Já volto a botar minha vida e o blog nos trilhos, mas deixa só eu dar mais um último pitaco sobre o carnaval. A parte mais intensa do ano, ironicamente, ocorre sempre em seu início, sob um calor de lascar. Carnaval é sempre um momento de emoções à flor da pele, mas o derradeiro me trouxe a sensação de que tudo estava muito mais emocionante. O choro-sorriso no início da madrugada de terça para quarta-feira não foi mero reflexo do entornamento biritesco em sequência de manhãs, tardes e noites afora, muito menos uma simples epifania do carnaval que findava, nem de todas as sensações que passaram e/ou ficaram durante os festejos. A cidade foi tomada de uma maneira que há muito não se via (eu, ao menos, nunca havia visto), deixando para as autoridades um papel nada mais do que secundário. Momo representou com maestria o papel que lhe foi conferido. Tomou conta da chave da cidade muito melhor do que as oficialidades. Só não precisava ter devolvido.
Durante o tríduo momesco, o povo tomou a cidade, fez valer seu poder sobre as ruas em locais inesperados, à revelia de organizações e ordens superiores. A inversão se concretizou. Por mais que as autoridades insistam em botar regras nos festejos, não têm a legitimidade, nem a capacidade para tal. Prova disso foi a questão dos horários de blocos e apresentações. Finalmente não saíram no horário estipulado pela Riotur, pequenos atrasos fizeram parte da festa. Mandou quem pôde, ou seja, o dono da festa da carne na terra, rei Momo, e obedeceram quem não teve juízo, ou seja, nós, os foliões, ávidos por uma brincadeira que tornasse o dia a dia menos chato e cinza.
O leitor mais atento e crítico, obviamente já percebeu que tudo isso dito acima está mais para o plano da representação, são alegorias (nada mais adequado para o período), sentido figurado mesmo. Toda essa imagem que esbocei, no entanto, não foge muito da realidade. Claro, da minha realidade, da realidade dos que passaram comigo, ou que encontrei na folia, felizmente. O carnaval dos meus foi, senão inteiramente, algo muito próximo disso. E a realidade não teria importância nenhuma se não trouxesse consigo altas cargas de emoção. E digo-lhes, nunca havia sentido tanta emoção, nos mais diversos sentidos quanto as que senti ao longo do derradeiro carnaval.
No entanto, se posso falar isso a respeito do carnaval dos meus, me sentiria um baita traíra se não examinasse o carnaval com olhares mais abrangentes. Afinal, o carnaval não é só dos nossos, mas do povo (e obviamente, os nossos fazem parte do povo), a cidade, suas ruas, rios, calçadas, praças, praias, morros e florestas são do povo, embora desde os tempos de colônia as autoridades busquem a negação dessa condição. O fenômeno que podemos observar nos últimos anos diz respeito à mercantilização e privatização dos espaços públicos e blocos do Rio com total assentimento da prefeitura e governo do estado (e isso não é exclusividade do Rio. Aliás, é um fenômeno nacional).
A intenção de transformar o carnaval carioca em uma espécie de franquia semelhante ao que é o Cirque du Soleil (vejam mais nesse obrigatório artigo do blog do Lúcio de Castro aqui), além do nojo que dá, é uma representação claríssima do que essa turma que nada entende do babado está a fazer com a festa das ruas do povo. Nada muito difícil de imaginar, vindo de um pessoal que escolheu como símbolo da Riotur um boneco chamado John Carioca, uma caricatura de turista. Nem o fato de serem eles caricaturas de autoridade torna o troço mais aceitável. Só mesmo quem não entende nada de Rio de Janeiro pra achar ótimo ter como símbolo de campanha para atração de turistas pra cidade um boneco com todo o jeitão de bobo alegre. Vejamos como exemplo o responsável pela secretaria de turismo (e consequentemente responsável pela organização do carnaval), Antonio Pedro Figueira de Mello, que é quem aparece ao lado do boneco, curiosamente também sempre sorrindo.
No mesmo movimento, o patrocínio dos blocos de carnaval também mostra a mercantilização dos espaços carnavalescos. Reitero o pedido, leiam o texto do Lúcio de Castro que expus o link acima, ele explica melhor do que eu poderia. Entre questões pertinentes, tais como “foi feita alguma licitação?” e “não seria essa mercantilização, que necessita, portanto, de um mercado consumidor para cumprir seu objetivo – o lucro -, a responsável pelo crescimento desenfreado de alguns blocos, bem como seria a patrocinadora também responsável por garantir a infraestrutura da folia – e não seria uma mera questão de culpar os foliões por eventuais sujeiras, mijões, apertos e confusões por problemas criados por outros, leia-se, esses megablocos e seus patrocinardores?” (pergunta grande, né? pois é, deveria ter uma resposta séria e menos fanfarrônica do que a do sr. secretário de turismo), outras merecem maior esclarecimento (deixa eu dar um ponto-parágrafo aqui pra não matar os asmáticos com falta de ar).
Aquela imensidão de guarda-chuvas azuis com o símbolo da cerveja da Ambev (ou Inbev, venderam aquela porcaria pros gringos), uma cerveja das que mais bebo (não falemos em quantidade, que na hora da conta depois de umas e outras o bicho pega), além de tornar o carnaval de rua quase monocromático naquela imensidão azul em nada semelhante ao mar, por estar interessada no potencial de mercado, privilegia alguns blocos em detrimento de outros. Daí que superlota blocos tradicionais, blocos “novidadeiros” (não achei outra expressão para esses novos tipos de bloco, sem juízo de valor, pois alguns são até bons) e outros blocos ficam sem verba para desfilar, como foi o absurdo caso do Rancho Carnavalesco Flor do Sereno, que dá uma aula de música, não ter verba para realizar seu já tradicional baile ao ar livre, em copacabana. A questão que surge, portanto, é: essa porcaria toda padronizada e nada espontânea que procuram promover é carnaval?
Entendam que o problema não é especificamente a existência de patrocínios para blocos, afinal deixar tudo nas costas da prefeitura seria um disparate, visto que a natureza dos blocos é sua espontaneidade e sua não dependência frente a regras e maiores formas de organização. A mercantilização, que define um padrão para os blocos, locais em que podem sair em virtude do tamanho que alcançaram (veja o exemplo dos blocos que são obrigados a sair na orla, Rio Branco ou Presidente Vargas – antes e depois do carnaval – e no aterro do Flamengo) e às vezes até o tipo de público desejado, “matam” (embora seja notório que nunca conseguirão acabar com a vontade do povo de brincar nesses dias de festa) o carnaval, minam a espontaneidade e – o que é pior de tudo – criam e disseminam uma espécie de folião que foge completamente do que deveria ser o folião carnavalesco: aquele que vai aos blocos sem preocupação com fantasias, com a inversão da realidade, que se “veste”, no máximo (quando aceita tirar o boné), com um chapéu patrocinado por cervejarias ou bancos/instituições financeiras e desfila por aí sem camisa com espírito de micareta (aliás, poderiam fazer uma Cabofolia da vida com passagem de ida gratuita durante o pessoal pra ver se atrai essa galera). Não é o folião que brinca, que pula, que beija, que canta até mesmo depois de ficar rouco, é o que pega pelo braço, pelo cabelo e puxa a mulher na força bruta, o que começa a cantar músicas de torcida organizada mesmo perto da caixa de som a tocar outra canção, o que desfila num clima de indiferença e nariz empinado ao estilo do baixo gávea em seus piores dias, o que arruma confusão por um pisão no pé, o que bota um carro com o porta-malas aberto e som tocando hip hop ao final do desfile, enfim, o que mantém sua conduta do ano inteiro nos festejos de Momo.
Felizmente, mesmo se formos pensar que vivemos numa sociedade que a cada dia mais se “emplayboyza”, podemos fazer o carnaval de outra forma. Se avacalham o carnaval de inúmeras maneiras, como fizeram com a zona sul ao tornarem seu carnaval praticamente impraticável, com algumas exceções, o povo reinventa a festa, busca novos lugares, percorre a cidade atrás de novos caminhos, faz a bagunça chegar no aeroporto, sair do centro da cidade, atravessar o aterro até a praia de botafogo e desaguar no mar, por mais suja que seja a água de lá; se tornam o carnaval oficial da Sapucaí um absurdo de caro, têm que se contentar com a arquibancada do povão sempre lotada, com milhares de pessoas na concentração e dispersão; se tiram o povo de dentro da avenida no carnaval oficial, o povo brinca longe dele e não sente falta, pois com fantasia mais leve e sem gente mandando fazer coreografias e preencher buracos é muito melhor; se tentam colocar cordas e “abadás Vip”, ouvem a revolta de pessoas a gritar ”não põe corda no meu bloco!” (um fenômeno que começa a ganhar forças até na Bahia, finalmente); se proíbem blocos de desfilar, os blocos desfilam ainda assim, clandestinamente, com ambulantes autônomos, ou com os foliões correndo desesperados para o primeiro boteco que encontrarem aberto (aliás, é necessário levantar o tema, os botecos pés-sujo se tornam cada vez mais raros em virtude da especulação imobiliária que joga o preço de seus aluguéis nas alturas – ainda assim, mesmo sem esses, que não desaparecerão completamente, o folião inventa uma nova forma de achar algo para molhar a garganta, nem que seja carregando seu próprio isopor), mas sem abdicar da festa.
Pra concluir, a festa é do povo, a festa é o povo, que não sobrevive sem festa. A emoção é necessária para aguentar e buscar transformar esse mundo ao avesso. Pronto, agora dá, enfim, pra retomar a vida.
Até mais!
P. s.Você que chegou bravamente até aqui, ganha de presente duas músicas que dizem muito sobre o tema, a primeira, de Elton Medeiros (sugestão do mano Pedro Veríssimo. Só consigo botar o link) e outra de João Bosco e Aldir Blanc:
http://grooveshark.com/#!/s/Avenida+Fechada/2YD4PX?src=52YD4PX?src=5

Escrito por Pela rua 


