Só pra não perder a chance de dar uma última limada no ano

30 dezembro, 2011

Pretendo ser breve, mas vocês sabem da minha dificuldade. O que não falo com a boca, sai por palavras escritas ou digitadas. Pode ser por timidez, que é uma merda, mas a garganta sempre rouca, é outra. Venho agora descer rapidamente o malho nas mudanças que a cidade do Rio de Janeiro vem sofrendo, em ritmo acelerado, uma após a outra, num processo que teve início por conta da escolha da cidade como sede das olimpíadas de 2016 (já falei por aqui que não sou contrário às olimpíadas, mas o fato é que não desperdiço nem lenha no fogo por esses caras do COB, da prefeitura, do governo do estado, ou até mesmo um ou outro do ministério dos esportes).

A série de obras que vem sendo realizadas, expressas na infinidade de placas de “Desculpe o transtorno” que vemos por aí, vem provocando mudanças que a população ainda não se deu conta. O problema nisso tudo não está no inferno que se tornou a realização de determinadas travessias pela cidade nos horários mais cheios, pois espera-se que essas obras um dia se concluam, mas sim nas mudanças que elas irão trazer ao carioca, no seu conhecimento sobre e no seu jeito de tratar com a cidade, de como utilizar os espaços públicos.

Deixem-me explicar, essas obras, tais como a construção de corredores expressos para ônibus, construção e demolição de viadutos, túneis, espigões, etc. trazem um impacto para o cotidiano da população, não necessariamente ruim. Se sair a demolição do viaduto da perimetral, por exemplo, não há dúvidas de que a vista da cidade ficará mais bonita. No entanto, qual o projeto para compensar essa via a menos no local? Nada está muito claro, até hoje, com obras já em andamento na região do “Porto Maravilha” (aliás, que nomezinho, hein?).  Está no projeto dessa gente, ainda, a construção de enormes arranha-céus na região portuária, que descaracterizariam a porta de entrada do Rio. Ainda assim, poderiam me chamar apenas de conservador por uma crítica dessas (afinal, porque não modernizar a baía de guanabara? O Pão de Açúcar, com suas velhas rochas arredondadas, traz uma ideia de rusticidade, está ultrapassado, não é em nada condizente com a moderna visão que queremos da cidade maravilhosa, queremos gigantes prédios espelhados, é preciso mudar, ou mudar de vez!). No entanto, esses modernosos prédios, perfeitos para a realização de negócios (sabe-se lá de qual ordem), somente seriam possíveis com a retirada das construções já existentes na região. E estão vindo, sob a forma de demolições (que não ocorrem apenas no “porto maravilha”, mas em toda a cidade). Há ainda o agravante, que vem sendo continuamente denunciado, mas nunca (ou quase) reportado de que essas demolições vem acontecendo nos mais esdrúxulos horários – de madrugada, ou quando os moradores saem para trabalhar - e nenhuma restituição é dada. Perdem suas casas, que muitas vezes lá estavam há décadas sem nenhum resquício de ilegalidade (porque essas autoridades, na ausência de argumentos acabam apelando até para pequenas irregularidades, como atraso na última parcela do IPTU, ou calçadas “perigosas”, pra desalojar na marra) e não recebem nem indenização por isso. A situação está complicadíssima, para dizer o mínimo, e a atuação está se baseando na covardia pura. Depois reclamam de ocupações cidade adentro.   

Outras mudanças que vem acontecendo, sem consulta prévia da população, são essas alterações nos pontos, itinerários e até nas cores dos ônibus. Quanto a essa última, desconfio até que porventura, num sopro de bom-samaritanismo de alguém de dentro da prefeitura, essas mudanças tenham vindo com boa vontade. A alteração dos números de algumas linhas não foi uma ação ruim, afinal seu prefixo diz respeito a um código pré-estabelecido (começando em 1 são as que vão do centro à zona sul, em 2, do centro à zona norte, em 3, do centro à zona oeste e por aí vai…), porém, a mudança das cores, do jeito que foi feita, parece piada de mal gosto. Se a intenção é “limpar” a imagem da cidade, padronizando as cores do ônibus, porquê cores em tons “bebê”, e os ônibus tendo a maioria branca? Os bichos eram todos coloridos justamente para uma pessoa reconhecê-los ao longe, de frente, de lado ou por trás (ui!), durante o dia ou à noite, e não por quaisquer questões estéticas envolvidas.

