Pretendo ser breve, mas vocês sabem da minha dificuldade. O que não falo com a boca, sai por palavras escritas ou digitadas. Pode ser por timidez, que é uma merda, mas a garganta sempre rouca, é outra. Venho agora descer rapidamente o malho nas mudanças que a cidade do Rio de Janeiro vem sofrendo, em ritmo acelerado, uma após a outra, num processo que teve início por conta da escolha da cidade como sede das olimpíadas de 2016 (já falei por aqui que não sou contrário às olimpíadas, mas o fato é que não desperdiço nem lenha no fogo por esses caras do COB, da prefeitura, do governo do estado, ou até mesmo um ou outro do ministério dos esportes).
A série de obras que vem sendo realizadas, expressas na infinidade de placas de “Desculpe o transtorno” que vemos por aí, vem provocando mudanças que a população ainda não se deu conta. O problema nisso tudo não está no inferno que se tornou a realização de determinadas travessias pela cidade nos horários mais cheios, pois espera-se que essas obras um dia se concluam, mas sim nas mudanças que elas irão trazer ao carioca, no seu conhecimento sobre e no seu jeito de tratar com a cidade, de como utilizar os espaços públicos.
Deixem-me explicar, essas obras, tais como a construção de corredores expressos para ônibus, construção e demolição de viadutos, túneis, espigões, etc. trazem um impacto para o cotidiano da população, não necessariamente ruim. Se sair a demolição do viaduto da perimetral, por exemplo, não há dúvidas de que a vista da cidade ficará mais bonita. No entanto, qual o projeto para compensar essa via a menos no local? Nada está muito claro, até hoje, com obras já em andamento na região do “Porto Maravilha” (aliás, que nomezinho, hein?). Está no projeto dessa gente, ainda, a construção de enormes arranha-céus na região portuária, que descaracterizariam a porta de entrada do Rio. Ainda assim, poderiam me chamar apenas de conservador por uma crítica dessas (afinal, porque não modernizar a baía de guanabara? O Pão de Açúcar, com suas velhas rochas arredondadas, traz uma ideia de rusticidade, está ultrapassado, não é em nada condizente com a moderna visão que queremos da cidade maravilhosa, queremos gigantes prédios espelhados, é preciso mudar, ou mudar de vez!). No entanto, esses modernosos prédios, perfeitos para a realização de negócios (sabe-se lá de qual ordem), somente seriam possíveis com a retirada das construções já existentes na região. E estão vindo, sob a forma de demolições (que não ocorrem apenas no “porto maravilha”, mas em toda a cidade). Há ainda o agravante, que vem sendo continuamente denunciado, mas nunca (ou quase) reportado de que essas demolições vem acontecendo nos mais esdrúxulos horários – de madrugada, ou quando os moradores saem para trabalhar - e nenhuma restituição é dada. Perdem suas casas, que muitas vezes lá estavam há décadas sem nenhum resquício de ilegalidade (porque essas autoridades, na ausência de argumentos acabam apelando até para pequenas irregularidades, como atraso na última parcela do IPTU, ou calçadas “perigosas”, pra desalojar na marra) e não recebem nem indenização por isso. A situação está complicadíssima, para dizer o mínimo, e a atuação está se baseando na covardia pura. Depois reclamam de ocupações cidade adentro.
Outras mudanças que vem acontecendo, sem consulta prévia da população, são essas alterações nos pontos, itinerários e até nas cores dos ônibus. Quanto a essa última, desconfio até que porventura, num sopro de bom-samaritanismo de alguém de dentro da prefeitura, essas mudanças tenham vindo com boa vontade. A alteração dos números de algumas linhas não foi uma ação ruim, afinal seu prefixo diz respeito a um código pré-estabelecido (começando em 1 são as que vão do centro à zona sul, em 2, do centro à zona norte, em 3, do centro à zona oeste e por aí vai…), porém, a mudança das cores, do jeito que foi feita, parece piada de mal gosto. Se a intenção é “limpar” a imagem da cidade, padronizando as cores do ônibus, porquê cores em tons “bebê”, e os ônibus tendo a maioria branca? Os bichos eram todos coloridos justamente para uma pessoa reconhecê-los ao longe, de frente, de lado ou por trás (ui!), durante o dia ou à noite, e não por quaisquer questões estéticas envolvidas.
