Mário Lago foi um multiartista. Poeta, compositor, rádioator, ator de tv, teatro, cinema, diretor, não eram poucas suas habilidades nesses meios, sendo o início de tudo no meio musical. De suas músicas, “Ai, que saudades da Amélia” provavelmente é a mais conhecida (é impossível não conhecê-la). Todo homem já deve ter pensado em como seria a vida ao lado de uma mulher como Amélia, ao menos uma vez enquanto ouvia à música (queridas mulheres do meu Brasil e do mundo, antes de me “xingarem muito pelo twitter”, não estou sendo machista, falo apenas da possibilidade de isso acontecer um dia, tendo em vista as características patriarcais e machistas de nossa sociedade. Aliás sou de opinião de que seria terrível viver com uma mulher como Amélia, pois a ideia de mulher submissa não está com nada, o espaço que as mulheres conquistaram e ainda conquistarão um dia são de extrema necessidade para um mundo mais justo).
Voltando ao Mário, seu gosto pela noite também foi notável. Um dos muitos e admiráveis frequentadores das esquinas cariocas, da boêmia (segundo depoimento ao MIS – Museu da Imagem e do Som -, ele preferia essa acentuação ao invés de boemia com a sílaba tônica mais usual de hoje em dia), dos encantos da boa e velha Lapa dos anos 1930 e 1940, antes da primeira reforma que acabou com becos, cafés, leiterias e ruas como a tradicional Visconde de Bobadela (pros curiosos, a placa ainda resiste na fachada do mais que clássico Cosmopolita, na Travessa do Mosqueira com a Mem de Sá). Alto e magro, Mário era tido como um homem charmoso pelo pessoal da época. Dizem até que, por conta de seu estilo garboso, teve um affair com a famosa “Dama do cabaré”, cantada por Noel Rosa. Talvez por isso não fossem amigos (ou seria um tremendo “fura olho”).
Tricolor fanático, lembro-me da imagem em seu velório com o caixão coberto por uma bandeira do Fluminense. Como ele chegou a viver bastante, ainda pude pegar alguns de seus papéis em novelas e séries, que de fato representavam em muito sua personalidade. Além da verve boêmia, nem sempre possível, seus personagens ao que me lembro também tinham, de alguma forma, uma consciência política (claro que em alguns casos a emissora de tv não dava muita brecha). Ele, militante comunista, sempre teve uma vida marcada pela ideologia e por muita luta. Demitido da Rádio Nacional após a famosa deduragem de César de Alencar, Hamilton Frazão e Celso Teixeira, preso após o golpe de 1964, atuante nas diretas, a favor de inúmeras greves e manifestações populares, muitas foram as bandeiras defendidas por Mário, sempre íntegro em suas convicções.
Agora é hora do “parágrafo crítica” (não poderia faltar). Não sou apenas eu, aliás sou somente uma pequena voz que vem martelando na tecla de que não se respeita nossa história. Houve um especial de tv, um ou outro evento pela cidade, mas o desprezo pela memória da cultura brasileira mais uma vez teve sua vez. Pouco se viu por aí de homenagem (e nesse ano tivemos só de centenários além de Mário Lago, Nelson Cavaquinho, Assis Valente, Pedro Caetano, Carmem Miranda e Synval Silva, por exemplo) aos nossos expoentes. Do anti-prefeito, anti-carioca por natureza, almofadinha de condomínio, playboyzinho criado a leite com pêra pela tia-avó que não deve nunca ter subido em árvore, andado descalço fora de casa ou apanhado chuva desprotegido à contrariedade de seus responsáveis, nunca esperei mais do que essa esnobação, mas nem por isso devo deixar de reclamar. O efeito catastrófico que essa imbecilidade crônica que comanda a cidade produz para a mesma é de dar calafrios. A essência do carioca pra esse bando de babacas deve ter alguma relação com esse mundo tecnocrata que eles tanto prezam, abdicando de toda a capacidade criativa e de improviso que sempre permitiu com que o carioca pudesse encontrar formas de sorrir diante das dificuldades, muitas das quais criadas por esses próprios ignóbeis da elite sebastiana. A política de cultura, não bastasse a falta de verbas, ainda sofre nas mãos desses vermes por conta desse descaso.
No entanto, enquanto houver na cidade a aura malandra e contestatória de Mário Lago e de tantos outros, podemos estar certos de que ainda há esperança para o Rio. Que seu centenário, comemorado dia 26 de novembro, não passe em branco (isso aqui já é uma forma de dizer que não passará). Que atire a primeira pedra aquele que tem algo contra!
Vamos terminar com umas musiquinhas, pra descontrair. De Mário Lago e Roberto Roberti (o vídeo está errado, não é do Ataulfo), Aurora (não queria pensar no carnaval, mas é inevitável):
Outra de melodia linda é Nada além (parceria sua com Custódio Mesquita):
Ai, que saudades da Amélia (Mário Lago e Ataulfo Alves, na voz do Ataulfo):
Atire a primeira pedra (outra parceria de Mário com Ataulfo, na voz de Orlando Silva - não o ex-ministro, mas o original, ídolo do rádio, o “cantor das multidões”):
Até mais!