A implementação de corredores, feita sem consulta à população também é passível de críticas. Avisar à população com duas semanas de antecedência não é de maneira alguma a coisa certa a se fazer. Sem contar que os pontos se alteraram de tal forma que às vezes a pessoa terá de saltar três quarteirões antes ou depois do local habitual. Não sei se essa é a solução correta para o trânsito. Aliás, o que são essas siglas?! BRS’s, BRT’s, porque não botam a porcaria do nome em português?! Que eles são uns vendidos, todos sabemos, mas a língua falada por aqui ainda é o que Noel falava já ter passado de  português, o brasileiro. Como pequeno ato de desobediência civil, a partir de agora, os BRT’s só serão chamados por mim de VLP’s (veículos leves sobre pneus) – tem uma galera já falando nesses termos, não é invenção minha.

O que está muito claro nessas transformações todas é o fato de que tem um pessoal levando uma grana forte nesses “investimentos”. A máfia é a mesma, Fetranspor e especuladores imobiliários à la Delta. Enquanto não corrigirem o sistema de transporte, sempre serão necessárias novas obras e adaptações. Todo mundo está cansado (no final do ano então!) de saber que é preciso investir em trens, metrôs e transportes de massa, e não em coletivos.

Ia falar algo das ciclovias, mas fica apenas a breve crítica àquela papagaiada laranja que implantaram. Me recuso a fazer propaganda pra banqueiro.

Entrando novamente nos trilhos, estendo meu comentário para a necessidade de se fazer um transporte que ligue também as grandes cidades, como é por exemplo o eixo Rio-São Paulo, não apenas um trem-bala como pretendem, mas o retorno de um trem de passeio. Enfrentar trânsito nas estradas não é questão de se culpar o aumento do poder aquisitivo da chamada classe C (desculpem o atropelo nos argumentos, é final de ano, vamos assim mesmo). Estão com dinheiro pra viajar, ainda bem que estão, sinal de algo vem dando certo por aqui. Congestionamentos nas proximidades das metrópoles representam apenas a obsolescência de algumas vias, a ausência de investimentos por anos e anos na ampliação de acessos rodoviários, hidroviários e, principalmente, ferroviários. Torço pra que esse anel rodoviário dê uma melhorada no negócio, mas ainda não consigo (e nunca conseguirei, creio) engolir aqueles trens em perfeito estado que foram enterrados nos idos dos anos 1990. 

Pra manter a linha do inaceitável e terminar esse texto (que já me começa a dar nos nervos e eu não quero ficar nervoso na véspera de ano novo – e olha que nem falei dos absurdos casos do bondinho e das barcas), é impressionante como o poder público simplesmente caga e anda para o entorno da central e rodoviária (e “porto maravilha” e tudo o que não apareça como um lugar com “boas oportunidades para negócios”). Após voltar de um evento de arromba e pegar, pra variar, o ônibus que dá a maior volta, passamos uns  “bons” cinquenta minutos pra atravessar esse pequeno percurso, eu e Pedrinho, e pudemos minuciosamente observar como aquela região é abandonada, apesar das placas de “desculpe o transtorno”, “bueiros desnivelados”, entre outras.

Enfim, por esse ano chega! Um feliz ano novo pra todos! Lembrando sempre que ano que vem tem eleição, por favor, não façam a burrada de reeleger esse mauricinho nem o outro mauricinho, filho do ex-alcaide que desgovernou as terras de Cunhambebe por praticamente 16 anos (porque o Conde, mesmo brigado, era um mero boneco e fez o mesmo que o Cesinha, né?). Já basta ter que aguentar o Cabralzinho por mais três anos no governo do estado.

Até mais, até 2012!


Banheiros de Buteco (IX)

28 dezembro, 2011

O final de ano se aproxima, muitos são os motivos para se comemorar e as festividades que ocorrem em todos os lugares. Logicamente, nos botequins, a vida não poderia ser diferente. No entanto, essa nona edição da série Banheiros de Buteco possui algumas particularidades quanto a isso. Primeiramente, a ida ao boteco  em questão não se deveu a nenhuma festividade de final de ano, sendo praticamente rotineira pra alguns. Em segundo, fazia parte da despedida de uma pessoa da tradicional pelada da galera.

