O Futebol é quem perde

O campeonato brasileiro chega ao fim, mas todo dia surgem fatos novos a respeito do esporte que um dia foi chamado de bretão. Isso por um lado é bom, pois apimentam as discussões dos bares por aí afora. Por outro lado, as notícias não são nada boas, em vários sentidos, seja no lado esportivo, seja no lado humano, ou até mesmo no campo (ou melhor, fora do campo) dos negócios, maracutaias e trambiques que veem à tona ou ficam subliminarmente escondidas por aí. Mas, antes de se idignar, fiquemos com o lado humano.

O primeiro deles, obviamente, foi o falecimento precoce do ex-jogador e doutor Sócrates, craque dentro e fora dos gramados, capitão daquela baita seleção de 1982 (que seria melhor ainda não fossem algumas teimosias do técnico Telê, que como todo mundo possuía seus defeitos), pela qual vale sempre repetir aquela máxima que já virou clichê: não ganhou a Copa? Azar da Copa! Algum filho sem mãe recalcado pode vir aqui e retrucar dizendo que ele fumava, era alcoólatra, bebia mesmo após já ter tido seus problemas, enfim aquele papo no estilo Dráuzio Varela no Fantástico (não acho o Dráuzio de todo ruim, apenas tenho enormes ressalvas quanto a seus quadros televisivos) ou até mesmo de tom moralista. Todo mundo sabe que o consumo excessivo dessas substâncias pode causar sérios problemas de saúde aos usuários e, eventualmente, aos próximos, mas ao mesmo tempo ninguém pode tirar o direito do cara de aproveitar a vida do jeito que quiser, e foi o que ele fez. Li isso em vários blogs e textos, como por exemplo o blog do Flavio Gomes, da Espn Brasil, que tem uma frase muito bacana: “Sócrates morreu de tanto viver, que é uma boa forma de morrer” (leia o texto aqui).

Mas o mais importante que Sócrates fez fora de campo, sem dúvida alguma, foram suas atitudes e posições políticas. Jogador politizado é outra coisa, nunca coadunou com interesses escusos de dirigentes, empresários e outros canalhas metidos com futebol, se posicionou a favor da abertura política e democratização durante a ditadura, enfim não há o que contestar nesse sentido. Sua comemoração característica, o braço erguido, imortalizado pelo cracaço Atleticano Reinaldo, simbolizava o pensamento socialista e anti-opressor vigente. Poucos se rebelavam, por serem poucos os conscientes ou pelo fato de o medo ser generalizado (“coronelizado”, “majorizado”, “capitaneado”, enfim todas aquelas patentes que o pessoal aprendeu jogando combate). O bom time da Democracia Corinthiana é exemplo disso. Só não foi mais emblemático porque (sem desmerecê-los, de forma alguma) havia times melhores do que eles nos anos 80, especialmente no Rio. Ainda assim, conquistaram seus títulos.

Uma coisa é certa: o Doutor não coadunava de maneira alguma com as políticas e os pulhas que vem comandando o futebol brasileiro e mundial de maneiras escusas. Em semana que se divulga mais uma denúncia contra o bicentenário brasileiro ex-presidente da Fifa, João Havelange (nascido Jean-Marie Faustin Goedefroid de Havelange – valeu sr. google!), um dos maiores responsáveis pela transformação do futebol em negócio, vale sempre relembrar aquela máxima de que “vaso ruim não quebra”. Vale o mesmo para figuras como o inescrupuloso Ricardo Teixeira, mas falar mal dele não é novidade. Outra  figura ingrata que o Doutor Sócrates vinha descendo o malho por conta, entre outras coisas, de seu relacionamento com o atual e ad eternum presidente da CBF é o tal do Andrés Sanchez, presidente do Corinthians, outrora braço-direito do ex-manda-chuva do clube, que saíra escurraçado pela torcida e demais conselheiros, mas que agora praticamente mantém uma relação de menina com seu ursinho de pelúcia com o sr. Teixeira e acabou por ganhar um cargo inventado de presente. O empreendedorismo do ex-atacante Ronaldo, atual Fofômeno (salve Bussunda!), também era alvo de críticas ferrenhas.

