalescos – afinal, faltando duas semanas pro tríduo momesco, já podemos dizer que o carnaval começou faz tempo -,  fiquei com a impressão de que menos blocos foram liberados para desfilar. Pode ser que seja mera impressão, enviesada com o fato de que alguns blocos não puderam dar certeza de que sairiam antes da confirmação da prefeitura, mas não é um fato a se duvidar.

Mantendo sua equivocada insistência na idéia de trazer uma cidade ordeira na base do “choque” (e aí cabe sempre a velha pergunta: ordeira pra quem? Ao interesse de quem?), a anti-prefeitura do Rio de Janeiro, sob o pretexto de que alguns blocos impedem o trânsito de pessoas que não querem saber da folia – quem não pode vira bode e que  fuja pra praça da Sé, ué – , além dos serviços essenciais à população, como é o caso das ambulâncias, há anos (desde o início do mandato atual, porque o anterior todos sabem que largou a cidade pra lá e ficou curtindo escrever em seu ex-blog – não venham me criticar quanto a esse mesmo fato, pois cumpro minhas obrigações antes e depois de escrever por essas bandas… e não sou prefeito!) vem fazendo de tudo para dificultar os desfiles de alguns blocos que já se tornaram tradicionais ou mesmo dos novatos. Uma falsa argumentação, pois, se sabemos da necessidade de se permitir a livre circulação das pessoas pela cidade, por outro lado, sabemos que a intransigência não é o melhor caminho para as negociações de horários e espaços a serem ocupados pelos blocos. Acrescente-se a isso a não-promoção dos festejos de Momo longe dos locais mais “midiáticos”, digamos assim, tais como a Sapucaí, e locais da Zona Sul e Centro. Os blocos carnavalescos estão espalhados pela cidade inteira, mas as atenções voltam-se sempre pro lado turístico, o que considero um erro, tendo em vista que o carnaval é uma manifestação popular de toda a cidade (e país).

Além dessa onda dos blocos, há inúmeros bailes na cidade, uma tradição que parece estar tentando ser retomada após a decadência recente. Outras expressões culturais carnavalescas completam o mosaico do carnaval no Rio de Janeiro, mas raramente são noticiadas. Não é a tôa que a tradição dos “Clóvis”  (quem nunca se vestiu de bate-bola quando criança?) – uma corruptela de “clowns” -, ainda comuns até anos atrás lá pras bandas de Marechal Hermes (pode ser comum em outras cercanias também, mas não tenho certeza, perdoem-me a ignorância) estejam se perdendo (torço para que ainda haja o “desfile” com suas batidas de bola no chão, assustador para as crianças, por sinal), como já parece ter se perdido a tradição de enfeitar e iluminar os coretos dos subúrbios para bailes ao ar-livre ( coisa que pode ser retomada se houver um esforço mútuo da população e das autoridades. Devia ser bonito demais aqueles coretos das praças do subúrbio iluminados e cheios de gente).

O carnaval acontecendo somente em março, embora não seja a primeira nem a última vez, soa tão estranho quanto o campeonato carioca sem o Maracanã, ou quanto Ronaldo, o fenômeno, um dos maiores que vi jogar durante o auge, tentando fazer sotaque paulista na coletiva de imprensa ao declarar seu amor ao Corinthians. O “oficial” será um carnaval diferente por não ter o rebaixamento das escolas, o que considero uma decisão acertada. O incêndio nos barracões da gigante Portela, 21 vezes campeã do carnaval, da tradicionalíssima e sempre animada União da Ilha e da Grande Rio, de bons resultados recentes e forte presença na mídia, desde que inventaram uma personagem insuportável de novela identificada com a a cidade da baixada, prejudicaria muito seus desfiles visto que fantasias e carros alegóricos se perderam. A oportunidade de renascer das cinzas está na força de suas comunidades, que vão com muita garra pra avenida. Sempre fui favorável ao samba no pé e à qualidade da bateria como critérios mais importantes, inclusive, de julgamento do que questões estéticas (aí viria um chato discutir a questão estética da bateria ou do samba no pé… paremos por aqui, ao menos por hoje). Se o carnaval é uma constante reinvenção de tradições, por que não este resgate?