Se fosse apenas sua despedida da pelada, o problema seria apenas o de encontrar alguém com um faro de gol tão apurado e um fôlego pré-infantil tal qual o de sua pessoa. Acontece que João, o rapaz em questão, o cara com o qual provavelmente mais litros compartilhei da mesma garrafa, entre outras histórias que necessitariam de um série de postagens, resolveu sair do Rio de mala e cuia, deixando-nos desorientados. Vai ser foda aguentar essa cidade cada vez mais avacalhada pelas oficialidades sem o convívio direto e contínuo com esse cara, para dizer o mínimo. Felizmente, restam ainda muitos tão queridos como ele, além do fato de que sabemos ter sido essa mudança praticamente uma ampliação dos limites dos subúrbios da central. A experiência prática já comprovou isso.  

Bom, vamos falar do buteco. Conforme já adiantei, quinta-feira à noite rola a tradicional pelada da galera. Após a mesma, vez por outra o troço se estende até o bar próximo, situado na rua Gago Coutinho, número 51, ora apenas pra uma básica hidratação (comprove aqui), ora pra assistir a algum jogo da rodada, ora pra encher a cara mesmo. Na ocasião relatada, obviamente, a intenção foi fechar o estabelecimento. Além dos peladeiros, em peso e sobrepeso, figuras que por diversos motivos, que vão de contusões até os menos nobres trabalho e estudo no horário, não podem mais frequentar cotidianamente as disputadas pelejas, estiveram presentes. Sendo majestosamente atendidos pelo garçom Sabino, o melhor que conheço em toda zona sul, Zé, o dono, e aquele outro magrinho de cabelo preto que não lembro o nome nem por um decreto da presidenta, abrimos os trabalhos, em meio àquele tiragosto de batatinhas e azeitonas que os clientes habituais desfrutam por lá, graças ao Henrique, o primeiro assíduo da localidade dentre os da galera. O bar, antigamente conhecido como Adega 51 Cervejaria, hoje em dia atende pela alcunha de Baixo Gago. Um botequim espaçoso, com dois ambientes (ar-condicionado lá dentro), além da tradicional calçada, que não pode comportar mesas por conta da frescurite aguda do prefeito. Conforme vocês poderão ver, os donos não se importaram em manter a mística que construiu a história do lugar.

O primeiro sinal de que há um respeito pelas tradições do lugar está na manutenção do toldo com o nome antigo. Tudo bem que a troca do mesmo seria um custo para os donos, além do fato de que o atual está nos trinques, mas a manutenção de aspectos tradicionais faz toda a diferença na hora de conquistar a simpatia de seus clientes. Dá pra ter uma ideia da entrada do botequim também. Deem uma olhada vocês mesmos:

O segundo sinal está nas pedras portuguesas. Marca registrada da cidade maravilhosa, neste caso elas compõem o nome antigo do bar. Na foto é possível ler apenas parte do nome, pois achei que seria muita folga pedir pro pessoal do bar dar licença para uma simples foto. As pernas de Thiago (com sua chuteira nova) e Pedrinho, o joelho de molho, ficam em evidência:

Nesta terceira foto, quase abaixo do teto que abarca o boteco, na linha do balcão, o atual nome. Vou lhes dizer que essa história de “Rei do petisco” não é mera bravata. O cardápio variado de salgados, torresmos, esfihas (que saem que nem água, ou melhor, cerveja por lá – também pudera, são iguais às famosas do Largo do Machado), bolinhos de bacalhau, kibes, pastéis, porções de batata, entre tantas outras coisas (a comida é certamente um diferencial do botequim), faz a alegria da galera.

Feita a introdução, vamos ao banheiro, situado nos fundos à direita do ambiente refrigerado. A foto mostra a imagem que nós temos logo na entrada. Dá pra perceber de cara que é um espaço repleto de detalhes. A pia no canto direito, o mictório no esquerdo, o papel para as mãos no alto à direita, o papel higiênico e a lixeira ao fundo e a torneira do registro, verde, à esquerda. O banheiro comporta até duas pessoas, apesar de sua estreiteza. Os arquitetos têm muito o que aprender com a sabedoria popular na arte de otimizar seus espaços: 

Comecemos inversamente ao processo de utilizar o lavatório. Primeiramente vemos a pia, a saboneteira (para sabonetes líquidos) e a pontinha do porta-papéis (serão examinados detalhadamente mais tarde). Uma pia de quina, arredondada em sua abóbada, tendo o mármore em curva para não machucar os clientes. Prezando sempre pela higiene destes, sabonete e papel não faltam (e olha que na hora da foto – por conta do calor que fazia não foram necessárias tantas visitas –  já estávamos no adiantar da hora):

Virando o olhar para a esquerda, o mictório. Ligado por cima à tubulação do bar, o detalhe máximo da imagem em questão está no limão estrategicamente colocado em seu interior para diminuir o odor das águas que saem dos joelhos alheios. Este mecanismo não é nenhuma novidade, mas faz com maestria seu papel. Oito furinhos compõem seu ralo (dois escondidos pelo limão), um modelo clássico!

Seguindo em frente e virando à direita, chegamos agora no vaso sanitário. Não estava dos mais limpos, mas também pudera, o bar fecharia em menos de meia hora. A lixeira repleta de papel comprova que a movimentação por ali foi bastante intensa. A limpeza seria feita poucos minutos depois, pra deixar tudo nos trinques para o dia seguinte. A descarga de cordinha não foi flagrada, mas é perceptível pelo cano vertical grudado ao vaso. Nada a se queixar pelo adiantar da hora:

Como falamos anteriormente, o banheiro em questão é repleto de detalhes. Aproveitando a edição comemorativa de fim de ano, destrincharemos três aspectos minuciosos para vocês. O primeiro, a parede que separa a primeira parte do reservado, onde ficam a pia e o mictório, da segunda, local da privada. De boa altura, cobre bem a visão de eventuais curiosos, tendo ainda dois rolos de papel higiênico para possíveis emergências e reposições. Mais uma vez, a higiene em primeiro lugar. Ainda podemos observar a porta, de madeira, pintada de marrom escuro, trazendo esses adesivos que viraram moda nos carros de passeio, um adulto entre dois meninos (o segundo não aparece) e duas bolas de futebol, representando parte da família de alguém de lá (não sei se é do Zé, pois sei que ele tem uma filha), ou talvez uma mera alegoria a simbolizar o banheiro masculino.

O próximo detalhe traz os já mencionados porta-papel e saboneteira, ambos de composição plástica, um de tom bege e outro branco. O interruptor do banheiro surge como a novidade desta fotografia, raramente notado pelos frequentadores, apesar de não estar escondido, menos em situação de escuridão, na necessidade de se enxergar no breu para executar direitinho o objetivo proposto após adentrar no toalete (quando o bar está pra fechar, após a limpeza final, a luz é apagada). Ainda é possível ver a pontinha da torneira metálica da pia:

A última foto traz um detalhe no mínimo curioso. No extremo canto esquerdo, no teto, vemos esse buraco, sem utilidade e aparentemente sem explicação. Conjecturamos que está ali por ser um canto ausente de encanamentos, mas não há nenhuma certeza de nada. Fica a proposta para você leitor, mande uma cartinha (na seção comentários do blog) para o Pela Rua com sua opinião e concorra a um agradecimento pela sua participação, sempre benvinda:

Não é nem preciso falar que fechamos o bar. O grande Sabino ainda descolou aquelas últimas como cortesia, além de uns petisquinhos. Foi a primeira de uma leve série de despedidas encerradas na última rodada do brasileirão (quis propor ao João um brinde conjunto à aposentadoria de Angelim e à morte do doutor Sócrates, mas ele rejeitou humildemente a sua incursão neste seleto grupo). Saímos junto com o dono e funcionários, cada um pra um lado, afinal em buteco fechado não havia mais motivo para marcar território.  

Até mais! 

P.S. Que a série Banheiros de Buteco está aos poucos conquistando admiradores por todo o globo terrestre não há a menor dúvida. Mas, finalmente, temos a primeira contribuição, do leitor e amigo Cizenando Cipriano Jr., o Sicrano do multiconceituado (com razão) blog Pau Na Mesa. A dica não vem exatamente de um boteco, mas é de grande valia para futuros estudos. Vejam quanta beleza e inventividade na decoração do banheiro da Cachaçaria Dona Branca, em João Pessoa:  


O Futebol é quem perde

10 dezembro, 2011

O campeonato brasileiro chega ao fim, mas todo dia surgem fatos novos a respeito do esporte que um dia foi chamado de bretão. Isso por um lado é bom, pois apimentam as discussões dos bares por aí afora. Por outro lado, as notícias não são nada boas, em vários sentidos, seja no lado esportivo, seja no lado humano, ou até mesmo no campo (ou melhor, fora do campo) dos negócios, maracutaias e trambiques que veem à tona ou ficam subliminarmente escondidas por aí. Mas, antes de se idignar, fiquemos com o lado humano.