 
 

As relações entre cartolas e escroques da CBF acabou pondo em dúvida uma série de resultados e, consequentemente, o campeonato desse ano. Não estou aqui para julgar a regularidade do campeão de 2011, inegável, mas apenas para levantar, mais uma vez, o que durante meses foi reclamado por alguns torcedores. Não vou nem fazer piada com o vice-de-novo do Vasco (afinal já foram tantas), mas que alguns resultados ficaram em suspeita, especialmente após a aproximação fraternal entre aquela turma dos manda-chuvas, ah, isso ficou. Vascaínos reclamaram de uma série de gols mal anulados, expulsões sem explicaçõe se afins, que realmente sacanearam o time de São Januário, no entanto acho que no ano anteiror o Fluminense foi até mais garfado e ainda assim levantou o caneco (fato é que o time tricolor era muito melhor mesmo).  

O medo que essas relações escusas entre a cartolagem, empresários e demais safados de plantão está na possibilidade de se avacalhar de vez a maior paixão dos brasileiros (“a nível de” esporte, gente!). O Maraca, depredado, virou objeto de desejo de Eike Batista, que quer transformá-lo num lugar para eventos variados (o que seria sepultar de vez o gigante, é preciso reagir!), o Itaquerão (ô nome horroroso!) está sendo dado de presente sem custos pro Corinthians (não tinha um duto da Petrobrás lá que tornava a empreitada, no mínimo, perigosa?), conluio de Teixeira e Sanchez, Ronaldo praticamente sendo escolhido bola oficial da Copa, enfim, não sei onde isso vai parar, mas coisa boa da mão dessa gente não virá. Precisamos de mais gente do meio do futebol com capacidade de protestar e atuar politicamente, inclusive denunciando de dentro eventuais esquemas (nesse ponto, Romário continua surpreendendo e mostrando que é rei).

Voltando a falar de pessoas boas, essa semana também trouxe outro fato triste, ao menos para a massa Rubro-negra de todo o Brasil, foi a despedida de um grande ser humano do clube da Gávea. Ronaldo Angelim, a humildade em pessoa, autor do gol do título de 2009, o magro de aço, o verdadeiro Ronaldo, maior do que muito marketing de jogadores que após se aposentarem só jogam conta a classe.

Provavelmente haverá alguma homenagem a esse ser humano na maior acepção da palavra, mas sempre será pouco. Ele que chegou em 2005, seria reserva em todos os times, mas ano após ano provou ser mais jogador do que Irineus e Moisés da vida, não perdendo o posto até onde as pernas lhe permitiram jogar em alta performance. Não foi brilhante, mas deu um banho em muito projeto de craque. Uma pena ter feito seu último jogo por causa de mais uma invenção de outro ex-técnico e “ex-croque”, especialista em queimar de promessas a veteranos, que o tacou na fogueira após meses sem jogar, com a função de ser a única peça de marcação do lado esquerdo contra um time que “só tinha lado direito”, veloz  e com alguma habilidade. Mas essa imagem rapidamente será apagada da lembrança de todos, o que ficará será a imagem do jogador modesto, torcedor, que passou um campeonato inteiro jogando e só levou um cartão amarelo por injustiça de um juiz que achou que sua queda no chão após um tranco fora cêra, o cara que ia para os treinos de carona ou no ônibus do clube, o cara que após a conquista do Hexa foi esperar sua mulher lhe buscar na rua escura ao lado da sede da gávea, o cara que assumia não estar jogando nada, o cara que fez gol de mão e após intervenção do repórter retrucou “eu ia cabecear, mas fui empurrado, bateu na mão mesmo”, o cara que com um ano e meio de clube, sem fazer autopromoções, ganhou uma bandeira de torcida organizada com seu rosto e nome (merecidíssima, por sinal, assistia aos jogos sempre próximo da tal bandeira), enfim O cara.

Os leitores que corajosamente chegaram até aqui a essa altura devem estar se perguntando o que tem a ver o … com as calças, afinal Sócrates era politizado e aparentemente Angelim não. Realmente são duas personalidades diferentes, marcantes à sua maneira, que farão uma falta danada para o futebol. Infelizmente, o ”Magrão” Sócrates nos deixou, mas o “Magro de aço” Angelim ainda tem alguma lenha para queimar, provavelmente na Fortaleza que o tornou conhecido pro futebol.

Não podemos jamais nos esquecer de exemplos como esses. Que continuem aparecendo jogadores assim, ao contrário, o futebol é quem perde. Vai ser um saco esse mês sem a bola rolar.

Até mais!

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