Aliás, só pra continuar a descer o malho na prefeitura, é inaceitável o péssimo estado infraestrutural para combate a incêndios na Cidade do Samba. Todo mundo sabe que a maioria dos materiais são inflamáveis. Um incêndio com cheiro de factóide das gestões passadas, mas não se pode eximir o atual prefeito de culpa.

A prefeitura da cidade mulher ainda promete mais. Além dos já conhecidos guardinhas municipais fardados correndo atrás dos “mijões”, que ganharam o simpático apelido de “manja-rolas”, a promessa de manter sua verve punitiva traz duas novidades que têm tudo para ser a sensação do carnaval. Os blocos terão, além dos foliões, espiões travestidos – por que não posso deixar de fazer graça numa hora dessas - de foliões com câmeras pra flagrar o ato de tirar água do joelho nos lugares impróprios, além de carros estacionados em locais estratégicos com câmeras e a mesma finalidade (é isso mesmo, um surrealismo de deixar Dali de bigode em pé!). A pergunta que não quer calar é se depois vão reunir e editar as melhores imagens num documentário sobre a cidade.

Mudando de assunto sem sair de cima, a cidade (e o estado) vêm vivendo um rebuliço por conta da operação guilhotina que “descobriu” irregularidades na própria chefia da polícia, entre outras coisas, na ocupação do Alemão e em operações recentes. Qualquer semelhança com o primeiro samba, “Pelo Telefone”, de Donga, não é mera coindidência. Não é de hoje que quem manda avisar sobre a existência de uma roleta para se jogar é o chefe da polícia. Lembrando de Noel pra variar um pouquinho, pensar que morreu por ter pescoço o inventor da guilhotina em Paris faz todo o sentido com o alto-comando criminoso da polícia, a maré muda e “as ferramentas” estão aí para serem usadas. Já que falei de dois mestres do samba, não poderia me furtar de lembrar os centenários Mário Lago e Nelson Cavaquinho (salve!). Este vai ser enredo da Mangueira, uma justíssima homenagem. Como torcedor da Estação Primeira torço muito que dê tudo certo (acho também, embora sejam gênios diferentes, que é uma tentativa de retratação pelo fato de não terem feito um enredo sobre o Cartola em seu centenário). Quem chega à metade dessa marca é o gigante Cacique de Ramos. Merecem todos os louros, 50 anos não é pra qualquer um. Impossível falar do Cacique e não lembrar da decadência do Bafo da Onça (saiba mais aqui). Carnaval na Rio Branco, qualquer dia tamo aí!

A última nota que gostaria fazer por ora diz respeito a uma informação que ouvi pela rua e que é de assustar. A empresa responsável pela organização do carnaval da Bahia estaria pretendendo atracar no Rio. Querer não necessariamente é poder, mas se vierem pra cá é bom que fique bem claro que a força do carnaval é o povo, é a efervescência dos foliões, é a multidão de palhaços, pierrôs, colombinas, odaliscas, mascarados, fantasiados ou descamisados cantando, sambando e brincando. Não põe corda no meu bloco nem me venham com abadá que essa turma não se cria a beira-mar!

Até mais!


Pra não ficar com depressão pós-carnaval

24 fevereiro, 2010

A volta à rotina pode trazer sempre um início de depressão, que se mal cuidada, tornar-se-á uma grande depressão. Talvez não tão grande quanto à de 1929 (putz! às vezes até eu me surpreendo com a capacidade humana de se falar besteiras), mas, ainda assim, de consequências devastadoras. É a chamada “depressão pós- carnaval”. Quer dizer, não sei se é assim chamada, mas, na pior das hipóteses, taí criada mais uma doença para os anais da medicina. Geralmente, aqueles que mais sofrem são também os que mais se aproveitaram da algazarra fevereira.