O primeiro deles, obviamente, foi o falecimento precoce do ex-jogador e doutor Sócrates, craque dentro e fora dos gramados, capitão daquela baita seleção de 1982 (que seria melhor ainda não fossem algumas teimosias do técnico Telê, que como todo mundo possuía seus defeitos), pela qual vale sempre repetir aquela máxima que já virou clichê: não ganhou a Copa? Azar da Copa! Algum filho sem mãe recalcado pode vir aqui e retrucar dizendo que ele fumava, era alcoólatra, bebia mesmo após já ter tido seus problemas, enfim aquele papo no estilo Dráuzio Varela no Fantástico (não acho o Dráuzio de todo ruim, apenas tenho enormes ressalvas quanto a seus quadros televisivos) ou até mesmo de tom moralista. Todo mundo sabe que o consumo excessivo dessas substâncias pode causar sérios problemas de saúde aos usuários e, eventualmente, aos próximos, mas ao mesmo tempo ninguém pode tirar o direito do cara de aproveitar a vida do jeito que quiser, e foi o que ele fez. Li isso em vários blogs e textos, como por exemplo o blog do Flavio Gomes, da Espn Brasil, que tem uma frase muito bacana: “Sócrates morreu de tanto viver, que é uma boa forma de morrer” (leia o texto aqui).

Mas o mais importante que Sócrates fez fora de campo, sem dúvida alguma, foram suas atitudes e posições políticas. Jogador politizado é outra coisa, nunca coadunou com interesses escusos de dirigentes, empresários e outros canalhas metidos com futebol, se posicionou a favor da abertura política e democratização durante a ditadura, enfim não há o que contestar nesse sentido. Sua comemoração característica, o braço erguido, imortalizado pelo cracaço Atleticano Reinaldo, simbolizava o pensamento socialista e anti-opressor vigente. Poucos se rebelavam, por serem poucos os conscientes ou pelo fato de o medo ser generalizado (“coronelizado”, “majorizado”, “capitaneado”, enfim todas aquelas patentes que o pessoal aprendeu jogando combate). O bom time da Democracia Corinthiana é exemplo disso. Só não foi mais emblemático porque (sem desmerecê-los, de forma alguma) havia times melhores do que eles nos anos 80, especialmente no Rio. Ainda assim, conquistaram seus títulos.

Uma coisa é certa: o Doutor não coadunava de maneira alguma com as políticas e os pulhas que vem comandando o futebol brasileiro e mundial de maneiras escusas. Em semana que se divulga mais uma denúncia contra o bicentenário brasileiro ex-presidente da Fifa, João Havelange (nascido Jean-Marie Faustin Goedefroid de Havelange – valeu sr. google!), um dos maiores responsáveis pela transformação do futebol em negócio, vale sempre relembrar aquela máxima de que “vaso ruim não quebra”. Vale o mesmo para figuras como o inescrupuloso Ricardo Teixeira, mas falar mal dele não é novidade. Outra  figura ingrata que o Doutor Sócrates vinha descendo o malho por conta, entre outras coisas, de seu relacionamento com o atual e ad eternum presidente da CBF é o tal do Andrés Sanchez, presidente do Corinthians, outrora braço-direito do ex-manda-chuva do clube, que saíra escurraçado pela torcida e demais conselheiros, mas que agora praticamente mantém uma relação de menina com seu ursinho de pelúcia com o sr. Teixeira e acabou por ganhar um cargo inventado de presente. O empreendedorismo do ex-atacante Ronaldo, atual Fofômeno (salve Bussunda!), também era alvo de críticas ferrenhas.

