Nelson Cavaquinho 100 anos

Mais um centenário é celebrado neste blog. A figura da vez é Nelson Antônio da Silva, o Nelson Cavaquinho. Essa é a postagem número 100 do aclamado (?) Pela Rua, e não é para menos. Há exatos cem anos (mais ou menos, pois ele mesmo já disse ter nascido no dia 28 e não no 29) vinha ao mundo aquele que encantou a todos com sua voz peculiar de “taquara rachada”, rouca que só a dele. Mas não vamos falar mal disso , de forma alguma. Sua voz se tornou marca registrada, assim como seu jeito peculiar de tocar violão.

Não é proposta dessa postagem realizar sua biografia (aliás, nunca é, em nenhuma das figuras homenageadas o foi), apenas feita para reavivar, se é que precisa, a história de um dos maiores expoentes do samba e da música brasileira. Bom de bola, jogador do Barreira na juventude, mais tarde soldado da polícia militar graças ao seu pai, rapidamente Nelson abandonaria esta vida para dedicar-se à música e à boemia. Também pudera, era seu trabalho fazer rondas noturnas a cavalo nas intermediações da mangueira, onde conheceu, entre outros, Cartola e Carlos Cachaça, aí já viu.

Reza a lenda que, em virtude das bebedeiras homéricas, o cavalo aprendeu a se deslocar sozinho de volta para o quartel, carregando um moribundo guarda, dormindo apagado, em seu lombo. Certa vez, dizem, o cavalo cansou de esperar pela volta de Nelson e retornou sozinho. Não deu outra. Era uma vez um emprego, felizmente para nós. Começava uma carreira, das maiores do samba. O mundo ficou mais bonito com suas músicas.

Dessas, o tema da morte foi bastante recorrente, representando não o medo, mas a certeza de seu desencarnar. A Estação Primeira de Mangueira, escola de seu coração, também em muitas oportunidades foi tema de suas músicas, assim como foram muitas as musas e canções com letras doloridas. No entanto, a imagem que fica dele é sempre a de amizade. Um cara franco, um exemplo de ser humano. Caridoso que só ele (não à toa, Caridade era sua canção mais sincera, segundo o próprio), também foi retribuído pelos outros grandes da Mangueira – e aqui eu conto talvez a única história inédita dessa postagem –  como no caso de uma filmagem (que meu pai participou junto com a equipe, no que seria um lançamento para divulgação da gravadora EMI, que nunca acabou saindo, embora ainda haja os negativos por aí), que seria provavelmente Alvorada de Cartola, mas, por vontade do próprio Angenor e de Carlos Cachaça, que bebiam com a produção, a música escolhida foi Sempre Mangueira, de Nelson Cavaquinho, como presente de mestre para mestre, a ser cantada pela guerreira Clara Nunes. O curioso dessa história é que Nelson não apareceu nas filmagens, provavelmente por estar bebendo em algum buraco. Carlos Cachaça e Cartola apareceram no clipe, além, é claro, da energia pulsante de Clara.

Voltando ao Nelson, várias foram suas parcerias no meio musical, tendo como destaque Guilherme de Brito, outro monstro sagrado. Batendo ponto nos balcões dos botequins da praça Tiradentes, muitas foram as canções que se originaram ao redor do líquido amarelado, de amigos, de figuras típicas do centro, especialmente o pessoal do submundo carioca, mendigos, vagabundos, prostitutas e toda sorte de frequentadores daqueles balcões. Um cenário pra lá de inspirador, onde Nelson se sentia em casa. Ainda está pra nascer alguém que beba o que o grande Nelson bebeu ao longo de sua vida (e olha que não faltam concorrentes). Ele, que tinha o hábito de abrir os trabalhos na segunda-feira e só terminar na quinta, utilizando sexta, sábado e domingo para se recuperar, não era nada convencional nesse sentido. Eu, que nasci depois de sua morte, muito provavelmente não o encontraria nunca em um bar, pois faço exatamente o contrário, em proporções certamente muito menores. Aliás, muitas de suas parcerias somente existiram por conta do bar, pois, na falta de dinheiro pagava-se com parceria, nada mais humano. 

É, por outro lado, muito triste ver qo quão pouco ele é lembrado. Uma cidade que ele tanto amou à sua maneira, mas que infelizmente não o homenageia à altura. Tive a poportunidade de ontem assistir à sua homenagem com a velha-guarda da Mangueira e o cracaço Elton Medeiros, sensacional (santa folga!). Os músicos, a bem da verdade, nunca deixaram de homenageá-lo. Jogam no mesmo time (mas não vamos falar sobre o time de futebol dele, pois todo mundo já sabe, hehe). Sem mais delongas, vamos logo às suas músicas:

A flor e o espinho:

Sempre Mangueira:

Folhas Secas:

Rugas:

Juizo Final:

Quando eu me chamar saudade:

Uma dele tocando cavaquinho (Caminhando):

Minha festa:

Pranto de poeta (com Cartola cantando e curtíssima participação de Nelson):

E pra finalizar (selecionei apenas algumas porque ele tem muita coisa boa) o curta-documentário de Leon Hirszman sobre Nelson Cavaquinho:

Até mais!

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

You are commenting using your Twitter account. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

You are commenting using your Facebook account. Sair / Alterar )

Connecting to %s

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.