O final de ano se aproxima, muitos são os motivos para se comemorar e as festividades que ocorrem em todos os lugares. Logicamente, nos botequins, a vida não poderia ser diferente. No entanto, essa nona edição da série Banheiros de Buteco possui algumas particularidades quanto a isso. Primeiramente, a ida ao boteco em questão não se deveu a nenhuma festividade de final de ano, sendo praticamente rotineira pra alguns. Em segundo, fazia parte da despedida de uma pessoa da tradicional pelada da galera.
Se fosse apenas sua despedida da pelada, o problema seria apenas o de encontrar alguém com um faro de gol tão apurado e um fôlego pré-infantil tal qual o de sua pessoa. Acontece que João, o rapaz em questão, o cara com o qual provavelmente mais litros compartilhei da mesma garrafa, entre outras histórias que necessitariam de um série de postagens, resolveu sair do Rio de mala e cuia, deixando-nos desorientados. Vai ser foda aguentar essa cidade cada vez mais avacalhada pelas oficialidades sem o convívio direto e contínuo com esse cara, para dizer o mínimo. Felizmente, restam ainda muitos tão queridos como ele, além do fato de que sabemos ter sido essa mudança praticamente uma ampliação dos limites dos subúrbios da central. A experiência prática já comprovou isso.
Bom, vamos falar do buteco. Conforme já adiantei, quinta-feira à noite rola a tradicional pelada da galera. Após a mesma, vez por outra o troço se estende até o bar próximo, situado na rua Gago Coutinho, número 51, ora apenas pra uma básica hidratação (comprove aqui), ora pra assistir a algum jogo da rodada, ora pra encher a cara mesmo. Na ocasião relatada, obviamente, a intenção foi fechar o estabelecimento. Além dos peladeiros, em peso e sobrepeso, figuras que por diversos motivos, que vão de contusões até os menos nobres trabalho e estudo no horário, não podem mais frequentar cotidianamente as disputadas pelejas, estiveram presentes. Sendo majestosamente atendidos pelo garçom Sabino, o melhor que conheço em toda zona sul, Zé, o dono, e aquele outro magrinho de cabelo preto que não lembro o nome nem por um decreto da presidenta, abrimos os trabalhos, em meio àquele tiragosto de batatinhas e azeitonas que os clientes habituais desfrutam por lá, graças ao Henrique, o primeiro assíduo da localidade dentre os da galera. O bar, antigamente conhecido como Adega 51 Cervejaria, hoje em dia atende pela alcunha de Baixo Gago. Um botequim espaçoso, com dois ambientes (ar-condicionado lá dentro), além da tradicional calçada, que não pode comportar mesas por conta da frescurite aguda do prefeito. Conforme vocês poderão ver, os donos não se importaram em manter a mística que construiu a história do lugar.
O primeiro sinal de que há um respeito pelas tradições do lugar está na manutenção do toldo com o nome antigo. Tudo bem que a troca do mesmo seria um custo para os donos, além do fato de que o atual está nos trinques, mas a manutenção de aspectos tradicionais faz toda a diferença na hora de conquistar a simpatia de seus clientes. Dá pra ter uma ideia da entrada do botequim também. Deem uma olhada vocês mesmos:

O segundo sinal está nas pedras portuguesas. Marca registrada da cidade maravilhosa, neste caso elas compõem o nome antigo do bar. Na foto é possível ler apenas parte do nome, pois achei que seria muita folga pedir pro pessoal do bar dar licença para uma simples foto. As pernas de Thiago (com sua chuteira nova) e Pedrinho, o joelho de molho, ficam em evidência:

Nesta terceira foto, quase abaixo do teto que abarca o boteco, na linha do balcão, o atual nome. Vou lhes dizer que essa história de “Rei do petisco” não é mera bravata. O cardápio variado de salgados, torresmos, esfihas (que saem que nem água, ou melhor, cerveja por lá – também pudera, são iguais às famosas do Largo do Machado), bolinhos de bacalhau, kibes, pastéis, porções de batata, entre tantas outras coisas (a comida é certamente um diferencial do botequim), faz a alegria da galera.

