Abaixo-assinado – um conto escolar

Os alunos ainda se adaptavam às recentes mudanças em suas vidas, afinal, poucos meses atrás eram poucas turmas com não mais do que vinte alunos, uma única professora, que sabia o nome de todos e suas cabeças ainda funcionavam como devem funcionar as cabeças de crianças, sem maiores malícias além daquelas típicas maldades infantís que não são passíveis de represálias, justamente por serem “coisas de criança”, nem picuinhas e outras formas de intriga. Ou se era amigo, ou se era inimigo, uma simplicidade característica do universo infantil. Agora não, novos alunos, turmas um pouco maiores (chegavam a 25 alunos por turma) e em maior quantidade, vários professores, que demoravam a decorar o nome dos alunos todos, sem falar no embaralhamento das turmas que separavam por boa parte do dia pessoas que se conheciam desde a pequena infância.

A idade da garotada também era um fator de preocupações constantes. Uns mais cedo, outros mais tarde começavam a entrar naquela fase que se convencionou chamar de pré-adolescência. Fase de angústias, de incertezas que somente fazem aumentar, de novos sentimentos, de revoltas, enfim, um redemoinho na cabeça não só daquela, como de toda juventude.

As turmas embaralhadas, por sua vez, ao invés de permitir uma ressocialização e ampliar os laços de amizade, acabavam por isolar alguns daqueles garotos, que não sentiam pertencer àquele grupo, ou ficavam desconfortáveis frente a essa nova situação, embora fizessem parte de uma mesma turma na lista de chamada. Novas amizades surgiam, mas, no entanto, sempre havia o caso de uma pessoa que parecia não conseguir fazer amizade com ninguém.

Foi mais ou menos isso que aconteceu com uma das meninas daquela escola. Aluna nova da escola, por algum motivo a menina não conseguia se adaptar à turma, não tendo feito nenhuma amizade com o pessoal da sala em meses. Sentava-se no fundo, numa carteira isolada, sem praticamente conversar com ninguém. Na saída, conversava com uns poucos que voltavam no mesmo ônibus escolar (na ida não, pois de manhã sabe-se que quase ninguém abre a boca durante a viagem – tirando pra bocejar -, buscando prolongar o sono interrompido), que acabaram por virar seus poucos amigos de colégio.

E eram, na realidade, muito poucos mesmo. A menina também, de gênio forte, costumava criar pequenos atritos com os outros alunos, inclusive com seus amigos de ônibus escolar. Certo dia, no início do segundo semestre, por alguma irritação típica da idade, o atrito se deu com toda sua turma, dentro da sala de aula, mas antes do professor entrar. Também por provocação típica da idade, todos os meninos e meninas da turma se juntaram contra a pobre da garota, numa discussão que chamou a atenção dos alunos das outras salas, que correram para ver.

Na saída, todos os alunos já sabiam do acontecido. Tendo sido a última a sair, por conta de uma conversa com a direção para exclarecer os fatos, dezenas de olhos e dedos apontavam em direção à menina na saída da escola, sob exclamações e sussurros de “então foi ela!”. A menina correu e, ao entrar no ônibus escolar, talvez pelo nervosismo que toda aquela situação lhe causara, foi ríspida com seus outros colegas esbravejando horrores. Um dos meninos com quem mais conversava – e implicava, pois naquela idade todos ainda eram mais crianças do que qualquer outra coisa – , em virtude da afinidade que criaram ao longo de um semestre e por serem os últimos deixados em casa pelo ônibus, a partir daquele dia (após uma simples pergunta de “o que houve?” e uma ríspida resposta “não me encha o saco! Vai se danar, seu idiota!”), cortou relações e não mais lhe dirigiu a palavra.

No dia seguinte, ao invés de a poeira baixar, a situação permaneceu sob clima de tensão entre as meninas e seus colegas de sala. Foram crescendo os rumores sobre uma provável mudança de sala da garota. E era verdade, a garota havia pedido para ser transferida de turma, iria para a turma de seus poucos colegas mais chegados com quem viajava no mesmo ônibus escolar.

Ao saber da notícia, surpreendentemente a turma ficou revoltadíssima e não quis de maneira alguma aceitar a menina para se juntar a eles. Logo surgiu a ideia de um abaixo-assinado pedindo que a menina não fosse integrada àquela classe sob argumentos dos mais esdrúxulos, que iam da lotação da sala até a perturbação da harmonia do convívio de todos por ali. A garotada resolveu inaugurar sua verve participativa logo numa situação de intolerância, coisas da democracia.

Feito o texto do abaixo-assinado, em conjunto, faltava a coragem pra botar a cara naquela lista. Surpreendentemente, mas não tanto assim, quem primeiro se apresentou e inaugurou as assinaturas foi justamente um de seus melhores amigos do ônibus escolar, aquele que ainda se encontrava magoado por conta dos desaforos que levou pra casa por se preocupar com o estado da menina.

Quase todos assinaram. Quase todos porque apenas um, um menino tido como o doidinho da turma, se negou a botar seu nome naquela lista. Loucura não é exatamente uma questão de aparência. Tudo bem que não se passava de um bando de crianças fazendo uma atitude impensada, mas às vezes a sensatez é  a maior virtude daqueles que são julgados por serem diferentes. Bom, voltando à historinha, tudo aquilo não poderia dar em outra coisa senão num senhor esporro da diretoria em toda a turma no dia seguinte, quando lhes chegou o abaixo-assinado em mãos, salvo o até então doidinho que foi enaltecido e utilizado como exemplo de pensamento maduro (algumas menininhas ficaram loucas pelo rapazote, mas aí já é outra história).

Não é nem preciso falar que todos se arrependeram da burrada do dia anterior. Todos pediram desculpas à menina e ela acabou integrada à turma. Apesar de todo esse início conturbado, quase tudo transcorreu normalmente no primeiro dia na sala nova. Quase tudo, pois, apesar de ter sido o primeiro a fazer o pedido de desculpas à menina, a situação ainda não estava como antes entre ela e aquele que assinara primeiramente o nome na lista, seu melhor amigo. Havia um desconforto nas conversas entre os dois, corriqueiras, meramente protocolares, sem contar que as pirraças costumeiras cessaram. 

Na sexta-feira daquela mesma semana lá estavam os dois, voltando pra casa no ônibus escolar, jogando um jogo com outros colegas, todos concentrados no fundo do ônibus. Os colegas foram descendo um a um, até que, por falta de jogadores suficientes, o jogo terminou. Todos desceram e sobraram apenas os dois, naquele desconforto por estarem pela primeira vez somente o dois frente à frente após toda aquela celeuma (a menina faltara na véspera e na antevéspera o menino não havia voltado pra casa de ônibus). Ficaram sentados lado a lado nas últimas cadeiras à esquerda, quietos, sem demonstrar qualquer reação por uns cinco minutos. Até que num gesto de bravura, pouco antes da casa da menina despontar na última curva do caminho, o menino se virou para a garota com um pedido de desculpas, para em seguida lhe dar um beijo na boca, um selinho que durou não mais que uns dois segundos, provavelmente o primeiro beijo de ambos, bastante ingênuo, inocente.

- Claro que te desculpo. E você, me desculpa?

- Desculpo.

A partir daquele dia, sentaram-se lado a lado na sala por todos os dias até o final do ano. No ano seguinte, a menina trocou de escola.

Até mais.

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