Nesse sentido, pra não deixar a peteca cair, além de retomar às atividades com uma intensidade em muito superior à até então adotada, pra não abrir espaço pra se pensar em como foi bom o carnaval e et céteras e tal, recomendo a todos, não um repouso - pois não sou jornalzinho de variedades que passa nas televisões à tarde pra ficar dando essas dicas inúteis -,  mas apenas uma maneirada básica. Nesta semana, desvirtuando completamente esses conselhos acima dados (e pra mostrar o grau de esculhambação dos mesmos), não aguentei e, tal qual Baloubet du Rouet em plenos jogos olímpicos, refuguei no meio de uma saída noturna (o assíduo leitor Pedrinho, por sinal, foi o primeiro a notar meu ritmo lento na ocasião). Felizmente nos devolveram a hora roubada em outubro (bem roubada, diga-se de passagem) e deu pra dormir um pouquinho mais, ficando assim zero bala pro que der e vir pela frente. 

Outra maneira encontrada para evitar a apatia e depressão nesse cutro período entre o carnaval e o ano novo, entremeado por outros deliciosos (ou não) momentos e épocas (a época das festas juninas é deliciosa pelos quitutes, por exemplo), foi escrever essa divagação. Porque escrever é a arte de fugir do óbvio e da mesmice. Na realidade, é uma das artes. Na realidade mesmo, todas artes de alguma forma rompem com o cotidiano e eu não sou artista coisa nenhuma.

Importante mesmo, no entanto, é a chamada “desintoxicação musical”. Não que eu não goste de música carnavalesca, na verdade adoro, sou fã incondicional e sei muitas delas de cor. Não à tôa, junto com o remanescente Pedro Veríssimo, cantei, já rouco, na madrugada da terça de carnaval, a marchinhas, sambas-enredo dos bons tempos e até um ou outro dos atuais. Isso sem falar de um carnaval de outrora, quando na mesma companhia, somada à presença de outro dileto amigo, que parece preferir o carnaval baiano ao carioca (só relevo porque ele é baiano e com essas coisas “de sangue” fica difícil competir), cantamos completamente roucos, na chuva, acompanhados por um tamborim, um bumbo, uma caixa (não lembro qual) e um “naipe” de uma (!) corneta – cujo corneteiro estava mais bêbado do que pré-adolescente no primeiro porre de “Caninha da Roça” -, além, é claro, das outras nove ou dez pessoas que acompanhavam o bloco, durante todo o percurso, já no fim da terça vazia (devido à forte chuva). Valeu à pena a febre do dia seguinte. Isso porque não queria falar sobre o que aconteceu no carnaval, nem nos carnavais passados. Mas carnaval é isso aí mesmo (e muito mais!).

Agora sim, sobre a “desintoxicação musical” necessária. Embora as músicas de carnaval sejam por demais agradáveis, passar o ano inteiro restrito às mesmas seria um desperdício dada a variedade e riqueza musical do mundo todo (como se eu conhecesse o que rola de bom no Paquistão ou na Armênia, por exemplo, hehe). Nesse sentido, além de passar as horinhas de “trabalho” ouvindo incessantemente ao módulo aleatório das músicas no computador (tem que aproveitar enquanto dá!), nos horários de folga providenciei alguns discos e álbuns que pretendia ouvir e reouvir… Sábia decisão, refesquei a memória e nem pensei no vácuo deixado pela folia.

Ah, claro, o melhor de tudo mesmo é aquela boa noite de sono (e aí entro em meia-contradição comigo mesmo, pois não havia recomendado o repouso. Na verdade, recomendo o repouso natural noturno e não aquele  pregado pela tv, do estilo “fique vegetando em casa”). Acordar descansado também ajuda a não pensar na razão da estafa anterior. Fazer outras coisas cansativas também continua sendo uma boa pedida, já que um cansado pensa mais em descansar logo do que em quaisquer outras coisas.

Portanto, não fiquem com saudades do carnaval, ano que vem tem mais. O melhor mesmo é arrumar o que fazer nesse interlúdio.

Até mais!         