Feita a introdução, vamos ao banheiro, situado nos fundos à direita do ambiente refrigerado. A foto mostra a imagem que nós temos logo na entrada. Dá pra perceber de cara que é um espaço repleto de detalhes. A pia no canto direito, o mictório no esquerdo, o papel para as mãos no alto à direita, o papel higiênico e a lixeira ao fundo e a torneira do registro, verde, à esquerda. O banheiro comporta até duas pessoas, apesar de sua estreiteza. Os arquitetos têm muito o que aprender com a sabedoria popular na arte de otimizar seus espaços: 
Comecemos inversamente ao processo de utilizar o lavatório. Primeiramente vemos a pia, a saboneteira (para sabonetes líquidos) e a pontinha do porta-papéis (serão examinados detalhadamente mais tarde). Uma pia de quina, arredondada em sua abóbada, tendo o mármore em curva para não machucar os clientes. Prezando sempre pela higiene destes, sabonete e papel não faltam (e olha que na hora da foto – por conta do calor que fazia não foram necessárias tantas visitas – já estávamos no adiantar da hora):

Virando o olhar para a esquerda, o mictório. Ligado por cima à tubulação do bar, o detalhe máximo da imagem em questão está no limão estrategicamente colocado em seu interior para diminuir o odor das águas que saem dos joelhos alheios. Este mecanismo não é nenhuma novidade, mas faz com maestria seu papel. Oito furinhos compõem seu ralo (dois escondidos pelo limão), um modelo clássico!

Seguindo em frente e virando à direita, chegamos agora no vaso sanitário. Não estava dos mais limpos, mas também pudera, o bar fecharia em menos de meia hora. A lixeira repleta de papel comprova que a movimentação por ali foi bastante intensa. A limpeza seria feita poucos minutos depois, pra deixar tudo nos trinques para o dia seguinte. A descarga de cordinha não foi flagrada, mas é perceptível pelo cano vertical grudado ao vaso. Nada a se queixar pelo adiantar da hora:

Como falamos anteriormente, o banheiro em questão é repleto de detalhes. Aproveitando a edição comemorativa de fim de ano, destrincharemos três aspectos minuciosos para vocês. O primeiro, a parede que separa a primeira parte do reservado, onde ficam a pia e o mictório, da segunda, local da privada. De boa altura, cobre bem a visão de eventuais curiosos, tendo ainda dois rolos de papel higiênico para possíveis emergências e reposições. Mais uma vez, a higiene em primeiro lugar. Ainda podemos observar a porta, de madeira, pintada de marrom escuro, trazendo esses adesivos que viraram moda nos carros de passeio, um adulto entre dois meninos (o segundo não aparece) e duas bolas de futebol, representando parte da família de alguém de lá (não sei se é do Zé, pois sei que ele tem uma filha), ou talvez uma mera alegoria a simbolizar o banheiro masculino.

O próximo detalhe traz os já mencionados porta-papel e saboneteira, ambos de composição plástica, um de tom bege e outro branco. O interruptor do banheiro surge como a novidade desta fotografia, raramente notado pelos frequentadores, apesar de não estar escondido, menos em situação de escuridão, na necessidade de se enxergar no breu para executar direitinho o objetivo proposto após adentrar no toalete (quando o bar está pra fechar, após a limpeza final, a luz é apagada). Ainda é possível ver a pontinha da torneira metálica da pia:

A última foto traz um detalhe no mínimo curioso. No extremo canto esquerdo, no teto, vemos esse buraco, sem utilidade e aparentemente sem explicação. Conjecturamos que está ali por ser um canto ausente de encanamentos, mas não há nenhuma certeza de nada. Fica a proposta para você leitor, mande uma cartinha (na seção comentários do blog) para o Pela Rua com sua opinião e concorra a um agradecimento pela sua participação, sempre benvinda:

Não é nem preciso falar que fechamos o bar. O grande Sabino ainda descolou aquelas últimas como cortesia, além de uns petisquinhos. Foi a primeira de uma leve série de despedidas encerradas na última rodada do brasileirão (quis propor ao João um brinde conjunto à aposentadoria de Angelim e à morte do doutor Sócrates, mas ele rejeitou humildemente a sua incursão neste seleto grupo). Saímos junto com o dono e funcionários, cada um pra um lado, afinal em buteco fechado não havia mais motivo para marcar território.
Até mais!
P.S. Que a série Banheiros de Buteco está aos poucos conquistando admiradores por todo o globo terrestre não há a menor dúvida. Mas, finalmente, temos a primeira contribuição, do leitor e amigo Cizenando Cipriano Jr., o Sicrano do multiconceituado (com razão) blog Pau Na Mesa. A dica não vem exatamente de um boteco, mas é de grande valia para futuros estudos. Vejam quanta beleza e inventividade na decoração do banheiro da Cachaçaria Dona Branca, em João Pessoa:
