Antes de mais nada, não estou pedindo pra saírem mijando por aí pelas ruas. O cheiro que fica nas ruas causa sim incômodo e na existência de banheiros, estes continuam sendo a melhor opção. Também não estou defendendo atos de violência urbana durante os festejos de Momo. Brigar na rua é coisa de babaca. Faço mais uma defesa do carnaval como momento de inversão. Tá certo, explicarei melhor, aguentem só um pouquinho.
Vivemos em um mundo cada vez mais insuportável, com pouquíssimos fazendo a festa a custa do sofrimento e da vida da imensa e esmagadora maioria. Até aí, nenhuma novidade, seria apenas mais um dentre os milhões de comentários a lamentar a vidinha de merda que poderosos impõem à humanidade diariamente. Uma população que aguenta cada tranco do jeito que aguenta, deve ter ao menos os dias do ex-tríduo momesco (atualmente já são quatro, cinco, ou até mais dias de carnaval) para realizar a tão necessária inversão na sociedade.
Foi só eu passar por aproximadamente duas semanas com pouco contato com a realidade que bombas e mais bombas estouram aqui no Brasil. Por preguiça e outras razões, não cabem ser mencionadas por ora (andaram até falando por aí que eu estava ficando louco, né não, Pedrinho e João?!), mas principalmente mesmo por preguiça, deixei de escrever por estas páginas. Pra não passar em branco, as últimas semanas, é complicado assistir calado às barbaridades que aparecem (ou são solenemente ignoradas) pelos meios de comunicação tradicional, por exemplo. O massacre de Pinheirinho no interior de São Paulo, uma renovada versão do despejo na favela cantado por Adoniran décadas atrás, um repeteco das práticas Alckimistas desde que esse desgraçado se elegeu pelo estado de lá, a conivência da justiça paulista, que passou por cima do pacto federativo, ignorando uma decisão do Supremo, a polícia sanguinolenta como sempre. Por aqui, as remoções do prefeito Paes, relembrando o governo Lacerda, que tacava fogo nas favelas para depois desapropriá-las e deixar o terreno livre para especuladores imobiliários fazerem a festa, não ficam por menos. Os absurdos pró-Cabral, o pior governador que esse estado já teve, mau caráter da pior estirpe, que some na hora de dar explicações, morador de Paris, mancomunado com grupos empresariais (Cavendish e a turma da Delta, Eike Batista, o novo dono do Rio, entre outros) em detrimento do interesse geral de atendimento ao povo que um cargo público deveria zelar, única e exclusivamente. Enquanto isso, as televisões silenciam ou distorcem fatos sobre as péssimas condições de professores, médicos, profissionais da educação e saúde, bombeiros, policiais e etc.
Enfim, vivemos em um lugar difícil e nada bom de se viver (ao contrário do que dizia o jingle do Cabralzinho nos anos 1990 e 2000, aquele do “pra ficar legal”), apesar das sutis belezas da vida e das pessoas boas que nos cercam (e felizmente, são muitas, muitas! Certamente em número muito maior do que os imprestáveis), que nos fazem aguentar e seguir em frente. Portanto, não tem essa de pilantras como Daniel Dantas, Sérgio Cabral filho, Geraldo Alckmin, Paulo Maluf, José Sarney, Eduardo Paes, a família Maia, Nadinho, Jerominho, Naji Nahas, Júlio Lopes, os ministros mambembes, enfim toda a sorte de pulhas que existem país afora, o carnaval é uma festa do povo e para o povo.
Sendo os dias de folia feitos para o povo e pelo povo, não podem faltar nas fantasias, cartazes, manifestações corporais, emocionais, nas gargantas e olhares a expressão de seus sentimentos. Alegrias, angústias, sofrimentos, amores, desenganos, protestos, desesperos, êxtase, tudo tem espaço durante a festa. Tudo tem espaço na inversão. é hora de tomar a cidade, o espaço que diariamente nos é negado, ruas e praças, é hora da subversão, da inversão de valores e da sociedade. Não há mais ordem sobre os foliões, o único decreto do rei Momo é que todos devem brincar, a galhofa está liberada. Inclusive para os tristes e inquietos, que entrem na dança da inversão de valores de sua vida a brincar como crianças.
Há aqueles que dizem ser o carnaval um período de alienação, em que todos esquecem dos problemas que enfrentam na vida para se interessar apenas em brincadeiras, em pessoas seminuas, enfim em uma farra descompromissada com a realidade, enquanto “lá em Brasília” (ah, como eu odeio expressões desse tipo!), o pessoal rouba na cara de pau. É um argumento típico de quem reduz política a esses ambientes (direitista a dar com o pau, sejamos claros). Política se faz na vida cotidiana, vivendo a cidade, suas mazelas e oportunidades. É por isso mesmo que reafirmo a idéia do carnaval como subversão. Ninguém fica satisfeito com roubalheira ou com o favorecimento a um ou outro picareta em detrimento do bem estar público, de maneira alguma. O carnaval é sim momento de se mostrar, em fantasias, cânticos, cartazes e de todas as formas possíveis, toda a indignação que nos deixa inebriados a rodar a cabeça, ano após ano, com a realidade, mas de um modo diferente. São dias em que o povo tem, antes de mais nada, de mandar todos os escusos nomes da política-empresarial e afins se danar.
E que se danem mesmo, que sumam! Após a morte na quarta-feira, retomamos nossos protestos e nossas vidas regulares, mas antes vamos brincar. Os protestos carnavalescos ocorrem, mas sob a forma de alegorias. O carnaval é uma alegoria da vida, ora bolas! Por isso já preparei meu pedido para que Momo engula a chave da cidade e que não devolva aos crápulas. A cidade é e tem que ser do povo que se organiza mesmo na desordem. As praças e ruas são nossas!
Até mais!



Escrito por Pela rua 