P.S. - Ia tentar deixar um arquivo que ficou faltando na postagem anterior, a música de Candeia “Brinde ao cansaço”, mas sou um analfabeto digital e não consegui. Quem quiser, me pede que mando por e-mail (e se alguém souber, me dá um toque).

P.S.2 (não o videogame) - Parabéns Mari!


Uma exaltação ao cansaço

19 fevereiro, 2010

Passado o tão falado tríduo momesco (que já se tornou tetráduo, pentáduo,etc) o que mais se ouve falar é que agora o ano começou. Uma ova, pois já tinha começado há muito tempo, meio em ritmo de pré-temporada pra alguns, mas, se ardemos no sol a sol, não foi em vão. É bem verdade, no entanto, que a partir de agora a coisa fica mais séria. O que é mais verdade ainda é uma outra coisa: passado o carnaval, o que resta mesmo é o cansaço, o bom e conhecido cansaço.

Não vou aqui contar o que fiz nesse carnaval, pois afinal, se  por um lado segui à risca a “Máxima de Gil” (essa é velha, mas pra quem ainda não conhece, envergonhado, disponibilizo aqui sua audição), o que sobra da festa de celebração à inversão cotidiana não é da conta de ninguém. Todavia, gostaria de fazer alguns agradecimentos. Primeiramente, a todos com quem pude compartilhar esse momento mágico. Pensei em falar nomes, mas acabaria por esquecer de alguém e não gostaria de fazê-lo. Não poderia deixar de mencionar os cada vez mais aclamados blocos, com o “Embaixadores da Folia” levantando simbolicamente o troféu de “Bloco do Ano” por sua incansável vontade de desfilar (pra quem não sabe, o tal do bloco sai umas seis ou mais vezes entre o pré e pós-carnaval em horários comuns ou inusitados) e pela alegria e qualidade de suas saídas. Claro que outros tantos poderiam merecer esse prêmio imaginário. O “Boi Tolo” (que “é melhor que Eto’o”), por exemplo, fez uma bonita festa e ainda levantou a bandeira contrária à “Bahianização do carnaval carioca”, à qual dou total apoio. E só fui lembrar que “o velho na porta da Colombo” da letra de “Sassaricando” remetia aos senhores que ficavam azarando os brotinhos que por lá passavam (mas isso era óbvio! Ê lezeira!) - onde, provavelmente, se incluía o “Gegê” - na madrugada de terça pra quarta, ao ver, no palco da Cinelândia, a participação especial da ex-vedete Virgínia Lane, hoje uma senhora de 90 anos de idade.     

Provei também que não entendo porcaria nenhuma do que se passa na Sapucaí. Se apostei na Vila Isabel como favorita e não passei tãaaao longe (ela chegou em 4o lugar), nem mencionei a Unidos da Tijuca, campeã com méritos, que trazia de volta o carnavalesco do momento Paulo Barros, o qual há alguns anos já demonstrava sua capacidade inovadora. E nem atentei para o louco enredo portelense (mundo virtual não dá samba) e para a polêmica panetônica do enredo da Beija-Flor. Graves erros meus. Justifico-me dizendo que dos desfiles, vi muito pouco, mas muito pouco mesmo. Verei tudo, no entanto, pois foi gravado.

Antes de falar especificamente sobre o tema que intencionei escrever, gostaria de relatar o quão impressionado fiquei, mais uma vez, com o “carnaval do povão”. É aí que está a chave do sucesso do carnaval carioca. Não é à toa que mais de 1 milhão e meio se espremem no “Bola Preta”, povo na rua é bom demais de se ver, seja aonde for. A Avenida Rio Branco é um bom retrato disso, embora não seja o único (não mesmo!). O que teve de gente por lá me abordando para tirar fotos comigo ou “sem migo” por causa dos adereços de minha fantasia não foi brincadeira (“posso tirar foto? é pro orkut!”; “me empresta o óculos, besourão?”; “vai lá, agora deixa minha filha e depois meu marido?!”). Pacientemente e, sinceramente, gostando desse clima de comunhão generalizada, atendi a todos um por um. E olha que vi fantasias muito mais criativas do que a minha que não chamavam tanta atenção da galerinha, para falar menos. 

Se os mecanismos coercitivos andavam a pleno vapor, o mesmo não pode ser dito quanto ao número de banheiros químicos. Foi realmente uma vergonha. Era possível ver mais guardas do que os necessários  e abafados “toaletes”. Sua reposição também foi precária. Após seu esgotamento, além do desagradável cheiro que ficava por perto e do risco iminente de transbordamento, ficava a sensação de que cada vez sobravam menos lugares “legalizados” para se urinar. Felizmente, os donos de botecos foram atenciosos. A população que aguardou pacientemente horas e horas de fila durante o carnaval merecia mais respeito das autoridades. E que papelão da ascendente São Clemente, fazer um enredo sobre a porcaria do “choque de ordem”!

Somadas as filas, a maratona de blocos, os excessos etílicos, a má alimentação e a péssima rotina de repousos, baseada em curtos cochilos (que somados nessas quatro noites, não passaram de 14 horas, razão pela qual o presente texto está tão mal escrito – ah, humildade é uma virtude – e assim o deixarei, mesmo após breve revisão, propositalmente, como representação fidedigna do que é o carnaval), o que sobra é o cansaço (enfim!). O cansaço nada mais é, nesse momento, do que o reflexo mais puro da experiência vivida, desse curto espaço de tempo em que a vida dá uma reviravolta e prepara nossos corpos e mentes para aguentar a normalidade, despida de trajes e alegorias. Não que o cotidiano seja ruim, não precisa nem deve ser, mas o cansaço de agora representa sempre algo que não podemos esquecer:  a vida não é apenas brincadeira, embora sem ela não tenha a menor graça.

 Nesses três dias pós-carnaval, o cansaço é belo e deve ser aclamado. Lembranças ficarão ou não. Como esse texto já está ficando um devaneio só: Viva o cansaço! “E a vida continua”, já dizia Paulinho.

Até mais!


Mais do mesmo… até acabar na quarta-feira!

10 fevereiro, 2010

Nesse período em que o calor deixa os mais branquelos empolados ou vermelhos; em que bebe-se, bebe-se e sua-se tudo (felizmente, pois os tais banheiros químicos, se foram quadruplicados, não foram bem distribuídos, e os guardas municipais, carinhosamente apelidados de “manja-rolas”, estão autuando os incontinentes do meio da rua); em que os pitboys acham que tiram onda com sua cara porque você está fantasiado e eles, numa pederastia enrustida, sem camisa e com seus músculos disformes à mostra, examinando uns aos outros; em que as meninotas menores de idade (ou não) - conhecidas como a turma da “mangueira do amanhã” – aprendem a dar o fora de dois em dois minutos nos marmanjos mais assanhados; em que os vendedores tentam a qualquer custo, literalmente, aumentar o preço da manguaça diária; em que o ônibus aumenta o preço justamente no pré-carnaval, época em que os foliões mais andam de lá pra cá (muito conveniente, não?); em que o consumo de Etanol subiu 16%, segundo dados de 2009 (êta nóis!); em que inicia-se um debate para ver qual foi o melhor governo, FHC ou Lula (essa é pra rir?); em que pretende-se, na Itália, punir os jogadores que falarem palavrão em campo (não vai colar, mas mesmo assim, de novo: morte ao futebol moderno!); em que tomei a sábia decisão de não ficar em NENHUM bloco que passe pela minha rua, visto que superlotam de playboys de todas as estirpes; e em que é necessário guardar forças para a festa momesca que se aproxima, pois serão quatro dias até o bagaço, aí vai um videozinho da música “Mascarada”, de Zé Keti e Elton Medeiros, uma baita música, a qual, segundo o próprio Zé Keti em disco que tenho por aqui, não fez muito sucesso. Inacreditável dada sua beleza. Ó ela aí:

No carnaval do Rio cadastraram alguns vendedores e seus isopores. Isso gerou uma tentativa de aumento de seus preços (na realidade, os preços nos supermercados aumentaram na virada do ano), que, felizmente, ainda não se institucionalizou. Durante a concentração de um dos blocos que já fui, ao me digirir para abrir os trabalhos com uma gelada alcoólica (levei comigo uma aguinha congelada, que rapidamente degelou, pois o calor está brabo, como sempre foi, mas há muito não se derretia), perguntei o preço ao vendedor. O rapaz falou:

- Uma é três, duas por cinco.

Rapidamente, com rosto surpreso, devolvi:

-Pô, uma por três?!

E o vendedor, percebendo que eu não iria pra promoção das duas latinhas, logo recuou:

- Dois e cinquenta.

Não passou um segundo, mantive meu silêncio, pensativo se valeria à pena. Ele baixinho:

- Pra você, faço por dois.

Não só aceitei o preço padrão, como retornei mais duas vezes ao atencioso rapaz para o “refil”. Compreendi que estava num antro de playboys, daqueles que pretendo fugir durante as festas de Momo. Nos blocos em que a maioria dos presentes não possui uma fantasia ou camisa de bloco o preço costuma ser mais alto mesmo (não pra mim, que não colho em árvore). Aliás, falando em camiseta, não vi tantas assim, nem sei os eventuais estilistas que as fizeram, mas a mais bonita desse carnaval é sem dúvida alguma a do bloco infantil “Gigantes da Lira”, de laranjeiras, homenageando o centenário do compositor (por exemplo,da marchinha Allah-la-ô, de 1941, em parceria com Haroldo Barbosa. Ouça-a aqui, na interpretação de Carlos Galhardo, um dos favoritos do cast da Nacional à sua época) e caricaturista Nássara. Linda! Quase fiz oferta pra um dos caras do naipe de Tuba, ao saber que tinha se esgotado.

Antes de terminar, cabe só falar da estranha sorte que tive. Na madrugada em que aumentou o ônibus e o gaiato do trocador quase me deu o troco errado, uma moça deixou cair 10 centavos de seu bolso. Estava em pé e vi, peguei a moeda e entreguei à moça, que agradeceu . E não é que no dia seguinte deixei cair 10 reais de meu bolso ao puxar uma indumentária carnavalesca e um senhor me avisou do ocorrido. Prova de que ainda há gente honesta por aí. Se houver alguma relação de causalidade e proporcionalidade, vem mais coisa boa por aí. No mesmo dia, usando a nota recuperada pra comprar uma cervejinha pra mim e uma água para meu amigo folião PC, que não bebe (pois é!) – estava devendo dois reais a ele -, o ambulante me devolveu dois reais a mais no troco. Novamente, fui correto e devolvi a grana que não me pertencia. Será que tem 200 pilas me esperando?!  Hehehe, não sei, mas acabei de achar outra nota perdida em meu bolso.

Que todos possam aproveitar a seu modo o carnaval, a invenção do diabo que Deus abençoou. E que não venham por corda no meu bloco, nem dar ordem ao pessoal, que a gente não precisa que organizem nosso carnaval!

Até depois de quarta-feira!


Zé Luís, um folião

4 fevereiro, 2010

Nessa época em que o blog está quase monotemático, lembrei-me de uma historinha que ouvi por aí…

Zé Luís é um típico folião. Típico não, praticamente um mártir, um símbolo do carnaval.

Em seus longos anos de estrada, Zé Luís provou a todos ser uma das figuras mais cativantes existentes na cidade, quiçá no país, quiçá no mundo. Sempre foi um sujeito boa praça, honesto, de bom diálogo, mas ficou marcado após um episódio envolvendo ex-amigos que havia 17 não se falavam. Chamou os dois sujeitos para pequena conversa  - coisa de um minuto e meio, no máximo – e a reconciliação veio sem sinal de rusgas do passado. Também já conseguiu evitar que uma briga  de casal daquelas em que vasos são arremessados e espelhos quebrados se tornasse uma batalha judicial só com base na argumentação. E o ex-casal, hoje em dia, se relaciona como melhores amigos. 

A partir daí, sua fama somente cresceu. Chegaram a dizer inclusive que,  tamanho o carisma da figura, conseguiria resolver o conflito entre Israel e Palestina em poucos dias. Com ele não havia problemas sem solução, nunca. Até campanha foi lançada por seus amigos, abaixo-assinados foram distribuídos e galhardetes com o nome de Zé Luís se espalharam pelo centro da cidade para uma eventual e simbólica eleição de “homem do ano”.  Mas Zé Lúís nunca foi chegado a essas vaidades, pois repito, é uma figura fantástica e não se deixaria levar à toa.

No entanto, o que interessa falar sobre ele neste momento diz respeito ao carnaval. Funcionário exemplar, daqueles que não falta, não atrasa, não fala mal dos colegas pelas costas e ainda realiza suas tarefas com perfeição e maestria, durante o carnaval se transforma em outra pessoa. Após o fim do expediente, passa rapidamente em casa, toma seu banho, janta, relaxa brincando um pouco com as crianças, as bota pra dormir e, quando o relógio marca a passagem para meia-noite em ponto, dá um beijo na já resignada mulher e diz, sempre com as mesmas palavras:

- Até quarta-feira, querida.  

O funcionário padrão, pai de família, torna-se uma pessoa sem rumo, sem regras. Desaparece fantasiado pelas festas carnavalescas da cidade, aproveita o período como poucos encontrando a todos pelas ruas e retorna moribundo, fedendo a álcool, faminto, com as sobras de sua fantasia rasgadas e sem um tostão furado no bolso no amanhecer da quarta-feira de cinzas, conforme o prometido. Mais feliz do que pinto no lixo.

Acontece que, nesse último ano, alguns seus compadres resolveram homenageá-lo e o transformaram em enredo do desfile do bloco que organizam. Zé Luís, inicialmente, não gostou da ideia, mas aos poucos foi aceitando a pressão de seus amigos e resolveu comparecer à tal homenagem. Quebrou seu próprio protocolo carnavalesco e confirmou o horário exato, para não atrasar e perder o evento. Chegou ainda durante a concentração, com um copo trazendo o restinho de alguma cachaça comprada por aí pelos blocos matinais e comendo algo que parecia ser um salgado daqueles bem massudos, nem ele sabia ao certo o que comia.

Demorou a encontrar algum conhecido, porém, assim que o avistaram, logo o chamaram efusivamente aos berros, já alterados pelo consumo alcoólico:

- Graaaaaaaaande Zé!! Venha aqui, pegue uma dessas cervejas, hoje você é da diretoria.

Zé Lúís que já havia participado da fundação de outros dois blocos - que desfilaram, o primeiro, por uns 4 ou 5 anos seguidos, e o segundo, uma  única vez,  ocasião na qual todos encheram o saco de se preocupar com isso e decidiram curtir a folia livremente - obviamente, não recusou, mas por educação perguntou:

- Posso pegar assim, de graça mesmo?

Após a resposta afirmativa com a cabeça, Zé Luís foi levado para perto de seus amigos e esperou o bloco encher. Cumprimentou a todos, foi de latinha em latinha (bebendo todas até o fim pra não desperdiçar o pouco dinheiro arregimentado pelo bloco), falou com os músicos, deu uma olhada na letra do “seu” samba e aprovou. Mas, pouco antes do desfile começar, percebeu um cordão sobressalente, logo à frente da bateria, que sairia à frente do carro de som. Encucado e já encabulado, não se segurou e perguntou:

- Que porra de corda é essa?

Um dos organizadores, que, por acaso, não o reconheceu, respondeu com alguma educação:

- Esse espaço é só pra quem comprou a camiseta. Poderia dar licença, por favor.

Nisso, Zé Luís foi aos seus camaradas e perguntou se aquele troço era sério, ou se era só piada. Ao ouvir a resposta definitiva e afirmativa, Zé Luís não se conteve e explodiu:

- Cordão?! Abadá?! É essa a homenagem?! Não fico por aqui nem fudendo!

E, ignorando os apelos pelo seu retorno, tomou seu rumo, desaparecendo em sua saga pelos blocos do Rio de Janeiro.

Até mais!


Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.