 
 

As relações entre cartolas e escroques da CBF acabou pondo em dúvida uma série de resultados e, consequentemente, o campeonato desse ano. Não estou aqui para julgar a regularidade do campeão de 2011, inegável, mas apenas para levantar, mais uma vez, o que durante meses foi reclamado por alguns torcedores. Não vou nem fazer piada com o vice-de-novo do Vasco (afinal já foram tantas), mas que alguns resultados ficaram em suspeita, especialmente após a aproximação fraternal entre aquela turma dos manda-chuvas, ah, isso ficou. Vascaínos reclamaram de uma série de gols mal anulados, expulsões sem explicaçõe se afins, que realmente sacanearam o time de São Januário, no entanto acho que no ano anteiror o Fluminense foi até mais garfado e ainda assim levantou o caneco (fato é que o time tricolor era muito melhor mesmo).  

O medo que essas relações escusas entre a cartolagem, empresários e demais safados de plantão está na possibilidade de se avacalhar de vez a maior paixão dos brasileiros (“a nível de” esporte, gente!). O Maraca, depredado, virou objeto de desejo de Eike Batista, que quer transformá-lo num lugar para eventos variados (o que seria sepultar de vez o gigante, é preciso reagir!), o Itaquerão (ô nome horroroso!) está sendo dado de presente sem custos pro Corinthians (não tinha um duto da Petrobrás lá que tornava a empreitada, no mínimo, perigosa?), conluio de Teixeira e Sanchez, Ronaldo praticamente sendo escolhido bola oficial da Copa, enfim, não sei onde isso vai parar, mas coisa boa da mão dessa gente não virá. Precisamos de mais gente do meio do futebol com capacidade de protestar e atuar politicamente, inclusive denunciando de dentro eventuais esquemas (nesse ponto, Romário continua surpreendendo e mostrando que é rei).

Voltando a falar de pessoas boas, essa semana também trouxe outro fato triste, ao menos para a massa Rubro-negra de todo o Brasil, foi a despedida de um grande ser humano do clube da Gávea. Ronaldo Angelim, a humildade em pessoa, autor do gol do título de 2009, o magro de aço, o verdadeiro Ronaldo, maior do que muito marketing de jogadores que após se aposentarem só jogam conta a classe.

Provavelmente haverá alguma homenagem a esse ser humano na maior acepção da palavra, mas sempre será pouco. Ele que chegou em 2005, seria reserva em todos os times, mas ano após ano provou ser mais jogador do que Irineus e Moisés da vida, não perdendo o posto até onde as pernas lhe permitiram jogar em alta performance. Não foi brilhante, mas deu um banho em muito projeto de craque. Uma pena ter feito seu último jogo por causa de mais uma invenção de outro ex-técnico e “ex-croque”, especialista em queimar de promessas a veteranos, que o tacou na fogueira após meses sem jogar, com a função de ser a única peça de marcação do lado esquerdo contra um time que “só tinha lado direito”, veloz  e com alguma habilidade. Mas essa imagem rapidamente será apagada da lembrança de todos, o que ficará será a imagem do jogador modesto, torcedor, que passou um campeonato inteiro jogando e só levou um cartão amarelo por injustiça de um juiz que achou que sua queda no chão após um tranco fora cêra, o cara que ia para os treinos de carona ou no ônibus do clube, o cara que após a conquista do Hexa foi esperar sua mulher lhe buscar na rua escura ao lado da sede da gávea, o cara que assumia não estar jogando nada, o cara que fez gol de mão e após intervenção do repórter retrucou “eu ia cabecear, mas fui empurrado, bateu na mão mesmo”, o cara que com um ano e meio de clube, sem fazer autopromoções, ganhou uma bandeira de torcida organizada com seu rosto e nome (merecidíssima, por sinal, assistia aos jogos sempre próximo da tal bandeira), enfim O cara.

Os leitores que corajosamente chegaram até aqui a essa altura devem estar se perguntando o que tem a ver o … com as calças, afinal Sócrates era politizado e aparentemente Angelim não. Realmente são duas personalidades diferentes, marcantes à sua maneira, que farão uma falta danada para o futebol. Infelizmente, o ”Magrão” Sócrates nos deixou, mas o “Magro de aço” Angelim ainda tem alguma lenha para queimar, provavelmente na Fortaleza que o tornou conhecido pro futebol.

Não podemos jamais nos esquecer de exemplos como esses. Que continuem aparecendo jogadores assim, ao contrário, o futebol é quem perde. Vai ser um saco esse mês sem a bola rolar.

Até mais!


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