A implementação de corredores, feita sem consulta à população também é passível de críticas. Avisar à população com duas semanas de antecedência não é de maneira alguma a coisa certa a se fazer. Sem contar que os pontos se alteraram de tal forma que às vezes a pessoa terá de saltar três quarteirões antes ou depois do local habitual. Não sei se essa é a solução correta para o trânsito. Aliás, o que são essas siglas?! BRS’s, BRT’s, porque não botam a porcaria do nome em português?! Que eles são uns vendidos, todos sabemos, mas a língua falada por aqui ainda é o que Noel falava já ter passado de português, o brasileiro. Como pequeno ato de desobediência civil, a partir de agora, os BRT’s só serão chamados por mim de VLP’s (veículos leves sobre pneus) – tem uma galera já falando nesses termos, não é invenção minha.
O que está muito claro nessas transformações todas é o fato de que tem um pessoal levando uma grana forte nesses “investimentos”. A máfia é a mesma, Fetranspor e especuladores imobiliários à la Delta. Enquanto não corrigirem o sistema de transporte, sempre serão necessárias novas obras e adaptações. Todo mundo está cansado (no final do ano então!) de saber que é preciso investir em trens, metrôs e transportes de massa, e não em coletivos.
Ia falar algo das ciclovias, mas fica apenas a breve crítica àquela papagaiada laranja que implantaram. Me recuso a fazer propaganda pra banqueiro.
Entrando novamente nos trilhos, estendo meu comentário para a necessidade de se fazer um transporte que ligue também as grandes cidades, como é por exemplo o eixo Rio-São Paulo, não apenas um trem-bala como pretendem, mas o retorno de um trem de passeio. Enfrentar trânsito nas estradas não é questão de se culpar o aumento do poder aquisitivo da chamada classe C (desculpem o atropelo nos argumentos, é final de ano, vamos assim mesmo). Estão com dinheiro pra viajar, ainda bem que estão, sinal de algo vem dando certo por aqui. Congestionamentos nas proximidades das metrópoles representam apenas a obsolescência de algumas vias, a ausência de investimentos por anos e anos na ampliação de acessos rodoviários, hidroviários e, principalmente, ferroviários. Torço pra que esse anel rodoviário dê uma melhorada no negócio, mas ainda não consigo (e nunca conseguirei, creio) engolir aqueles trens em perfeito estado que foram enterrados nos idos dos anos 1990.
Pra manter a linha do inaceitável e terminar esse texto (que já me começa a dar nos nervos e eu não quero ficar nervoso na véspera de ano novo – e olha que nem falei dos absurdos casos do bondinho e das barcas), é impressionante como o poder público simplesmente caga e anda para o entorno da central e rodoviária (e “porto maravilha” e tudo o que não apareça como um lugar com “boas oportunidades para negócios”). Após voltar de um evento de arromba e pegar, pra variar, o ônibus que dá a maior volta, passamos uns “bons” cinquenta minutos pra atravessar esse pequeno percurso, eu e Pedrinho, e pudemos minuciosamente observar como aquela região é abandonada, apesar das placas de “desculpe o transtorno”, “bueiros desnivelados”, entre outras.
Enfim, por esse ano chega! Um feliz ano novo pra todos! Lembrando sempre que ano que vem tem eleição, por favor, não façam a burrada de reeleger esse mauricinho nem o outro mauricinho, filho do ex-alcaide que desgovernou as terras de Cunhambebe por praticamente 16 anos (porque o Conde, mesmo brigado, era um mero boneco e fez o mesmo que o Cesinha, né?). Já basta ter que aguentar o Cabralzinho por mais três anos no governo do estado.
Até mais, até 2012!
Escrito por Pela rua 











